segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Woody Allen leitor de Machado








Fiquei realmente chocado ao ver   
como é encantador. Não conseguia   
acreditar que ele viveu há tanto   
tempo, como ele viveu. Você teria   
pensado que foi escrito ontem.  


–– Woody Allen, sobre Machado de Assis,      
em entrevista ao jornal “The Guardian”    




Há semelhanças e correlações entre os filmes de Woody Allen e a literatura de Machado de Assis? Esta é uma questão que tem ganhado espaço entre pesquisadores do Brasil e do exterior desde que, recentemente, a pedido do jornal inglês "The Guardian", o cineasta norte-americano Woody Allen listou, entre os livros que mais o influenciaram, "Memórias Póstumas de Brás Cubas", romance que Machado de Assis publicou em 1881. O cineasta contou que recebeu o livro pelo correio. Um estranho do Brasil o enviou com o recado: "Você vai gostar".

"Li porque era um livro fino. Se fosse grosso, teria descartado", escreveu o cineasta no artigo para o "The Guardian". "E fiquei chocado com o quanto charmoso e incrível era esse brasileiro chamado Machado de Assis. Fiquei realmente chocado ao ver como é encantador. Não conseguia acreditar que ele viveu há tanto tempo. Você teria pensado que foi escrito ontem. É tão moderno e divertido. E é uma obra muito, muito original", completou Allen, que também incluiu em sua lista os livros "O Apanhador no Campo de Centeio", publicado em 1951 por  J. D. Salinger; "The World of SJ Perelman", publicado por Perelman no ano 2000; "Really the Blues", publicado em 1946 por Mezz Mezzrow e Bernard Wolfe; e "Elia Kazan: A Biograph", publicado em 2005 por  Richard Schickel.

Woody Allen também apontou algumas das referências que mais aprecia no escritor brasileiro, que por ironia também podem ser tomadas como características do melhor cinema do diretor de "Annie Hall - Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" (1977). São elas:

  1. O cotidiano prosaico da burguesia;

  2. o humor sofisticadamente ácido;

  3. a divagação filosófica sintética disfarçada pelo trivial;

  4. a crítica sutil às convenções sociais;

  5. as citações constantes de outros autores e outras obras que o influenciaram;

  6. a investigação psicológica despretensiosa e, entre outras mais, a construção de protagonistas com um mesmo tipo de perfil, desastrosos em suas relações pessoais e sociais, inclusive de moral duvidosa, ou pelo menos convenientemente flexível.








Allan Stewart Königsberg em 1964,
fotografado em um hotel em Las Vegas,
às vésperas de gravar seu primeiro disco
de piadas com o nome Woody Allen.
O disco seria um dos indicados ao
prêmio Grammy daquele ano. No
cinema, sua primeira experiência
aconteceria no ano seguinte, quando
completou 30 anos de idade: depois
de uma das apresentações no bar do
hotel em Las Vegas, Woody Allen
conquistou a simpatia de um produtor
de filmes, Charles Feldman, que o
convidou para escrever e estrelar
uma paródia dos filmes de 007
chamada O que é que há, gatinha?
(What's New Pussycat?). O papel
principal terminou com o veterano
Peters Sellers, mas Woody Allen rouba
a cena em várias sequências como
coadjuvante. Como diretor, sua estreia 
aconteceria em 1969, com o filme
Um assaltante bem trapalhão (Take
the money and run). Na imagem do
alto, o cartaz promocional de Bananas,
que chegou aos cinemas em 1971. Abaixo,
Woody Allen em Nova York, em 1972,
com sua amiga Nora Ephron, cineasta
e jornalista norte-americana que também
confessou em entrevistas que é leitora e
admiradora da obra de Machado de Assis;
e o cartaz de lançamento de Annie Hall,
filme de 1977 com roteiro, direção e
atuação de Woody Allen, que no Brasil
recebeu um título dos mais estranhos:
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

















  

"Primeiro”, destaca o professor, em entrevista concedida por telefone (veja a íntegra da entrevista em Semióticas: O Bruxo e a crítica internacional), “tanto Machado de Assis como Woody Allen são tremendamente irônicos e engraçados, apesar de não provocarem gargalhadas, mas sim sorrisos inteligentes. Segundo, ambos são mestres na arte difícil da tragicomédia, a tal ponto que suas obras não evoluem da comédia para a tragédia, como de hábito, mas são cômicas e trágicas do início ao fim, da primeira à última página ou cena".


por José Antônio Orlando.



Para comprar o livro "Adultérios", de Woody Allen,  clique aqui.






Para comprar o livro "O problema do realismo de Machado de Assis",   clique aqui.










    Joaquim Maria Machado de Assis
    aos 25 anos, em 1864, fotografado por
    José Insley Pacheco (1830-1912).
    Abaixo, Woody Allen ao lado de
    Machado de Assis; o escritor retratado
    em caricatura anônima do século 19,
    publicada na revista Semana Ilustrada;
    e Owen Wilson e Rachel McAdams
    em cena de Meia-Noite em Paris,
    filme de 2011 de Woody Allen














    15 comentários:

    1. A genialidade me parece mesmo atemporal. E no caso de Allen e o bruxo do Cosme Velho, é quase um jogo de espelhos, refletindo as qualidades de um, no outro.
      E o correr do Tempo não esfria absolutamente tudo... que nos incendeie eternamente Noel, Bosch, Frida, Dostô, Bukoviski, Kerouac, Campos de Carvalho, Piazzolla, Vila Lobos, Clarice, Adélia, Chet, Velazquez, Miles Davis, Eco, Lúcio Cardoso, Fellini, Jarrett... continuaria aqui por toda a eternidade. Mais uma dia.
      Parabéns pelo blog!
      beijo,
      Lília Freitas

      ResponderExcluir
    2. REALMENTE AS OBRAS TEM SIMPATICAS SIMILARIDADES.
      OS ULTIMOS DO WOODY ALLEN ENTAO ESTAO FINISSIMOS!
      BELO POST JOSE ANTONIO!
      ABS,
      CONRADO.

      ResponderExcluir
    3. Muito bom seu artigo, como sempre. Ë um prazer voltar ao mundo das "Semióticas".
      Beijos
      Kika

      ResponderExcluir
    4. Eu tive a sorte de assistir Woody Allen pela primeira vez com o filme “Zelig”. Apaixonei !
      Agora faz todo sentido pra mim aquele humor, não podia ser influencia de outra pessoa que não fosse o Machadão que me acompanhou por toda adolescência. Bravos semióticos, Bravo Zé Orlando. Continue me fazendo feliz com seus artigos. Obrigado.

      Fabrício Marotta

      ResponderExcluir
    5. Acho maravilhoso saber que Woody Allen topou ler as "Memórias Póstumas" porque era um livro fino!
      Grande post, Orlando.
      Obrigado pela generosidade em compartilhar seus pensamentos e descobertas. Abração.
      Garay

      ResponderExcluir
    6. Muito bom seu blog, José. Gostei especialmente do critério com que o post foi escrito, e vou divulgar para uns amigos.
      Abraço grande.

      ResponderExcluir
    7. Woody Allen, recebeu ótima influência, afinal Machado de Assis é um dos melhores. Ambos estão entre os meus favoritos. Gostei do seu blog. vou ler com carinho. Abrçs.

      ResponderExcluir
    8. oi...
      eu sai do face mas vou sempre visitar suas semióticas palavras.

      abraço

      EDU

      ResponderExcluir
    9. Grande abraço de uma fã de Machado de Assis e também admiradora dos filmes de Woody Allen!

      ResponderExcluir
    10. Nunca atentei para tais semelhanças, porém, acredito que elas possam existir e isso só vem provar que o Woody Allen tem gosto refinado em suas escolhas. O Machado de Assis será sempre o Grande Mestre!

      ResponderExcluir
    11. Paulo Victor Fonseca7 de junho de 2012 13:07

      Cheguei até este blog fantástico através dessa página surpreendente sobre as relações eletivas e afetivas existentes, mas para mim até então insuspeitadas, entre o cinema de Woody Allen e a literatura do mestre Machado de Assis. Fiquei encantado. Mas quando fui ver a outra página, que tem o belo título de "O Bruxo e a crítica internacional", o encantamento se multiplicou e virou fascinação. Mal sabia eu que era só o começo: descobri em seguida que seu blog é grandioso e, francamente, uma das melhores e mais buriladas coleções de ensaios que já encontrei em um só endereço da internet. Parabéns, José. Tudo isso renderia uma material impressionante nas páginas de um livro, mas como blog também é um tour-de-force que merece os mais derramados e desdobrados elogios. Excelente mesmo...

      Paulo Victor Fonseca

      ResponderExcluir
    12. :) Maravilha! Posso imaginar o primeiro milímetro de sorriso a 'incomodá-lo' já na dedicatória.

      ResponderExcluir
    13. Alessandra Ferreira1 de dezembro de 2013 10:40

      Só você, autor querido do blog Semióticas, para me trazer esta revelação encantadora. Engraçado que sempre amei muito Machado e Woody Allen, mas nunca tinha pensado que existia esta aproximação. Esta sua página é mais que um blog. É uma tese completa. Ou melhor: são muitas teses. Agradeço a Deus por ter encontrado seu blog. É o melhor entre tudo o que já encontrei neste mar da Internet. Agradeço muito. Sou sua fã.
      Alessandra Ferreira

      ResponderExcluir
    14. Silvana Costa e Silva21 de junho de 2014 10:26

      Maravilha de notícia, de blog, de texto, de imagens. Viva Machado! Viva Semióticas! Virei fã na primeira visita. Parabéns demais!

      Silvana Costa e Silva

      ResponderExcluir
    15. Fabrício Carlo Galiza31 de maio de 2017 08:55

      Parabéns de novo. Adoro o cinema de Woody Allen, adoro a literatura do grande Machado de Assis e adoro, cada vez mais, esse blog Semióticas com suas maravilhas incomparáveis. Tudo aqui é sensacional.

      Fabrício Carlo Galiza

      ResponderExcluir

    ( comentários anônimos não serão publicados )

    Todas as páginas de Semioticas têm conteúdo protegido.

    REPRODUÇÃO EXPRESSAMENTE PROIBIDA.

    Contato: semioticas@hotmail.com

    Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

    Páginas recentes