quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Dom Pedro ficou










O sucesso do livro de Laurentino Gomes eram favas contadas, mas o saldo dos números e os prêmios surpreenderam autor e editora. Menos de um mês depois do lançamento, "1822" (Editora Nova Fronteira), que chegou às livrarias há um ano, vendeu 200 mil exemplares. O Prêmio Jabuti 2011 anunciado na segunda-feira para o livro, na categoria reportagem, ainda vai garantir uma longa permanência das reedições nas listas de mais vendidos pelos próximos meses.
O livro anterior de Laurentino Gomes, "1808" – que foi lançado em 2006 trazendo na capa o subtítulo "Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil" – vendeu mais de 600 mil cópias e permanece como best-seller nas livrarias, também lançado em outras línguas. O segredo do sucesso? Laurentino Gomes diz que apenas segue sua intuição, pesquisa e tenta explicar o que a maioria dos historiadores acha que não é necessário.
Dom Pedro ficou: no alto, a pintura em
óleo sobre tela Independência ou Morte,
datada de 1888, mais conhecida como
O Grito do Ipiranga, de autoria de
Pedro Américo (1843-1905). Acima,
a identificação de alguns dos personagens
principais em cena: 1. Sargento-mor
Antonio Ramos Cordeiro; 2. Paulo Bregaro;
3. Francisco Gomes da Silva, o Chalaça;
4. Antônio Leite Pereira da Gama Lobo;
5. Brigadeiro Manuel Rodrigues Jordão;
6. Luís Saldanha da Gama; 7. Dom Pedro I;
8. Capitão-mor Manoel Marcondes Mello;
9. Pedro Américo (autorretrato); 10. Casa
do Grito; 11. Córrego do Ipiranga;
12. Trabalhador anônimo



"Creio que são livros bem-sucedidos comercialmente e que ficaram populares porque, em primeiro lugar, tenho em mente um leitor modelo que é um estudante adolescente", responde o autor, em entrevista por telefone. Ele esteve em Belo Horizonte três vezes nos últimos 12 meses, por conta de convites do Sempre Um Papo e outros projetos para autografar “1822” e debater com os leitores. Também tem viajado muito por outras capitais para as sessões de autógrafos e lançamentos, mas diz que a agenda sempre cheia de compromissos não é uma problema.
Jornalista profissional e pai de quatro filhos, de 30, 28, 24 e 17 anos, o escritor que virou campeão de vendas também inclui entre as razões do sucesso a experiência adquirida de mais de três décadas em redações de jornais e revistas. "Desde o primeiro livro tento usar uma linguagem acessível para explicar o que a maioria dos historiadores acha que não precisa explicar", aponta. "Na verdade, sou daqueles que aprenderam muito com a experiência dos erros que testemunhei nas edições de jornais e revistas", reconhece. 



O cartunista Jaguar publicou em
O Pasquim, em 1970, em plena
ditadura militar, uma versão iconoclasta
de um dos símbolos do patriotismo,
o quadro Independência ou Morte










Laurentino Gomes se diz honrado com a premiação do Jabuti e muito orgulhoso de estar presente na lista de best-sellers com um livro que não é banal, como costuma ser comum entre campeões de venda. Modesto e dedicado à pesquisa, ele também reconhece sua condição de autodidata em questões de historiografia, já que depois do curso superior de Comunicação passou mais de três décadas exclusivamente atuando na imprensa.

"Para os livros não busco apenas a pesquisa bibliográfica, acadêmica. Tento apurar os fatos, vou aos locais, entrevisto pessoas", explica, enquanto rende tributo a Otávio Tarquínio de Souza e a Oliveira Lima, célebres historiadores – o primeiro foi referência para "1822", enquanto o segundo, especialista na vinda da corte portuguesa para o Brasil, foi o norte para "1808". 




Dom Pedro ficou: acima, a tela de
1814 de Jean-Louis Ernst Meissonier,
que retrata a vitória das tropas militares
de Napoleão Bonaparte e a clássica
imagem de 1888 na pintura de
Pedro Américo. As semelhanças
são evidentes


"Tento aplicar nos livros o que aprendi como repórter na 'Veja' e no 'Estado de São Paulo'. Nas redações quase sempre impera a soberba do conhecimento, como se não fosse necessário trocar em miúdos, explicar a cada edição a mesma história, quem é cada personagem envolvido. Isso é o que o leitor quer encontrar e é isso que tento oferecer a ele em meus livros. Estendo para os livros o que dizia um editor que tive no 'Estadão': a função do jornalista é colocar a papinha mastigada na boca do leitor todos os dias". 

"1822", diz o autor, é resultado de três anos de pesquisas. Em 372 páginas ilustradas e 22 capítulos, cobre um período de 14 anos, entre 1821, data do retorno da corte portuguesa de D. João VI a Lisboa, e 1834, ano da morte do imperador Pedro I. Para Laurentino, a Independência do Brasil resultou de uma notável combinação de sorte, improvisação e também de sabedoria de lideranças como o patrono José Bonifácio, incumbido de conduzir os destinos do país por entre grandes sonhos e perigos.




Dom Pedro de Alcântara em pintura
em óleo sobre tela de Simplício Rodrigues
de Sá (1785-1839). Abaixo, Dom Pedro
retratado por Manuel de Araújo Porto-
Alegre (1806-1879) e nas gravuras
estampadas em selos do correio postal









Próximo projeto? "1889, porque é inevitável", reconhece Laurentino, de pronto, anunciando que já iniciou as pesquisas para o novo livro, terceiro da trilogia, ainda sem data prevista para o lançamento. Em 1889, ele diz, pretende detalhar a situação do Brasil no Império que culminou com a proclamação da República. Curiosamente, a obra vai se iniciar no ponto em que termina "1822".

Com "1889", Laurentino vai encerrar uma trilogia que cobrirá toda a história do Brasil do século 19, iniciada com seu best-seller "1808" (Planeta), que já vendeu 600 mil exemplares desde o lançamento, em 2007. "Assim como '1822' é consequência natural ao '1808', posso dizer o mesmo de '1889'. Quase fui obrigado a escrevê-lo", completa, feliz da vida com o sucesso que chegou de surpresa quando "1808" chegou às listas dos mais vendidos.


por José Antônio Orlando.








Dom Pedro ficou: no alto, o príncipe
Pedro de Alcântara quando chegou
ao Brasil, aos 10 anos de idade, em 1808,
em pintura a óleo de Jean François
Badoureau. Acima, Dom Pedro retratado
no ano de sua morte, 1834, por
John Simpson (1782-1847). Abaixo,
Laurentino Gomes fotografado
em São Paulo no lançamento de 1822









Trecho da apresentação do livro:



Quem observasse o Brasil em 1822 teria razões de sobra para duvidar de sua viabilidade como país. Na véspera de sua independência, o Brasil tinha tudo para dar errado. De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros forros, mulatos, índios ou mestiços. O medo de uma rebelião dos cativos assombrava a minoria branca como um pesadelo. Os analfabetos somavam 99% da população. Os ricos eram poucos e, com raras exceções, ignorantes. O isolamento e as rivalidades entre as diversas províncias prenunciavam uma guerra civil, que poderia resultar na fragmentação territorial, a exemplo do que já ocorria nas colônias espanholas vizinhas. 

Para piorar a situação, ao voltar a Portugal, no ano anterior, o rei D João VI, havia raspado os cofres nacionais. O novo país nascia falido. Faltavam dinheiro, soldados, navios, armas ou munições para sustentar uma guerra contra os portugueses, que se prenunciava longa e sangrenta. Nesta nova obra, o escritor Laurentino Gomes, autor do best-seller 1808, sobre a fuga da familia real portuguesa para o Rio de Janeiro, relata como o Brasil de 1822 acabou dando certo por uma notável combinação de sorte, improvisão, acasos e também de sabedoria dos homens responsáveis pelas condução dos destinos do novo país naquele momento de grandes sonhos e muitos perigos.

O Brasil de hoje deve sua existência à capacidade de vencer obstáculos que pareciam insuperáveis em 1822. E isso, por si só, é uma enorme vitória, mas de modo algum significa que os problemas foram resolvidos. Ao contrário. A Independência foi apenas o primeiro passo de um caminho que se revelaria difícil, longo e turbulento nos dois séculos seguintes. As dúvidas a respeito da viabilidade do Brasil como nação coesa e soberana, capaz de somar os esforços e o talento de todos os seus habitantes, aproveitar suas riquezas naturais e pavimentar seu futuro persistiram ainda muito tempo depois da Independência. Convicções e projetos grandiosos, que ainda hoje fariam sentido na construção do país, deixaram de se realizar em 1822 por força das circunstâncias. 
 




4 comentários:

  1. Depois de tantas sábias palavras de elogio que estou vendo aqui, nem sei o que dizer. Quero é agradecer a você, José Antônio Orlando. Seu blog Semióticas é uma belezura e vale por muitas aulas. Eu e meus alunos estamos nos apropriando do seu material para trabalhos que motivaram as turmas como há muito tempo eu não via. Este blog Semióticas também tem uma qualidade e uma abrangência de assuntos, todos incríveis, que também há muito tempo eu não via. Você é jornalista aí em Belo Horizonte? Trabalha onde? Fiquei curiosa.
    Vou selecionar alguns dos melhores trabalhos dos alunos que têm páginas do seu blog como referência e enviarei para o email semioticas@hotmail.com
    Eu ia elogiar apenas esta página com a entrevista do Laurentino. Mas todas as outras também merecem aplausos. Parabéns para você e muito obrigado por compartilhar ideias inteligentes e bom-senso, que está em falta...
    Ângela de Faria

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  2. Grato pelos elogios, Ângela. Bom saber que os arquivos do blog têm este valor que não tinha sido previsto pelo autor... Aguardo seu e-mail.

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  3. Fiquei impressionada com esta página, aliás com todo o seu blog. Li várias reportagens sobre o mesmo assunto e quando cheguei aqui encontrei outro ritmo, outras qualidades que não a informação apressada e copiada ponto por ponto de outras fontes. Seu trabalho é original e faz pensar. Muitos parabéns. Semióticas agora está em destaque entre os meus favoritos.

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  4. Maria Fernanda Coelho6 de maio de 2014 09:12

    Parabéns pelo belo texto da entrevista e pela edição. Imagens lindas, tudo lindo. Também virei fã.

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