sexta-feira, 6 de abril de 2012

Ensaios de Lya Luft






A escritora Lya Luft é um sucesso inquestionável de público, com mais de 20 livros publicados. Mas há controvérsias. Por décadas considerada unanimidade, nos últimos anos ela tem ousado cada vez mais, expôs suas posições políticas e opções partidárias e acabou dividindo as opiniões da crítica. Alguns de seus desafetos na imprensa até chegaram a acusá-la de trocar a literatura pela produção de livros de auto-ajuda.

Impávida e segura de si, ela segue em frente e continua trilhando novas possibilidades com seus textos às vezes difíceis de classificar. Há pouco tempo, decidiu investir em ensaios, com a publicação de “Múltipla Escolha” pela editora Record. Antes de chegar a esta coletânea de ensaios, a lista de livros escritos por Lya Luft – que nasceu na pequena cidade gaúcha de colonização alemã Santa Cruz do Sul e completa em setembro 74 anos – já incluía gêneros diversos, habilidade que sempre intrigou seus críticos mais renitentes.

Entre os livros que publicou estão romances, coletâneas de poemas, crônicas e livros infantis, a maior parte deles traduzidos para diversos idiomas, como alemão, inglês, espanhol e italiano. Professora universitária aposentada, mestre em linguística e em literatura brasileira (com tese sobre Lígia Fagundes Telles), colaboradora de jornais e revistas, tradutora de Virginia Woolf, Rainer Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass e Thomas Mann, entre outros, Lya Luft concedeu esta entrevista por telefone às vésperas de viajar para Belo Horizonte, onde esteve para mais uma sessão de autógrafos e debate com o público no projeto Sempre Um Papo. 
 




"Você leu este Múltipla Escolha?”, ela questiona, gentil mas também desafiadora, logo no início da entrevista por telefone, de Porto Alegre, onde mora desde a década de 1960. “Pois então você percebeu que são textos que tentam traduzir alguns exercícios de reflexão", explicou, citando um ou outro dos temas abordados no livro. Pergunto sobre as polêmicas na imprensa e sobre os juízos de valor radicais sobre seu livro de ensaios. Ela argumentou, também questionando, se tais opiniões talvez não venham da pouca intimidade de alguns críticos veteranos ou iniciantes com a ousadia que o gênero ensaio representa, uma vez que sua característica essencial é a reflexão e não a certeza das teses ou a pesquisa centrada em fontes da reportagem jornalística.

"O gênero ensaio é uma prática muito mais frequente entre escritores e pensadores dos países da Europa. No Brasil, com raríssimas exceções, é um gênero que nunca vingou. Há, sim, entre nós, a tradição do ensaio acadêmico, monográfico. Mas como gênero mais livre, abrangente, é pouco comum nas nossas letras". A edição de “Múltipla Escolha” reúne 50 textos breves que têm em comum a abordagem do que Lya Luft chamou de "mitos enganosos da cultura brasileira e das relações humanas e familiares".








Três mulheres em destaque na galeria
de referências da escritora Lya Luft: no
alto, Virginia Woolf e Doris Lessing,
escritoras que admira e traduziu. Acima,
Lygia Fagundes Telles, tema da tese
sobre literatura que Lya defendeu




"É um livro de questionamentos. Esta é uma boa definição para os ensaios que selecionei para a edição. São textos em que tento atrair o leitor para dividir comigo as dúvidas sobre muitas perguntas que dificultam nossa tarefa existencial", destacou, lembrando que desde a mais remota Antiguidade é uma prática comum a cultura humana criar muitos mitos na tentativa de explicar o que os homens não podem entender, como o nascimento e a morte, o desejo de eternidade, os impulsos mais sombrios e insuspeitados.


Mitos modernos


"Hoje são muitos os mitos modernos criados para abafar nossos enganos, nossa angústia e nossa futilidade no dia a dia. O que não deixa de ser compreensível. Nosso instinto de alegria precisa sobreviver para escaparmos dessas armadilhas", alertou. Sobre o retorno à capital mineira, Lya Luft disse que para os mineiros guarda sempre as melhores expectativas.

"Minha relação com Belo Horizonte e com Minas Gerais é muito antiga, vem de muito antes da ligação amorosa que tive com o Hélio Pellegrino. Sempre cultivei um afeto especial por Minas e pelos mineiros, talvez por causa da personalidade forte de toda produção intelectual e artística que vem da gente daí, das Minas Gerais. Basta prestar atenção, por exemplo, na literatura brasileira, que tem uma raiz mineira tão forte e influente". A literatura no Brasil de hoje, na avaliação de Lya Luft, vive um bom momento, mas está em um processo de franca transição.






Cenas do álbum de família: acima,
Quatro Cavaleiros do Apocalipse, os
amigos mineiros reunidos, Fernando
Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara
Resende e Paulo Mendes Campos.
Abaixo, Hélio e Lya Luft em uma
das raras fotografias do casal



"Temos alguns veteranos na ativa, produzindo obras da maior qualidade, e temos jovens autores muito bons. As editoras brasileiras nunca venderam tanto, em nenhuma outra época. O problema é que também se publica muita bobagem. Hoje todo mundo quer publicar livros. É a última moda. O momento é de transição, mas o lugar da literatura no Brasil é dos melhores, com toda certeza". 

Sobre este momento atual, de transição, ela relatou suas suspeitas de que talvez as mudanças sejam motivadas pelas novas tecnologias e pela avalanche de novidades e hábitos de comportamento que a Internet trouxe para o cotidiano das pessoas comuns. "O computador e a Internet estão na minha vida há quase duas décadas. Creio que fui uma das pioneiras entre os escritores brasileiros. Uso muito as mensagens de e-mail, compro livros e pesquiso na rede todos os dias, o tempo todo. Só não participo de Twitter, Facebook, Orkut. Ainda prezo muito minha intimidade e minha privacidade".


Múltipla escolha


Enquanto viajava para participar do evento em Belo Horizonte, Lya Luft já estava envolvida com uma nova publicação reunindo suas crônicas mais recentes publicadas na imprensa – “A Riqueza do Mundo”, também lançado pela Record em 2011. O próximo projeto em livro, depois dos ensaios e das crônicas, vai marcar seu retorno ao que ela diz ser o seu ambiente de predileção: a arte do romance. 

 
"O próximo livro tem o título provisório de 'A Mulher que não Existia', mas está bem no começo. Não tenho nem previsão para concluir. Vou escrevendo, enquanto faço outras coisas, entre um livro e outro, e acompanho de perto a vida de meus filhos e netos". Em 1985, ela divorciou-se de seu primeiro marido para viver um grande amor com o psicanalista e escritor mineiro Hélio Pellegrino, que morreria em 1988. 

"Minha vida com Hélio foi uma tempestade de primavera – tão breve quanto intensa. Nós estivemos juntos por dois anos e três meses. Foi meu segundo casamento e uma sorte, um privilégio. Aliás, preciso reconhecer que tive o privilégio de encontrar parceiros excepcionais”, recordou, entre pausas, fazendo alguma ironia sobre seus percalços sentimentais. Em 1992, ela voltaria ao casamento com o primeiro marido, Celso Pedro Luft, de quem ficou viúva em 1995. 

O primeiro casamento com Celso, ela recorda, aconteceu em 1963, logo depois de seu aniversário de 21 anos. Celso, que naquela época era irmão marista e 19 anos mais velho, deixou a vida religiosa para viverem juntos um caso de amor. Os dois se conheceram numa situação das mais prosaicas: durante uma prova de vestibular, para a qual ela chegou atrasada.





Vivendo atualmente o terceiro casamento, Lya Luft é mãe de três filhos e comemora a condição de avó. Os três filhos nasceram do primeiro casamento com Celso. "Meus filhos são meus amores mais permanentes. Suzana é médica, André é agrônomo e Eduardo é filósofo. Tenho muito orgulho dos três, que me deram sete netos maravilhosos". Foi no início do primeiro casamento que ela começou a escrever poemas, em pouco tempo reunidos no livro "Canções de Limiar", de 1964. 

O segundo livro de poemas foi publicado em 1972, "Flauta Doce". Em 1978, lançou sua primeira coletânea de contos, com o título "Matéria do Cotidiano". A consagração viria em 1980, quando Lya Luft publicou o romance "As Parceiras", seguido por "A Asa Esquerda do Anjo" (1981) e "Reunião de Família" (1982). "A Asa Esquerda do Anjo' é uma exceção entre tudo o que publiquei porque é dos meus poucos trabalhos em que o título já estava definido muito antes do próprio livro".


Histórias da Bruxa Boa


Lya Luft estrearia na literatura infantil em 2004, com "Histórias da Bruxa Boa", retornando ao gênero em 2007, com "A Volta da Bruxa Boa", e em 2009, quando publicou "Criança Pensa" – produzido em parceria com seu filho filósofo, Eduardo, e seguindo uma certa linha de pensamento que busca estimular na infância e adolescência a observação, a análise e o discernimento sobre as coisas simples e complexas da vida. 

 




Os ensaios, por sua vez, surgiram na sua trajetória de escritora em 1996, ano de publicação de "O Rio do Meio", premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte. "Este 'O Rio do Meio' na verdade tinha mais parentesco com a ficção", ela fez questão de ressaltar. "Bem diferente dos ensaios reunidos neste livro mais recente, que estão centrados em questões de ética, política, comportamento e antropologia".

No breve tempo da entrevista ela evitou contradizer as polêmicas e os ataques quase ofensivos assinados por um ou outro crítico em jornais e revistas. Os ataques ela considera que tenham sido uma forma de resposta a alguns de seus posicionamentos políticos pontuais, vindos de comentaristas rancorosos para os quais, talvez, o livro de ensaios não teria nenhuma relação com a importância da literatura que ela vem produzindo há décadas.

Algumas das questões sobre a política e a vida cotidiana que apresento na entrevista ela prefere não responder. Mas explica, com gentileza, suas intenções com a reflexão reunida nos textos de “Múltipla Escolha”. “Isso está no livro. Lá o raciocínio está mais elaborado porque é o que eu tinha em mente, denunciar certos problemas cruciais dos dias atuais, algo trabalhado também nos dias de hoje por uns poucos escritores nos quais ainda se encontram ideias", destacou, citando de passagem um ou outro título de Zygmunt Bauman e de Umberto Eco. 


A polêmica dos temas difíceis


Ainda sobre os pontos em comum entre seus ensaios e o que propõe um ou outro livro de grandes pensadores contemporâneos, Lya Luft destaca a questão dos medos, da insegurança, da dificuldade atual de se manter uma identidade e de se tomar decisões. “Por isso este livro de ensaios gerou tanta polêmica”, reconheceu, tomando como exemplo a cobertura sempre parcial da imprensa sobre certos acontecimentos recentes. “São temas difíceis, que tendem a ser amplos, variados e especialmente focalizados na vida cotidiana de homens e mulheres comuns”.





Peço licença para ler um trecho de “Múltipla Escolha” que eu havia marcado para citar na redação da entrevista, que diz: “O olho do outro está grudado em mim e me sinto permanentemente avaliado, nem sempre aprovado: se eu não for como sugerem ou exigem meu grupo, família, sociedade, se não atender às propagandas, aos modelos e ideais sugeridos, serei considerado diferente”. Ela elogiou a escolha e continuou a citação do texto, provando que o conhecia de cor: 

É isso mesmo. Como adolescentes queremos ser iguais à turma, como adultos queremos ser aceitos pela tribo: a pressão social é um fato inegável", completou. “Globalização, sociedade de consumo, amor, comunidade, individualidade são algumas das questões sobre as quais busco a reflexão com os ensaios que estão no livro, sempre tentando salientar a dimensão amorosa que deve nortear tudo o que diz respeito à condição humana”. 
 




Reflexões a respeito dos principais problemas sociais como a pobreza, desigualdade social, e também de questões afetivas ligadas a relacionamentos estão presentes a todo momento na mídia e na imprensa. A diferença é que os ensaios de Lya Luft caminham pelo lado prático e pelo lado ético, simultaneamente, tratando desses assuntos por intermédio de sua própria vivência e sem dar um caráter acadêmico ao texto. Como resultado, ela consegue conduzir o leitor em um tom de conversa, quase como se fizesse uma "auto-entrevista". 

Segundo Lya Luft, o título do livro, "Múltipla Escolha", na verdade traduzia à perfeição sua filosofia de vida. "É um livro de questionamentos. Não é uma coletânea de certezas. São textos em que tento dividir as dúvidas com o leitor. Porque eu realmente acredito que são estas as grandes questões para cada um de nós nos dias que correm. É preciso saber escolher, é preciso ter consciência de nossas escolhas", alertou. "Este talvez seja o grande desafio de nossas vidas”. 


por José Antônio Orlando.



Para comprar o livro de Lya Luft, Múltipla Escolha,  clique aqui.










5 comentários:

  1. Hoje são muitos os mitos modernos criados para abafar nossos enganos, nossa angústia e nossa futilidade no dia a dia. O que não deixa de ser compreensível. Nosso instinto de alegria precisa sobreviver para escaparmos dessas armadilhas...
    Hoje ganhei o dia com este pensamento da Lya Luft. Muito grato a você, José, por compartilhar sempre tanta sabedoria neste seu blog fantástico. E que beleza de entrevista...
    João Vargas

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  2. Gosto muito da literatura que ela produz e acredito mesmo que ela esteja, sem dúvida nenhuma, entre os grandes do primeiro time dos que publicam atualmente no Brasil, mas a Lya Luft sofre da mesma perturbação de ideias que às vezes acomete gente também brilhante como Caetano Veloso – que não raro derrapa em declarações e posicionamentos inacreditavelmente equivocados.
    Isso não tira o valor nem dela nem dele, mas incomoda bastante a quem ainda tem algum senso crítico.
    No mais, seu blog continua bom demais, José Orlando.
    Bom e cada vez melhor.
    Parabéns outra vez, meu querido. Tudo aqui é da melhor qualidade. Abração!

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  3. Shirley Helena de Altamira11 de abril de 2012 14:02

    Eu já percebi que não faltam elogios e parabéns aqui neste mural de comentários, mas preciso registrar, mesmo correndo o risco de ser repetitiva:
    Seu blog é um show, José. Tudo lindo, divino, maravilhoso, cada página melhor que a outra, cada entrevista mais inteligente, com imagens belíssimas.
    Boa sorte pra você e vida longa ao Semióticas!...

    Shirley Helena de Altamira

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  4. Bela página e bela entrevista, como todas as outras deste seu blog incrível. Concordo com o que o Gilberto Alencar escreveu acima. Lya Luft tem se tornado ultimamente uma daquelas personalidades que derrapam em declarações e posicionamentos inacreditavelmente equivocados. Tipo defender o Serra. Isso é demais e é uma prova de alienação ou de má-fé. Mas também concordo que estes equívocos pontuais não tiram o valor da literatura que Lya Luft produziu e produz. Só que incomoda bastante a quem ainda tem algum senso crítico...

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  5. Paulo Ricardo de Alencar20 de agosto de 2015 10:06

    Adorei a entrevista e o perfil que você apresenta de dona Lya Luft. Parabéns. Bela matéria e belo blog. Ganhou outro fã, Semióticas.

    Paulo Ricardo de Alencar

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