6 de março de 2026

Lisette Model contra os racistas

 




Não conheço nenhum fotógrafo que tenha fotografado

pessoas com tanta intimidade quanto Lisette Model”.

–– Berenice Abbott (1898-1991).  




Quem tem interesse pelos clássicos do jazz conhece o trabalho da fotógrafa Lisette Model: ela registrou, em belas imagens, flagrantes dos maiores músicos e intérpretes do jazz e seu público, incluindo os estreantes que em sua época ainda não eram famosos. Muitas das fotos feitas por Lisette Model ilustraram capas e encartes de álbuns lendários e reportagens diversas sobre os jazzistas mais célebres – e algumas ficaram tão conhecidas que não mais recebem o crédito de autoria da fotógrafa, como se fossem retratos naturais dos músicos ou imagens de domínio público. Lisette Model morreu aos 82 anos, em 1983, mas somente agora, décadas depois da apuração de seu espólio, uma parte surpreendente de seu legado é finalmente revelada: milhares de fotografias da cena jazzística dos anos 1940 e 1950 que permaneciam inéditas.


Uma coleção de 200 fotos, selecionadas do acervo de seus mais de 1.800 negativos de 35 mm, agora está publicada em “Lisette Model: The Jazz Pictures”, fotolivro de 240 páginas lançado pela Eakins Press Foundation, com breves ensaios escritos por Langston Hughes, Loren Schoenberg e Audrey Sands – que também assina a coordenação editorial. Lisette Model era um pseudônimo. Seu nome de batismo foi Elise Amelie Felicie Stern, nascida em 1901 em Viena, na Áustria, com ascendência judia. No final dos anos 1920, após a morte do pai, ela vai para Paris. Em 1938, ela e o marido, o pintor Evsa Model, nascido na Rússia, embarcam para os Estados Unidos, fugindo da ascensão dos nazistas. Em Nova York, Lisette Model adota o pseudônimo e o trabalho com fotografia para sobreviver, tornando-se associada da cooperativa Photo League, da qual faziam parte estreantes e veteranos, entre eles Paul Strand, Edward Weston, Berenice Abbot, Ruth Orkin, Helen Levitt e Robert Frank.

















Lisette Model contra os racistas: pressão do FBI
impediu
a fotógrafa de publicar seus registros sobre
Gigantes do Jazz nos anos 1950. Agora um fotolivro
revela
suas imagens lendárias. No alto da página,
Ray Nance (à esquerda) e Duke Ellington (à direita)
em apresentação no palco do Newport Jazz Festival.

Acima,
Louis Armstrong entre dois músicos brancos
no palco do Basin Street East, Nova York, em 1954;
e dois flagrandes do produtor musical
Ollie McLaughlin
e amigos em uma festa depois dos shows no Newport
Jazz Festival, em Rhode Island, em junho de 1956.

Abaixo,
Bud Powell ao piano no palco do New York
Jazz Festival, em 1957; fotografia que estampa a capa
do fotolivro
“Lisette Model: The Jazz Pictures”,
que inclui todas as imagens reproduzidas
nesta postagem



































Insinuações sem prova



Ainda na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, Lisette Model conquistou destaque na Photo League e seu trabalho passou a ser publicado em revistas de prestígio como a Harper’s Bazaar. Sua atuação política e seu papel de liderança, no entanto, a tornaram alvo das investigações do FBI e do senador Joseph McCarthy, que na década de 1950 comandou uma caça às bruxas contra comunistas e contra todos que pudesse rotular por “atividades anti-americanas”. Como resultado da perseguição política e das imposições da censura, Lisette acabaria trocando a fotografia pelo trabalho de professora na New School for Social Research, em Nova York, onde teve alunos que se tornaram célebres na fotografia, entre eles Diane Arbus, Larry Fink, Helen Gee e John Gossage. Nos livros de história, o nome de Lisette Model passaria a constar como mais uma vítima do macarthismo, um termo que, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, identifica a prática criminosa de “formular acusações sem provas e fazer perseguições ou insinuações de teor político”.




             


Lisette Model contra os racistas: acima,
Ella Fitzgerald em 1956 no palco
do Newport Jazz Festival.

Abaixo, Louis Armstrong e Velma Middleton
no palco do Basin Street East, em Nova York,
em 1954; 
e Louis no aquecimento para sua
apresentação no Newport Jazz Festival,
em 1956, no ônibus alugado que
também funcionava como camarim



                  












A dedicação e o entusiasmo de Lisette Model pelo jazz não deixam de evidenciar sua identificação com as lutas contra injustiças e com as atitudes de resistência que sempre estiveram presentes na trajetória dos músicos negros, desde os primórdios. Lisette Model já estava nos Estados Unidos em 1939, quando Billie Holiday cantou pela primeira vez e gravou “Strange Fruit”, a canção pioneira do protesto político que lamentava a realidade de milhares de pessoas negras vítimas de ataques racistas e de linchamento, assassinadas e dependuradas nas árvores. Não é por acaso que Billie Holiday surge em destaque entre as fotografias inéditas de Lisette Model, junto com as belas imagens em preto e branco de Louis Armstrong, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Carmen McCrae, Miles Davis, Horace Silver, Art Blakey, Count Basie, Dizzy Gillespie e outros gigantes do mundo do jazz.



Censura e perseguição



Lisette Model também ficaria conhecida por suas fotografias de rua com seu estilo irônico e de crítica social, mas quando se observa seus retratos do jazz o que vem à tona é o tom de alegria e encantamento, com cuidados no enquadramento e na composição que ainda hoje surpreendem. Em 1952, diante do imenso acervo de seus retratos de personalidades do jazz e de cenas dos shows, ela deu início ao projeto da publicação de um livro de fotografias dedicado exclusivamente ao tema, em uma época em que a publicação de fotolivros era algo incomum e com raros antecedentes. Mas a edição do fotolivro não se concretizou e o desfecho foi melancólico: depois que a fotógrafa foi convocada para prestar depoimentos no FBI sobre suas atividades à frente da cooperativa New York Photo League, e de McCarthy ameaçar incluir seu nome na famigerada Lista de Vigilância de Segurança Nacional, as editoras e os financiadores cancelaram o apoio ao projeto.









Lisette Model contra os racistas: acima,
o pianista Teddy Wilson e o trompetista
Dizzy Gillespie proseando na mesa de uma
casa noturna em Nova York, em 1954.

Abaixo, dois registros do ano de 1957
no Café Bohemia do Greenwich Village:
o trompetista
Miles Davis assiste na plateia e
aplaude o pianista 
Willie “The Lion” Smith.

Miles Davis e outros músicos foram vítimas
de racismo e violência policial. Em agosto de
1959, em frente ao famoso clube de jazz
Birdland, onde estava se apresentando,
Miles sofreu um espancamento brutal.

Na mesma época, Art Taylor, depois de
ser ameaçado e espancado por policiais
diversas vezes, acabou se mudando para a
França, assim como outros músicos negros
que buscaram refúgio em países da Europa
contra a violência policial e a perseguição política












Na mesma época, a cooperativa de Nova York seria fechada pelo FBI e todas as revistas e agências de notícia deixaram de publicar e de comercializar as fotografias de Lisette Model. Confiante na importância do tema do jazz e na qualidade de seu acervo, Lisette Model chegou a contratar, para escrever um ensaio que acompanharia as fotografias, o jornalista e escritor Langston Hughes, um dos intelectuais e ativistas que tiveram destaque no movimento cultural e político conhecido como Harlem Renaissence (Renascimento do Harlem) que impulsionou a música e a literatura afro-americana nas décadas de 1920 e 1930. Hughes também foi a principal liderança, em 1930, da Liga de Luta pelos Direitos dos Negros. Foi o jazz que aproximou Lisette Model de Hughes e das lideranças comunistas, assim como atraiu outros fotógrafos, jornalistas, escritores, artistas do teatro, do cinema e das artes plásticas.



A causa antirracista




O círculo de intelectuais e artistas que orbitavam a esquerda comunista se ampliava naquela época e todos eles abraçavam tanto a luta antirracista como a ideia de que o jazz representava a cultura mais profundamente democratizante dos Estados Unidos. O ensaio de Hughes sob encomenda de Lisette, no entanto, não foi concluído, e com a pressão do FBI a fotógrafa terminou adiando por tempo indeterminado a edição do livro. Seu acervo de fotografias sobre o mundo do jazz foi arquivado e permaneceu inédito durante décadas. Hughes morreu em 1967, aos 65 anos, e suas anotações para o ensaio somente agora são publicadas em “Lisette Model: The Jazz Pictures”.











Lisette Model contra os racistas
: acima,
pai e filho nas trilhas do jazz, Josh White Jr.
e
Josh White no Music Inn, Massachusetts,
em 1956.
Abaixo, o baterista Art Taylor no
Café Bohemia do Greenwich Village,
em Nova York, em foto de 1957






Ao apresentar a cronologia da obra de Lisette Model e o valor de seu acervo como patrimônio cultural e político, a historiadora Audrey Sands reconhece que a grande maioria da comunidade dos refugiados em Nova York, incluindo intelectuais, artistas e muitos empreendedores ligados à literatura e à música, entre eles os fundadores da gravadora Blue Note Records e os parceiros de Lisette Model na cooperativa Photo League, eram sim militantes de esquerda, assim como os músicos do jazz que compartilhavam ideais de igualdade e liberdade. Quanto à perseguição e ao silenciamento por imposição do macarthismo, Sands explica que havia muito racismo entrelaçado às questões ideológicas: os partidários do macarthismo eram partidários da supremacia branca, apoiavam a política segregacionista e perseguiam os defensores dos direitos civis sob o pretexto de combater o comunismo.

No ensaio de apresentação que abre o fotolivro, Audrey Sands reconstitui os percalços violentos e melancólicos de perseguição e silenciamento de Lisette Model e de muitos outros intelectuais, artistas e músicos do jazz – e faz um inevitável paralelo com o colapso contemporâneo provocado por um governo de inspiração fascista, militante da guerra e da violência, fomentado por ideias racistas da supremacia branca. Para todos nós, leitores, ouvintes do jazz e observadores das belas imagens registradas por Lisette Model, há um choque de realidade ao perceber que a repressão de hoje não é sem precedentes, mas um retorno a um período que parecia ter sido superado.






Lisette Model contra os racistas:
dois registros em 1957 no palco do
New York Jazz Festival – acima,
o cantor Joe Williams e abaixo,
o pianista
Count Basie













Uma arte interrompida



“O jazz é a montagem de um sonho permanentemente adiado”, escreveu Langston Hughes. Contudo, também é possível considerar a beleza do fotolivro de Lisette Model como uma conquista e um triunfo – uma vitória pela sobrevivência depois da censura e do silenciamento. Em cada imagem, cada gesto, cada expressão de um rosto ou cada contraste em claro e escuro das composições da fotógrafa, estão a beleza e a tradução de algo que permanece vivo e comovente. A trajetória de Lisette Model e a história do jazz têm um ponto de ruptura em 1959, quando Billie Holiday morre, de repente, aos 44 anos. Billie também sofreu perseguição violenta do aparato policial e político e Lisette Model, sua admiradora apaixonada, se preparou para fotografá-la em seu leito de morte. Mas foi tomada de forte emoção e não conseguiu continuar. Foram suas últimas fotos sobre o mundo do jazz.

O fotolivro “The Jazz Pictures” não é primeiro a reunir o trabalho de Lisette Model. O primeiro, no projeto da própria fotógrafa, deveria ter sido publicado na década de 1950, mas terminou adiado. Duas décadas depois, o primeiro fotolivro sobre ela a ganhar edição e ampla distribuição foi “Photographs by Lisette Model”, com prefácio da fotógrafa Berenice Abbott, publicado em 1979 pela Aperture Foundation de Nova York, depois reeditado em 2008, como homenagem no 25º aniversário de sua morte. O segundo fotolivro viria em 1990, com o lançamento de “Lisette Model”, uma seleção de suas fotografias organizada por Ann Thomas, em edição da National Gallery do Canadá, como catálogo para uma exposição sobre o trabalho da fotógrafa.

Outros fotolivros sobre sua obra foram “Lisette Model – Photographien 1933-1983”, editado em 1992 pelo Museum Ludwig de Colônia, na Alemanha, também como catálogo de uma exposição em sua homenagem; “Lisette Model”, publicado em 2001 nos Estados Unidos pela Phaidon Press, com uma retrospectiva de sua trajetória com 50 fotografias em ordem cronológica, com apresentação de Elisabeth Sussman; “Lisette Model”, catálogo da exposição de 2010 na Fundación Mapfre de Madri, Espanha, e na Galeria Nacional do Jeu de Palme, em Paris, França que reuniu 120 imagens da fotógrafa, de seus primeiros registros em Paris, em 1933, aos últimos, no final dos anos 1950, em Nova York; e, mais recentemente, “Lisette Model: Street life”, de 2021, com edição e ensaios de Claudio Composti, Monica Poggi e Larry Fink, reunindo uma seleção de 100 fotografias, com destaque para retratos de anônimos, como catálogo de uma exposição realizada em Turim, na Itália, no Centro Italiano de Fotografia.












Lisette Model contra os racistas: no alto,
o trompetista 
Bunk Johnson no palco em
Nova York, em 1955. Acima, o pianista
Erroll Garner em 1956 no palco do New York
Jazz Festival. 
Abaixo, um flagrante da plateia
durante o Newport Jazz Festival em 1954;
e o beijo do casal anônimo em 1944 no
Nick's Jazz Joint, o lendário bar dos
jazzistas no Greenwich Village, Nova York.


No final da página,
Billie Holiday em 1957
no palco do New York Festival; 
e um
registro de
Arthur Fellig, mais conhecido
pelo codinome
Weegee, também integrante da
Photo League, com Lisette Model em ação,
em 1956, com sua câmera Rolleiflex e uma
sacola de flashes no Nick’s Jazz Joint














Força poética



No final de 2025, além de “The Jazz Pictures”, também foi publicado “Renegade: Photography in the life of Lisette Model”, ensaio biográfico ilustrado com uma coletânea de imagens da fotógrafa, escrito por Duncan Forbes, diretor de Fotografia do Victoria and Albert Museum, e editado pela Mack Books de Nova York. O lançamento mais recente, de fevereiro de 2026, é “Lisette Model: Retrospective”, pela Prestel Publishing, da Alemanha, com seleção e ensaio de Walter Moser, que apresenta uma seleção de 200 fotografias, inéditas em sua maioria, incluindo retratos irônicos de personagens anônimos nas ruas, as séries fotográficas de 1939 a 1941 sobre banhistas em Coney Island e um apanhado sobre as temporadas da fotógrafa na França, na Itália, na Venezuela e em outros países.

Assim como Audrey Sands argumenta, no ensaio em que apresenta “The Jazz Pictures”, Walter Moser também destaca que a obra de Lisette Model reflete um caso exemplar de uma artista interrompida de forma trágica – vítima de perseguição e silenciamento pelo aparato do governo dos Estados Unidos, um tema que nos últimos anos, infelizmente, tem retornado à prática cotidiana de forma cada vez mais violenta. São os paradoxos de um país na condição de potência mundial que promove guerras no mundo inteiro, com o falso argumento da democracia e da liberdade, enquanto em seu território reprime negros, imigrantes e opositores políticos. Acompanhando os relatos sobre a trajetória de Lisette Model, e diante da força poética das imagens que sobreviveram em seu acervo, permanece a impressão de que talvez sejam as experiências compartilhadas de perseguição uma questão central para conectar o trabalho da fotógrafa, que fugiu dos nazistas na Europa, com os gigantes do jazz que ela registrou para a posteridade.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Lisette Model contra os racistas. In: Blog Semióticas, 6 de março de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/03/lisette-model-contra-os-racistas.html (acesso em .../.../…).




Para comprar o fotolivro  "Lisette Model: The Jazz Pictures",  clique aqui.













Veja também:



                Semióticas  –  Biografia de uma canção 

                Semióticas  –  Louis entre os cronópios


                Semióticas  –  Noite de Stanley Jordan 


                Semióticas  
–  Estilo Crumb        


5 de fevereiro de 2026

A trilha da arte urbana até Banksy





O novo define-se em resposta ao que já está estabelecido;
ao mesmo tempo, o estabelecido tem de se reconfigurar em
resposta ao novo. A tradição não serve para nada quando não
é mais contestada e de algum modo modificada. E uma cultura
que é apenas
preservada, na verdade não é cultura alguma.

–– Mark Fisher em “Realismo Capitalista: Não há alternativa?”  


 


Grafites, murais, cartazes e outras possibilidades nas formas de expressão da arte urbana ganham uma retrospectiva importante com a mostra “Arte urbano. De los orígenes a Banksy”, aberta ao público na Fundação Canal de Madri (link para a exposição no final desta postagem). Como as obras originais estão em paredes e muros de diversas cidades, ou em muitos casos sobrevivem apenas como lembrança em fotografias, a curadoria estabeleceu um suporte único para todas as peças, que são apresentadas em serigrafia sobre papel. Há também fotografias que registram as obras em seu espaço original e registros sobre os artistas em ação nas ruas e nas redes sociais da internet, que transformaram radicalmente a circulação da arte urbana.

Com curadoria de Patrizia Cattaneo Moresi, a exposição propõe um passeio internacional por um fenômeno nascido fora das instituições, na rua e para a rua, que tem questionado radicalmente os limites da arte tradicional. A arte urbana redefiniu a relação entre criação artística, espaço público e sociedade, mantendo uma tensão permanente entre o ilegal e o legitimado, entre rebelião e reconhecimento institucional, sem perder de vista as mudanças constantes que continuam a definir o movimento. É uma exposição ambiciosa que lança luzes sobre uma interface fundamental da arte contemporânea, cobrindo um percurso de seis décadas com uma amostragem de mais de 60 obras de alguns de seus artistas mais influentes e consagrados, entre eles Jean-Michel Basquiat, Keith Haring, Bigtato, Blek le Rat, JR, Invader, Suso33, El Xupet Negre, PichiAvo, Ozmo, Wedo Goás e Os Gêmeos. Banksy está em destaque.










A trilha da arte urbana até Banksy: no alto
da página,
Choose your weapon (Escolha
sua arma), grafite de 2010 de
Banksy nas
ruas de Londres, com a silhueta do artista
em autorretrato e o
ícone de um cachorro
inspirado no
“Barking Dog” (cão latindo)
que surgiu nos anos 1980 em um grafite
criado por 
Keith Haring. Acima, visitante
anônima em uma das salas dedicadas 
às
obras
de Banksy na exposição em Madri.

Abaixo, a inscrição pioneira Taki 183 que ganhou
as ruas de Nova York, em fotografia do final dos
anos 1960; um trabalho recente do artista, com
intervenções em spray sobre o mapa do metrô de
Nova York; e um retrato do autor,
Demétrius, que
se tornou uma celebridade depois d
a repercussão
d
e uma reportagem sobre ele, publicada em 1971
n
o The New York Times. O artista, porém, nunca
revelou seu nome completo e preferiu o anonimato





















A decisão da curadoria pela apresentação das obras em serigrafias sobre papel contorna várias questões de ordem técnica e jurídica, porque garante uma qualidade de reprodução que mantém as características visuais dos trabalhos originais, com um repertório variado de épocas, técnicas, mídias e materiais, e porque seria quase impossível garantir a autorização de todos os artistas para uma exposição presencial das obras no suporte original. Um problema adicional quanto à arte de rua refere-se exatamente à vida efêmera de muitas obras, além da questão da atribuição de autoria, porque muitos artistas permanecem na condição de rebeldes ou arautos da contestação, fora dos padrões convencionais do mercado de arte, produzindo seus trabalhos à revelia do espaço público e privado, muitas vezes na clandestinidade, sob pseudônimos ou assinando obras coletivas.



Diálogo irônico



Todas as questões referentes à arte urbana têm convergência no caso singular de Banksy, figura central na arte contemporânea – o artista mais popular e polêmico de nossa época consegue manter em sigilo, há mais de três décadas, sua verdadeira identidade, no melhor estilo dos super-heróis da ficção. Não é por acaso que uma das galerias da exposição é dedicada exclusivamente a Banksy, descrito no dossiê de imprensa da Fundação Canal como “um artista essencial para compreender a dimensão midiática e simbólica da arte urbana no século 21”. Além da estratégia do artista sobre o anonimato e o mistério em torno de sua figura, as obras de Banksy surgem em cidades de vários países e são uma síntese da arte urbana em seu diálogo irônico com a mídia e com questões políticas. Banksy é somente um artista ou é um coletivo? Com o uso da internet e das redes sociais, as obras de Banksy não ficam restritas a um local específico de apenas uma cidade: elas dão a volta ao mundo em questão de horas.








A trilha da arte urbana até Banksy: uma amostra
de outro
s pioneiros que marcaram época nas ruas
de Nova York. N
o alto, Shadowman, grafite de 1982
do canadense
Richard Hambleton. Acima, grafite e
retrato de Keith Haring em uma sala da exposição.

Abaixo, Jailbirds (Pássaros na prisão), um grafite
em acrílico de
Jean-Michel Basquiat que retrata
o espancamento que levou à morte do artista de rua
Michael Stewart pela polícia de Nova York, em setembro
de 1983, porque
ele estava pichando uma estação de
metrô.
Stewart, Basquiat, Hambleton e Keith Haring
participavam do mesmo grupo de grafiteiros






Banksy fornece um paradigma: as primeiras obras do artista surgem em Bristol, na Inglaterra, que se supõe ser sua cidade natal, no começo da década de 1990, e desde então sua trajetória se confunde com a popularização da arte urbana, que deixou de ser algo clandestino e passou a ocupar grandes museus e exposições de primeiro nível. Banksy também é a expressão de um paradoxo: alguns dos seus trabalhos mais conhecidos, como “Girl with Balloon” ou “Love is in the Air”, foram vendidos por milhões de dólares em leilões internacionais, à revelia do artista, que se recusa a vender suas obras, mantendo sua postura anti-capitalista. No entanto, a maioria de suas obras surgem em espaços públicos ou privados, feitas sem autorização, o que as torna ilegais. Algumas foram apagadas ou destruídas, horas depois de serem descobertas. Outras foram removidas e depois vendidas.



Conquista da visibilidade



O recorte histórico da exposição deixa de fora os antecedentes da arte do grafite em murais e pichações políticas que atravessaram diversos períodos da história da arte, da Antiguidade Clássica à Arte Moderna. As origens, nomeadas no título da exposição, são situadas somente a partir dos primeiros grafites que surgiram no contexto da contracultura no metrô de Nova York e outras grandes cidades, na segunda metade da década de 1960, e o percurso do que se convencionou chamar arte urbana ou “street art”, arte das ruas, segue a trilha das obras que surgem nos espaços públicos e que gradativamente alcança reconhecimento em museus e valorização pelo mercado tradicional. O percurso vai da informalidade das ruas para os museus e galerias de arte, ganhando o status de arte contemporânea que tem, como ápice, o fenômeno global que Banksy representa na atualidade.









A trilha da arte urbana até Banksy: no alto, grafite do
artista Caper com o coletivo R 2 F (Ready to Fascinate)
criado em 1987, em Londres, inaugurando um estilo
que gerou uma legião de fãs e imitadores mundo afora;
acima, 
a crítica social no grafite de 2016 de EZK
(Eric Ze King) em Paris, sobre um tapume de madeira
com a inscrição “Dans quel monde Vuitton?”
(Em que mundo Vuitton?)


Abaixo, I Love Beef, em técnica mista de estêncil
(molde recortado), spray e tinta acrílica, criação de
2012 de Blek le Rat, pseudônimo de Xavier Prou,
um dos pioneiros do grafite em Paris, com atuação
a partir de 1980, e que exerceu forte influência sobre
a arte de Banksy. Ele justifica o nome artístico com a
escolha de “rato” por considerar que é um dos únicos
animais realmente livres nas cidades e por inspiração
do herói de histórias em quadrilhos Blek le Roc, com
“Rat” 
formando um anagrama para a palavra “Art”







O dossiê de imprensa cita dois antecedentes sobre a arte de rua, ambos na França: o primeiro são as intervenções de rua de Zloty, pseudônimo de Gérard Zlotykamien, que criou a partir de 1963 as Éphémères, pinturas efêmeras de sombras e silhuetas humanas em traço rápido, com pincel e spray, primeiro em muros e fachadas de Paris e depois em Leipzig, na Alemanha, e Cidade do Cabo, na África do Sul. O estranhamento das pessoas nas ruas diante das silhuetas de Zloty levou o Centro Pompidou a incorporar amostras das intervenções a seu acervo. O segundo antecedente também vem do Centro Pompidou, que organizou em 1981 a exposição “Graffiti et Societé”, pioneira na abordagem sobre o assunto, com uma retrospectiva histórica e um inventário fotográfico sobre obras e artistas em destaque em vários países.

Das primeiras “tags” grafitadas, quase sempre em forma de assinatura, em praças e estações de metrô, primeiro no Bronx, no Harlem ou no Brooklyn, bairros na época marcados pela desigualdade e pela exclusão. Tomado inicialmente como forma de protesto e de denúncia, o grafite avança com o passar dos anos para obras mais elaboradas. É quando passa a ser adotado o termo italiano “graffiti”, plural de “graffito”, que vem do verbo “graffiare”, significando arranhar ou riscar. O significado literal refere-se aos rabiscos feitos com carvão ou objetos afiados, que no contexto da arte urbana foram sendo substituídos por pincéis e por tinta em spray, por conta da urgência e da pressa da ação clandestina, até começarem a conquistar espaços de maior visibilidade a partir do começo dos anos 1980.



Entre o legal e o ilegal



Um dos mais conhecidos pioneiros da arte urbana e do grafite foi Demétrios, um entregador e office-boy de descendência grega em Nova York, que não tinha pretensões de artista e apenas escrevia seu pseudônimo Taki 183 pelas ruas. O pseudônimo saiu de seu nome de nascimento “Dimitraki” e o número 183 veio de seu endereço na 183rd Street, em Manhattan. Em 1971, as inscrições de Taki 183 eram tão conhecidas e geravam tanta curiosidade que foram tema de uma reportagem investigativa de grande repercussão no The New York Times, mas o artista decidiu permanecer no anonimato e nunca revelou seu nome completo. O sucesso de Taki 183 estimulou centenas de imitadores – e alguns acabaram ficando conhecidos pela originalidade, entre eles Joe 136, Barbara 62, EEL 159, YANK 135 e LEO 136.

































A trilha da arte urbana até Banksy: no alto, o mural
As Mouras de Fene, do galego Edgar Goás Blanco,
mais conhecido como Wedo Goás, na pequena
cidade de Fene, província de Corunha, Espanha,
representando seres míticos do f
olclore local – mural
que foi eleito como o Melhor do Mundo em 2025
pela plataforma Street Art Cities.

Acima, A Violinista, mural do espanhol Sphir,
também na cidade espanhola de Fene, que
venceu em 2023 o mesmo prêmio de Melhor
Mural do Mundo pela Street Art Cities;
e “Chuuuttt !!!” (Silêncio!), mural de 2011 do
francês Jef Aerosol em frente a fonte Tinguely,
próximo ao Centro Pompidou, em Paris.

Abaixo, mural gigante de 2017 dos brasileiros Otávio e
Gustavo Pandolfo, mais conhecidos como Os Gêmeos,
em fotografia de Martha Cooper;
e Medusa, mural que
foi pintado em Lisboa, Portugal, por uma dupla da
Espanha, Pichi e Avo (que assinam como PichiAvo)





















Uma questão inevitável sobre o grafite e as pichações são as fronteiras entre arte e vandalismo, entre o legal e o ilegal, com o argumento equivocado de que grafite é arte e as inscrições das pichações são vandalismo. No dossiê de imprensa da exposição, a curadoria defende que as fronteiras dependem do contexto, já que tomar uma intervenção das ruas e transferi-la para um museu implica em uma “recontextualização”. Ao sair das ruas, a obra perde seu significado original e adquire outro, condicionado pelo novo ambiente. O que acontece com as obras de Banksy aconteceu com nomes pioneiros como Keith Haring e Samo, pseudônimo de Jean-Michel Basquiat, que ganharam destaque no começo dos anos 1980, também em Nova York, conseguindo a proeza de atravessar a fronteira entre a rua e o museu e formando uma forte influência para outros artistas no mundo inteiro.

 


 



A trilha da arte urbana até Banksy: no alto, o mural
Você vale mais do que muitos pardais,
pintado com
t
inta acrílica sobre PVC por Ozmo, pseudônimo da
artista italiana Gionata Gesi,
em 2016, representando
uma pirâmide social
com seis andares: na base estão
trabalhadores e manifestantes, seguidos
de banquetes
da elite
; nos andares de cima, estão os militares; depois,
os
religiosos; depois, políticos; e por cima, o dinheiro.
A composição inclui a frase “Na arte confiamos”.

Acima, outro mural de Ozmo, criado em 2022, em plena
pandemia de Covid, com o tema bíblico
da criação do
mundo, em
160 metros quadrados em uma parede de
mármore no Cava Galleria Ravaccione, em Carrara,
na
Itália, região famosa pela extração de mármore
que é feita desde os tempos da Roma Antiga.

Abaixo, grafites e pichações anônimas nos muros
medievais de Zamora, em Castela e Leão, norte da
Espanha, que provocaram polêmica quando surgiram,
em 2019, mas não foram removidos pelas autoridades; 
e um grafite de 2021 do italiano Salvatore Benintente,
mais conhecido pelo pseudônimo TVBoy, intitulado
Três Graças, substituindo as três deusas da mitologia
grega por figuras de macacão e máscaras cirúrgicas,
cada uma com a identificação de Moderna, Pfizer e
AstraZeneca, os grandes laboratórios que produziram
vacinas na época da pandemia de Covid












Controvérsias e preconceitos



Com a valorização do grafite, paredes, trens e fachadas tornam-se enormes telas, com novos artistas surgindo em cidades de vários países, fazendo uso de cores e estilos dos mais variados para expressar mensagens de afirmação de identidade e de conflitos sociais. Na atualidade, a arte urbana surge cada vez mais híbrida, depois de ter incorporando elementos da linguagem publicitária, do design gráfico, do ativismo político. No recorte que a exposição selecionou, as mensagens em tons de política e de inconformismo são compartilhadas pela maioria dos artistas, com a intenção decorativa em segundo plano. Na ocupação do espaço público, os questionamentos sobre assuntos muitas vezes desconfortáveis ganham destaque, com a rebeldia em primeiro plano, como estratégia fundamental, mas sem abrir mão de uma expressão poderosa em nível visual e conceitual.

Com seus temas de identidade, liberdade e rebeldia, a arte urbana que nasceu nas ruas passou a ocupar, cada vez com mais frequência, os espaços nobres de museus e galerias, expandindo as fronteiras da arte moderna, da Pop Art e da arte contemporânea para a interface do humor e da crítica social. Tal passagem enfrentou e enfrenta resistência e não está livre de controvérsias, de preconceitos e juízos de valor elitizados que ainda consideram como Grande Arte somente as formas convencionais de inspiração figurativa e renascentista. Mesmo com as controvérsias ou, em muitos casos, a criminalização sob a acusação de vandalismo, as obras em exposição permitem uma avaliação de conjunto sobre a evolução da arte urbana na expansão de técnicas, na diversidade dos processos e nas mensagens mutantes do seu diálogo com o mundo em que vivemos.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. A trilha da arte urbana até Banksy. In: Blog Semióticas, 5 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/02/a-trilha-da-arte-urbana-ate-banksy.html (acesso em .../.../…).




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A trilha da arte urbana até Banksy: acima,
A
natomia de Asto, grafite de 2011 do francês
Rud
y Dougbe, mais conhecido como Pro176.

Abaixo, grafite de 2016 da série Nightmare
(Pesadelo), do galês Charles Uzzell-Edwards,
mais conhecido como Pure Evil; seguido de
Matrix, grafite do norte-americano Poem One,
que tem atuação na arte de rua desde a década
de 1980;
um grafite de 2025, Choque natural,
criação do artista da Suiça conhecido por Bigtato;
e o cartaz com Banksy na abertura da 
exposição na Fundação Canal em Madri

















Sobre grafite e arte urbana, veja também:




   Semióticas A arte do grafite

   https://semioticas1.blogspot.com/2011/07/a-arte-do-grafite.html


   Semióticas A guerra de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2012/11/banksy-guerra-e-grafite.html


   Semióticas A imitação de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2015/03/a-imitacao-de-banksy.html


   Semióticas A retrospectiva de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2016/07/a-retrospectiva-de-banksy.html


   Semióticas A noite do Natal de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2019/12/a-noite-do-natal-de-banksy.html


   Semióticas Aventuras da percepção

   https://semioticas1.blogspot.com/2013/04/aventuras-da-percepcao.html


   Semióticas Cenas de Sinequismo

   https://semioticas1.blogspot.com/2017/02/cenas-de-sinequismo.html


   Semióticas – Vida de artista

   https://semioticas1.blogspot.com/2011/10/vida-de-artista.html







 

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