terça-feira, 5 de agosto de 2014

Nudez e arte da fotografia










Numa sociedade moderna, as
imagens feitas por câmeras são
o principal acesso à realidade
– um número ilimitado de imagens
do que não experimentamos
diretamente.

Susan Sontag – “Photography:
A Little Summa”
 



A beleza do corpo humano e sua nudez sempre foram um presente para a fotografia desde seus primórdios, em meados do século 19. O primeiro registro desta aproximação irresistível nasceu exatamente em 1837 – quando o primeiro nu apareceu como assunto principal em uma fotografia do pioneiro Louis-Jacques-Mandé Daguerre, segundo informa Paul Martineau em “The Nude in Photography”, catálogo fotográfico recém-lançado pelo Getty Museum de Los Angeles.

Precedida por um breve ensaio escrito pelo próprio Martineau, intitulado “Masterworks of the Nude” (Obras-primas do nu), a seleção de belas imagens cobre os primeiros séculos da história da fotografia, no período entre 1837 e 2014, para lançar luzes sobre a evolução dos costumes e sobre os avanços técnicos na arte de lidar com as câmeras (sobre o tema Nudez e Fotografia, veja também  Semióticas: Nu perante a câmera). O autor, que é curador do departamento de fotografia do Getty Museum e autor das biografias de Paul Outerbridge, Herb Ritts e Eliot Portere, apresenta em 112 páginas uma bela coleção de 78 obras de 64 fotógrafos de várias épocas e nacionalidades.

A seleção de Martineau sobre a nudez na fotografia começa com uma breve retrospectiva de antigas esculturas dos deuses gregos e romanos, que o autor apresenta como fonte da ideia de beleza e perfeição geradas a partir do corpo humano. A longa história da nudez na trajetória da arte é resumida por Martineau em pouco mais de uma dúzia de fotografias que viajam no tempo: da Antiguidade Clássica à Idade Média e daí a obras-primas dos séculos seguintes – até surgir a fotografia.










Nudez e arte da fotografia: no alto,
Thomas (1987), de Robert Mapplethorpe.
Acima, Le Violon d'Ingres (1924), de 
Man Ray, e as versões em pintura (óleo
sobre tela) e fotografia (daguerreótipo) de
Thomas Eakins para a mesma cena em
Male Figures at the Site of Swimming (1884).
Abaixo, capa e contracapa do livro publicado
por Paul Martineau, seguidas das imagen:
Female Nude, daguerreótipo de 1856 de
Felix-Jacques Antoine Moulin;
Nude, Davenport, Iowa, Composite with
Leaves, fotografia de 1941 de Edmund Teske;
e Nude Foot, San Francisco, California,
fotografia de 1947 de Minor White





 












História da moral e da beleza



A partir de meados do século 19, com a invenção e evolução das câmeras, a história da nudez passa a se confundir com a história da fotografia, como comprova o acervo selecionado por Paul Martineau em “The Nude in Photography”. Entre as primeiras experiências de registro fotográfico por Nicéphore Niépce, em 1816, e a fixação do processo por Daguerre, no final de década de 1830, são as pessoas o tema principal das imagens públicas – mas os estúdios dos fotógrafos também descobriram o valor comercial do nu elevado a um novo tipo de arte, reservada a plateia menor, masculina e de posses, em meio a muitas polêmicas sobre as fronteiras entre moral e pornografia que ainda hoje sobrevivem.

O nu fotográfico, na seleção de Martineau, inclui imagens que ficaram muito conhecidas com o passar do tempo e outras que surgem como revelações de nomes pouco lembrados. A variação temática também é surpreendente – destacando desde clássicos que passaram à história da arte, como “Le Violon d'Ingres” (1924), do mestre entre os modernos, Man Ray, ao registro multimídia de artistas contemporâneos que misturam fotografia e diversas técnicas, caso de obras como “Bodyscape, New York, 1971”, do chinês Hiro.
 

 







A aproximação da fotografia com a trajetória da arte nos últimos dois séculos também produziu obras que lembram, pelas formas, enquadramentos e perspectivas, alguns dos mais belos registros na pintura do mesmo período – até porque muitas destas fotografias foram usadas como modelo de estudo no século 19 e começo do século 20 por grandes mestres das artes plásticas. Alguns destes casos ficam quase evidentes na seleção de Martineau em fotos como “Female Nude, 1856”, de Felix-Jacques Antoine Moulin, que inevitavelmente remete às mulheres dos cabarés de Paris em obras-primas de Manet e outros impressionistas.




Convencional e não convencional



Há também, na seleção, obras de mestres do século 19 que ainda são referência e inspiração para fotógrafos atuais, entre eles Julia Margaret Cameron, Edgar Degas, Thomas Eakins e o citado Felix-Jacques Moulin, pioneiros na arte de combinar a nova tecnologia com os parâmetros da composição clássica nas artes plásticas. Com a chegada do século 20, a oposição entre fotografia e outras artes vai perdendo as linhas divisórias – como demonstram na coleção do Getty Museum os nus nada convencionais de Man Ray, Alfred Stieglitz, Edward Weston, Bill Brandt, Harry Callahan, Minor White. 








A partir do alto, Two Women Embrancing,
daquerreótipo de autor desconhecido datado
de 1848; “Portrait of an American Youth”,
daguerreótipo de 1852 colorido a mão,
atribuído a Jeremiah Gurney; e
Male Figure in Repose”, daguerreótipo
datado de 1860 atribuído a Gaudenzio
Marconi. Abaixo, Nudes, fotografia
experimental de 1969 de Charles Swedslund,
seguida da capa do livro de Martineau;
Nude Margrethe Mather, fotografia de
1923 de Edward Weston; uma imagem da
série Ziegfeld Girls, realizada na década
de 1920 por Alfred Cheney Johnston;
as top models Stephanie, Cindy, Christy,
Tatjana e Naomi no polêmico ensaio
de 1989 de Herb Ritts; e Bodyscape,
New York, 1971, do chinês Hiro




 

A segunda metade do século 20 é representada, na seleção de Martineau, por nomes como Diane Arbus, Robert Mapplethorpe e Herb Ritts, além dos contemporâneos Chuck Close, Timothy Greenfield-Sanders, Hiro e Mona Kuhn, entre outros. Seja nas formas robustas e algo acanhadas de seus primeiros modelos no século 19, seja no realismo forçado da pornografia e da publicidade rotineira, seja nos enquadramentos que buscam o abstrato ou no barroco das intervenções híbridas em multimídia, a seleção de Martineau confirma que a beleza fotográfica de nossos corpos nus sempre foi e continua tão misteriosa quanto fascinante.


por José Antônio Orlando.



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8 comentários:

  1. Danielle Luisa Herrera8 de agosto de 2014 08:43

    Que texto, José, que imagens, que blog mais incrível. Não vi nada igual. Virei fã na primeira visita. Parabéns. Tudo lindo e impressionante por aqui.

    Danielle Luisa Herrera

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  2. Silvânia Cordeiro9 de agosto de 2014 12:41

    Parabéns pelo blog, sensacional, e por este artigo mais sensacional ainda sobre a nudez e a fotografia. Estou encantada com a qualidade impecável do seu trabalho. Parabéns demais!

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  3. Carlos Albuquerque10 de agosto de 2014 12:12

    Não é comum encontrar um blog de tanto alto nível como este Semióticas. Parabéns pelo belo trabalho. Ganhou mais um fã de carteirinha. Carlos Albuquerque

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  4. Aline Maria Gonzaga12 de agosto de 2014 11:31

    Amei!
    Show de blog e show de reportagem sobre a nudez.
    Este virou meu site preferido de todos.

    Aline Maria Gonzaga

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  5. Parabéns pelo site e por este ensaio especial. Tudo aqui neste Semióticas é lindo e inteligente. Inclui como referência bibliográfica em meu TCC. Excelente mesmo. Show!
    Carlos Fontana

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  6. Um show de beleza, arte, matéria, uma aula imperdível. Não me canso de parabenizar você pelo talento, pelo trabalho, empenho, você é todo Arte. Suprema honra acessar o blog. Sou grata.
    Abraços,.

    Carmen.

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  7. Estou encantada com tanta beleza e sabedoria. Preciso registrar aqui que este Semióticas é o melhor de todos os blogs e sites que já visitei navegando na Internet. E olha que eu navego! Este ensaio sobre nudez e fotografia e o outro, Nu perante a câmera, valem por um curso de pós-graduação. Aliás, não só estes, mas todos os outros neste blog maravilhoso. Parabéns demais! Sou grata.

    Elaine

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