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O
novo define-se em resposta ao que já está estabelecido;
–– Mark Fisher em “Realismo Capitalista: Não há alternativa?” |
Grafites, murais, cartazes e outras possibilidades nas formas de expressão da arte urbana ganham uma retrospectiva importante com a mostra “Arte urbano. De los orígenes a Banksy”, aberta ao público na Fundação Canal de Madri (link para a exposição no final desta postagem). Como as obras originais estão em paredes e muros de diversas cidades, ou em muitos casos sobrevivem apenas como lembrança em fotografias, a curadoria estabeleceu um suporte único para todas as peças, que são apresentadas em serigrafia sobre papel. Há também fotografias que registram as obras em seu espaço original e registros sobre os artistas em ação nas ruas e nas redes sociais da internet, que transformaram radicalmente a circulação da arte urbana.
Com curadoria de Patrizia Cattaneo Moresi, a exposição propõe um passeio internacional por um fenômeno nascido fora das instituições, na rua e para a rua, que tem questionado radicalmente os limites da arte tradicional. A arte urbana redefiniu a relação entre criação artística, espaço público e sociedade, mantendo uma tensão entre o ilegal e o legitimado, entre rebelião e reconhecimento institucional, sem perder de vista as tensões que continuam a definir o movimento. É uma exposição ambiciosa que lança luzes sobre uma interface fundamental da arte contemporânea, cobrindo um percurso de seis décadas com uma amostragem de mais de 60 obras de alguns de seus artistas mais influentes e consagrados, entre eles Jean-Michel Basquiat, Keith Haring, Bigtato, Blek le Rat, JR, Invader, Suso33, El Xupet Negre, PichiAvo, Ozmo, Wedo Goás e Os Gêmeos. Banksy está em destaque.
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A decisão da curadoria pela apresentação das obras em serigrafias sobre papel contorna várias questões de ordem técnica e jurídica, porque garante uma qualidade de reprodução que mantém as características visuais dos trabalhos originais, com um repertório variado de épocas, técnicas, mídias e materiais, e porque seria quase impossível garantir a autorização de todos os artistas para uma exposição presencial das obras no suporte original. Um problema adicional quanto à arte de rua refere-se exatamente à vida efêmera de muitas obras, além da questão da atribuição de autoria, porque muitos artistas permanecem na condição de rebeldes ou arautos da contestação, fora dos padrões convencionais do mercado de arte, produzindo seus trabalhos à revelia do espaço público e privado, muitas vezes na clandestinidade, sob pseudônimos ou assinando obras coletivas.
Diálogo irônico
Todas
as questões referentes à arte urbana têm
convergência no caso singular de Banksy, figura central na arte
contemporânea
– o artista mais popular e polêmico das últimas décadas que
mantém em sigilo sua verdadeira identidade, no melhor estilo dos
super-heróis da ficção. Não
é por acaso que uma
das galerias da exposição é dedicada exclusivamente a Banksy,
descrito no dossiê de imprensa da Fundaão
Canal como “um artista essencial para compreender a dimensão
mediática e simbólica da arte urbana no século 21”. Além da
estratégia do artista sobre o anonimato e o
mistério em torno de sua figura, as
obras de Banksy são uma síntese da arte
urbana em
seu diálogo irônico com a
mídia e
com questões políticas.
Com a internet e as redes sociais, suas
obras não ficam restritas
a um local específico
de
uma cidade:
elas dão a volta ao mundo em questão de horas.
A
trilha da arte urbana até Banksy:
uma
amostra
de
outros
pioneiros
que marcaram época nas ruas
de
Nova York. No
alto, Shadowman,
grafite de 1982
do
canadense Richard Hambleton. Acima, grafite e
retrato
de Keith Haring em uma sala da exposição.
em acrílico de Jean-Michel Basquiat que retrata
o espancamento que levou à morte do artista de rua
Michael Stewart pela polícia de Nova York, em setembro
de 1983, porque ele estava pichando uma estação de
metrô. Stewart, Basquiat, Hambleton e Keith Haring
participavam do mesmo grupo de grafiteiros
Banksy fornece um paradigma: as primeiras obras do artista surgem em Bristol, na Inglaterra, que se supõe ser sua cidade natal, no começo da década de 1990, e desde então sua trajetória se confunde com a popularização da arte urbana, que deixou de ser algo clandestino e passou a ocupar grandes museus e exposições de primeiro nível. Banksy também é a expressão de um paradoxo: alguns dos seus trabalhos mais conhecidos, como “Girl with Balloon” ou “Love is in the Air”, foram vendidos por milhões de dólares em leilões internacionais, à revelia do artista, que se recusa a vender suas obras, mantendo sua postura anti-capitalista. No entanto, a maioria de suas obras surgem em espaços públicos ou privados, feitas sem autorização, o que as torna ilegais. Algumas foram apagadas ou destruídas, horas depois de serem descobertas. Outras foram removidas e depois vendidas.
Conquista da visibilidade
O
recorte histórico da exposição deixa de fora os antecedentes da
arte do grafite em murais e pichações políticas que atravessaram
diversos
períodos da
história da arte, da Antiguidade Clássica à Arte Moderna. As
origens, nomeadas no título da exposição, são situadas somente
a partir dos
primeiros grafites que surgiram no contexto
da contracultura no
metrô de Nova York e
outras grandes cidades,
na segunda metade da década de 1960, e o percurso do
que se convencionou chamar arte urbana ou “street art”, arte das
ruas, segue a trilha das
obras que surgem nos espaços públicos e que gradativamente alcança
reconhecimento em museus
e
valorização pelo mercado tradicional. O percuso vai da
informalidade das ruas para os museus e galerias de
arte, ganhando
o status de arte
contemporânea que
tem, como ápice, o
fenômeno global que Banksy representa na atualidade.

A
trilha da arte urbana até Banksy:
acima,
grafite do
artista Caper com o coletivo R 2 F (Ready to Fascinate)
criado
em 1987, em Londres, inaugurando um estilo
que gerou uma legião de fãs e imitadores mundo afora.
Abaixo,
I Love Beef, em técnica mista de estêncil
(molde recortado), spray e tinta acrílica, criação de
2012 de Blek
le Rat, pseudônimo de Xavier Prou,
um dos pioneiros
do grafite em Paris, com atuação
a partir de
1980. Ele justifica o nome artístico com a
escolha de
“rato” por considerar que é um dos únicos
animais realmente
livres nas cidades e por inspiração
do herói de
histórias em quadrilhos Blek le Roc, com
“Rat” formando
um anagrama para a palavra “Art”
Das primeiras “tags” grafitadas, quase sempre em forma de assinatura, em praças e estações de metrô, primeiro no Bronx, no Harlem ou no Brooklyn, bairros na época marcados pela desigualdade e pela exclusão. Tomado inicialmente como forma de protesto e de denúncia, o grafite avança com o passar dos anos para obras mais elaboradas. É quando passa a ser adotado o termo italiano “graffiti”, plural de “graffito”, que vem do verbo “graffiare”, significando arranhar ou riscar. O significado literal refere-se aos rabiscos feitos com carvão ou objetos afiados, que no contexto da arte urbana foram sendo substituídos por pincéis e por tinta em spray, por conta da urgência e da pressa da ação clandestina, até começarem a conquistar espaços de maior visibilidade a partir do começo dos anos 1980.
Entre o legal e o ilegal
Um
dos pioneiros da
arte urbana foi
Demétrios, um entregador e office-boy de descendência grega em Nova
York, que não
tinha pretensões de artista e apenas escrevia
seu pseudônimo Taki 183 pelas ruas. O pseudônimo saiu
de seu nome de nascimento “Dimitraki” e o número 183 veio
de seu endereço na 183rd Street, em Manhattan. Em 1971, as
inscrições de Taki 183 eram tão conhecidas e geravam tanta curiosidade que foram tema de uma
reportagem investigativa de grande repercussão no The New York Times, mas o
artista decidiu permanecer no anonimato e nunca
revelou
seu nome completo. O sucesso de Taki 183 estimulou centenas de
imitadores – e alguns acabaram ficando conhecidos pela originalidade, entre
eles Joe 136, Barbara 62, EEL 159, YANK 135 e LEO 136.
A
trilha da arte urbana até Banksy:
acima,
o
mural
As
Mouras de Fene, do galego Edgar Goás Blanco,
mais
conhecido como Wedo Goás, na província de
Corunha,
Espanha, representando seres míticos do
folclore
local – mural que foi eleito como o melhor
do
mundo em 2025 pela plataforma Street Art Cities
Abaixo,
mural gigante de 2017 dos brasileiros Otávio e
Gustavo
Pandolfo, mais conhecidos como Os Gêmeos,
em
fotografia de Martha Cooper; e
Medusa, mural que
foi
pintado em Lisboa, Portugal, por uma dupla da
Espanha,
Pichi e Avo (que assinam como PichiAvo)


Uma
questão inevitável sobre o
grafite
e as pichações são as fronteiras entre arte e vandalismo, entre
o legal e o ilegal, com
o argumento equivocado de que grafite é arte e as inscrições das
pichações são vandalismo. No dossiê de imprensa da exposição, a
curadoria defende que as fronteiras dependem do contexto, já
que tomar uma intervenção das ruas e transferi-la para um museu
implica em uma “recontextualização”. Ao sair das ruas, a obra
perde seu significado original e adquire outro, condicionado pelo
novo ambiente. O que acontece com as obras de Banksy aconteceu com
nomes pioneiros como
Keith Haring e Samo,
pseudônimo de Jean-Michel
Basquiat, que
ganharam destaque
no
começo dos anos 1980,
também em Nova York, conseguindo
a proeza
de atravessar
a fronteira entre a rua e o museu e
formando
uma forte influência para outros artistas
no mundo inteiro.
A
trilha da arte urbana até Banksy:
no
alto,
o
mural
Você
vale mais do que muitos pardais, pintado
com
tinta
acrílica
sobre
PVC por
Ozmo,
pseudônimo da
artista
italiana Gionata Gesi, em
2016, representando
uma
pirâmide social com
seis andares: na
base estão
trabalhadores
e manifestantes, seguidos de
banquetes
da
elite;
nos
andares de cima,
estão
os militares;
depois,
os
religiosos;
depois,
políticos;
e por cima, o
dinheiro.
A
composição inclui a frase “Na arte confiamos”.
Acima,
outro mural
de Ozmo, criado
em 2022, em plena
pandemia de Covid, com o tema bíblico da
criação do
mundo, em
160
metros quadrados em uma parede
de
mármore no Cava Galleria
Ravaccione, em Carrara,
na Itália,
região famosa
pela extração de mármore
que
é feita desde
os tempos da Roma Antiga.
Abaixo,
grafites e pichações anônimas nos muros
medievais
de Zamora, em Castela e Leão, norte da
Espanha,
que provocaram polêmica quando surgiram,
em
2019, mas não foram removidos pelas autoridades
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Controvérsias e preconceitos
Com a valorização do grafite, paredes, trens e fachadas tornam-se enormes telas, com novos artistas surgindo em cidades de vários países, fazendo uso de cores e estilos dos mais variados para expressar mensagens de afirmação de identidade e de conflitos sociais. No recorte que a exposição selecionou, as mensagens em tons de política e de inconformismo são compartilhadas pela maioria dos artistas, com a intenção decorativa em segundo plano. Os grandes nomes da arte urbana destacam, na ocupação do espaço público, o questionamento sobre assuntos muitas vezes desconfortáveis. Para a maioria dos artistas selecionados na exposição em Madri, a rebeldia surge em primeiro plano, como estratégia fundamental, mas sem abrir mão de uma expressão poderosa em nível visual e conceitual.
Com seus temas de identidade, liberdade e rebeldia, a arte urbana que nasceu nas ruas passou a ocupar, cada vez com mais frequência, os espaços nobres de museus e galerias, expandindo as fronteiras da arte moderna, da Pop Art e da arte contemporânea para a interface do humor e da crítica social. Tal passagem enfrentou e enfrenta resistência e não está livre de controvérsias, de preconceitos e juízos de valor elitizados que ainda consideram como Grande Arte somente as formas convencionais de inspiração figurativa e renascentista. Mesmo com as controvérsias ou, em muitos casos, a criminalização sob a acusação de vandalismo, as obras selecionadas na exposição permitem uma avaliação de conjunto sobre a evolução da arte urbana na expansão de técnicas, na diversidade dos processos e nas mensagens mutantes do seu diálogo com o mundo em que vivemos.
por
José Antônio Orlando.
Como citar:
ORLANDO, José Antônio. A trilha da arte urbana até Banksy. In: Blog Semióticas, 5 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/02/a-trilha-da-arte-urbana-ate-banksy.html (acesso em .../.../…).
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A
trilha da arte urbana até Banksy:
acima,
Anatomia
de Asto, grafite de 2011 do francês
Rudy
Dougbe,
mais conhecido como Pro176.
Abaixo,
grafite de 2016 da série Nightmare
(Pesadelo), do galês
Charles Uzzell-Edwards,
mais
conhecido como Pure Evil; seguido de
Matrix, grafite do
norte-americano Poem One,
que tem atuação na
arte de rua desde a década
de 1980; um grafite
de 2025, Choque natural,
criação do artista
da Suiça conhecido por Bigtato;
e o cartaz com Banksy na abertura da
exposição na Fundação Canal em Madri
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Sobre grafite e arte urbana, veja também:
https://semioticas1.blogspot.com/2011/07/a-arte-do-grafite.html
Semióticas – A guerra de Banksy
https://semioticas1.blogspot.com/2012/11/banksy-guerra-e-grafite.html
Semióticas – A imitação de Banksy
https://semioticas1.blogspot.com/2015/03/a-imitacao-de-banksy.html
Semióticas – A retrospectiva de Banksy
https://semioticas1.blogspot.com/2016/07/a-retrospectiva-de-banksy.html
Semióticas – A noite do Natal de Banksy
https://semioticas1.blogspot.com/2019/12/a-noite-do-natal-de-banksy.html
Semióticas – Aventuras da percepção
https://semioticas1.blogspot.com/2013/04/aventuras-da-percepcao.html
Semióticas – Cenas de Sinequismo
https://semioticas1.blogspot.com/2017/02/cenas-de-sinequismo.html
Semióticas – Vida de artista
https://semioticas1.blogspot.com/2011/10/vida-de-artista.html |


















Parabéns por esta postagem maravilhosa e por tudo mais que tenho encontrado neste blog Semióticas. Os textos são impecáveis, muito bem escritos, e a edição de imagens é um espetáculo.
ResponderExcluirMuito obrigado por compartilhar coisas tão bacanas e tão especiais.
Gilberto Pimentel