domingo, 6 de outubro de 2013

De Humani Corporis Fabrica






Fonte inesgotável dos mais vivos e duradouros prazeres, dos sofrimentos mais lancinantes e também das mais grandiosas volúpias sensuais ou filosóficas ou científicas, o corpo humano em sua aparência e estrutura de ossos, músculos, pele, sangue, veias, nervos, membros, vísceras, secreções, coração e cérebro tem um capítulo fundamental na obra-prima "De Humani Corporis Fabrica", publicada originalmente em 1543 pelo sábio renascentista Andreas Vesalius (1514–1564).
A edição completa do livro de Vesalius, que se tornaria uma relíquia lendária para colecionadores e especialistas como a primeira obra a ilustrar em planos e posições perfeccionistas as diferentes partes do corpo humano, foi proibida e excomungada em sua época, para depois permanecer irremediavelmente perdida durante séculos. Um exemplar da primeira edição, de 1543, assim como a maioria das chapas em madeira das xilografias originais, reapareceram quase por milagre na década de 1930. Saudado como obra de arte e marco incontestável da Ciência, o livro de Vesalius foi novamente editado, com textos em inglês e alemão e fac-símile das anotações em latim (veja link para a edição nacional no final deste artigo).
Contemporâneo de artistas geniais como Michelangelo e Leonardo da Vinci, Vesalius passaria à História como fundador da Medicina e da Anatomia modernas. Sempre citado por todos os compêndios e pesquisadores, mas pouco conhecido durante séculos. Quando se observa suas centenas de estudos reunidos em “De Humani Corporis Fabrica” saltam aos olhos as qualidades de metodologia científica e registro historiográfico, assim como o progresso que representou no “diálogo” que seu livro impresso inaugura entre figuras e texto.





No alto, frontispício das edições originais
de 1543 e 1642, com trabalho de ourives
em policromia. Acima e abaixo, retratos em
xilogravuras do século 16 do mestre
Andreas Vesalius de Bruxelas e reproduções
de xilogravuras que retratam Johann Gutenberg
 e uma página de sua Bíblia de 42 linhas


Magia e ciência na Renascença


Andreas Vesalius de Bruxelas, como a maioria dos sábios medievais, foi acusado de feitiçaria e enfrentou as ameaças da Inquisição e os princípios sagrados da tradição judaico-cristã para sobreviver como pioneiro no que estuda e ensina dissecando cadáveres humanos. A heresia de mestre Vesalius, que o levou às listas de persona non grata, da qual faziam parte os "alquimistas" e integrantes das irmandades secretas, foi estabelecer a ciência, e não mais tão somente a religião, como base e referência primeira para a observação direta dos fenômenos. Mais um motivo para reconhecer sua obra de 1543, também, como notável revolução na historiografia do livro – como destacam autoridades como Marshall McLuhan em "Galáxia de Gutenberg" (1962) e Umberto Eco em “Conceito de texto” (1984) e “Sobre a Literatura” (2003).
Não bastasse o inventário completo descritivo e ilustrado da composição do corpo humano que Vesalius descobre e apresenta, suas ilustrações e elaborações em técnicas gráficas e tipográficas para as xilogravuras que ele prepara em parceria com o impressor Johannes Oporinus e de outros artistas de renome, como Ticiano, inventaram procedimentos instrumentais com cinzel em hachuras e retículas – no pontilhado e nos traços paralelos, oblíquos ou cruzados que ainda hoje, com a tecnologia digital, são usados como ferramentas de desenho e pintura para ressaltar sombreamentos, detalhes, dimensões e texturas para impressão e visualização em suportes variados.






Entre ordenações de traços e reticulados que formam detalhes para ilustrações minuciosas, invenção de Vesalius e dos artistas e artesãos com os quais colaborou, deixou como saldo a primeira representação científica e pictórica, não mais manuscrita, mas impressa em livro. Ao reunir em páginas consecutivas seu vasto acervo de pesquisas e de dissecções para expor ossos e vísceras e músculos dorsais e espinhas, as figuras e os breves textos de Vesalius mesclam-se com surpreendente criatividade em “De Humani Corporis Fabrica”, levando o leitor-observador a um primoroso e estranho, porque inigualável, trabalho de diagramação em perspectiva e arte descritiva.

Bíblia de 42 linhas


A combinação de forma, tipografia e ilustração, na obra de Vesalius, representa um todo inseparável de precisão em referências cruzadas que ultrapassa e aperfeiçoa os padrões das formas gráficas de letras em frases e colunas de textos que simulam o traço da caligrafia – tudo isso poucas décadas depois do aparecimento da “Bíblia de 42 linhas” do ourives alemão Johann Gutenberg (1398 – 1468), reconhecida como primeira obra encadernada e impressa em série sobre papel, por volta do ano 1450.






Porém, enquanto o livro original de Vesalius utiliza a ilustração na página para eliminar ambiguidades e delimitar aspectos de exposição verbal, os exemplares da Bíblia Sagrada de Gutenberg eram impressos apenas com números e letras uniformes. Em Vesalius, o leitor encontra evidências de um diálogo esclarecedor e extremamente inovador em composição de palavras com cada gravura, enquanto a Bíblia de Gutenberg reunia manchas gráficas ordenadas em páginas com duas colunas de texto, cada uma com 42 linhas simétricas e paralelas.
Na impressão de Gutenberg, as páginas eram vendidas em separado, sem encadernação e sem ilustrações – ficando a cargo do comprador a ilustração e pintura posterior, feita a mão, por ourives, de acordo com gostos ou posses de seus privilegiados e nobres proprietários. Apontado como marco comparável à Bíblia de Gutenberg, o livro de Vesalius também estabelece parâmetros técnicos para impressão e composição de figuras e textos, motivo pelo qual seu pioneirismo é referência obrigatória em campos tão diversos do conhecimento como a História da Arte, da Medicina, da Anatomia, das artes gráficas, da linguagem e da metodologia científica. Como se não bastasse, "De Humani Corporis Fabrica" também apresenta raridades da melhor xilogravura produzida nos últimos séculos.








De Humani Corporis Fabrica: acima e
abaixo, amostras em fac-símile das primeiras
pranchas anatômicas do corpo humano
segundo Vesalius de Bruxelas,
impressas por xilogravuras em 1543







Lição de Anatomia


Nos detalhes das mais de 200 gravuras reunidas na edição nacional, e nas breves e precisas anotações de Vesalius, é possível reconhecer tanto a perfeição plástica quanto o entusiasmo com que o homem sábio da Renascença descobriu o corpo humano do obscurantismo medieval e dos milênios de tabus e dogmas religiosos. Na edição nacional, que faz parte do projeto Edições Históricas de Medicina, parceria entre Editora da Unicamp, Imprensa Oficial e Ateliê Editorial, o trabalho de Vesalius é apresentado em fac-símile à edição bilíngue inglês/alemão, de 1934, publicada pela Academia de Medicina de Nova York e pela Biblioteca da Universidade de Munique.
A edição bilíngue de 1934, intitulada “Icones Anatomicae” – que também foi a primeira sobre a qual há registros desde 1543 – em sua maior parte foi impressa direto das chapas de madeira originais, entalhadas em Veneza por Vesalius e redescobertas depois de 400 anos. A bela edição nacional, em capa dura e projeto gráfico que respeita as dimensões da publicação original, em formato semelhante à página de jornal impresso tamanho standard, inclui ensaio biográfico, análise das ilustrações e reprodução da íntegra da arte de Vesalius que sobreviveu até nossos dias.








A partir das anotações traduzidas do latim por J.B.D. Saunders e Charles O'Malley – além das séries de entalhes didáticos das “Tabulae Sex” e da “Carta da Vivissecção”, que circularam como excertos anônimos em diversos livros de Medicina desde o século 16, e dos impressionantes esboços de frontispício (as primeiras páginas da edição, ou páginas de rosto originais) para o “De Humani Corporis Fabrica” – a mesma que seria recriada quase um século depois, em 1623, por Rembrandt, na célebre pintura “Lição de Anatomia do Professor Tulp”.


Náufrago no Paraíso


Vesalius, nascido Andries Van Wesel, em Bruxelas, ficou conhecido nas academias da Europa na Renascença por suas aulas e demonstrações de dissecação do corpo humano, testemunhadas por estudiosos, nobres e magistrados. Catedrático de Bolonha, o sábio autodidata escreveu, organizou, e acompanhou os minuciosos trabalhos da impressão pioneira de sua obra magnífica em diversos aspectos.
Em ilustrações, diagramações e considerações teóricas, o trabalho de Vesalius também revela tributos e correções importantes a clássicos que vieram antes dele, na tradição greco-latina, com interpretações revolucionárias para a fisiologia do corpo humano e sobre preceitos de saúde, meio ambiente e3 atividade física que vigoravam desde a Antiguidade, atribuídos a Aristóteles (384-322 a.C.) e Galeno de Pergamum (século 2 d.C.), entre outros mestres.






Acima, pranchas anatômicas publicadas em
1543 no livro De Humani Corporis
Fabrica e Vesalius em autorretrato em
xilogravura com detalhes de ourives na
policromia sobre papel. Abaixo, Vesalius
representado em litografia em policromia
de 1861 por Edouard Hamman; a capa
da edição nacional; e a célebre pintura
de Rembrandt de 1632, considerada
uma homenagem a Vesalius, intitulada
Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp




O pioneirismo de Vesalius estende-se à noção de arte, concebida por ele como “criação da inteligência, sujeita a regras de perfeição apreensíveis e que podem ser formuladas e ensinadas com precisão científica”. Pela audácia de seu trabalho sem precedentes, Vesalius de Bruxelas acabou condenado à morte pela Inquisição, sob acusação de ter dissecado um homem vivo. Escapou por misericórdia de Filipe 2°, rei da Espanha, que conseguiu transformar a sentença final em uma peregrinação de Vesalius a Jerusalém.
No ensaio biográfico que acompanha “De Humani Corporis Fabrica”, o leitor descobre que, depois de enfrentar séries intermináveis de peripécias dignas de galerias de heróis picarescos da melhor ficção, Vesalius ainda sobreviveria de forma mirabolante a um naufrágio, na sua viagem de volta de Jerusalém à Europa. Morreria como náufrago, esquecido na ilha grega de Zante, até hoje citada como um dos cenários especialmente paradisíacos no Hemisfério Norte.

por José Antônio Orlando. 

 
Para comprar a edição em inglês do livro De Humani Corporis Fabrica, clique aqui.






11 comentários:

  1. Estou até com medo de comentar, mas vou registrar meu comentário: Semióticas é o máximo, não sei como você consegue se superar sempre, meu querido autor do blog. Quando a gente pensa que encontrou a melhor matéria, você vem com outra ainda mais estranha, mais bonita, mais séria. Esta aqui do Vesalius é para guardar no caderninho. Fiquei sem ar.
    Muitos parabéns, meu querido José. Que a sorte esteja sempre sorrindo ao seu lado. / Edgard Ramos

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  2. Méri Ane de Valença10 de outubro de 2013 11:04

    Parabéns pelo belo artigo e pelo blog, sempre excelente e lindo. Méri Ane de Valença

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  3. Cláudia Vieira de Melo16 de outubro de 2013 22:52

    Que página! Que blog! Que coisa mais fantástica é este Semiótica. Amo.

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  4. Fantástico. Aprendi e viajei muito. Beijos. Grata.
    Caroline Santos

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  5. Parabéns, autor do blog Semióticas. Tudo aqui é uma beleza!

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  6. Carla Lemos Camargos7 de novembro de 2013 19:13

    Mais uma aula brilhante, professor! Seu blog é sempre um espet´culo e consegue se superar a cada novo post. Sou fã. Parabéns!!!
    Carla

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  7. Seu blog é uma das melhores surpresas que já encontrei na Internet. Pela beleza e pelos belos textos recheados de informações sofisticadas. Virei fã desde a primeira visita. Parabéns.

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  8. José Antônio, parabéns por mais esse texto brilhante, culto, informativo e lindamente ilustrado. Desejo-lhe muito sucesso, sempre, tanto na vida profissional quanto na vida pessoal. E que continue sendo um "otimista implacável".

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  9. Leandro Leite Galvão3 de novembro de 2014 12:29

    Tenho o privilégio de ter aqui nas bibliotecas da Unicamp este Atlas maravilhoso. Já procurei em todas as livrarias para comprar, mas está esgotado. Aproveito a visita para dizer que estou encantado com este seu blog Semióticas. Também virei fã na primeira visita. Nunca encontrei um blog como este. Estou no Paraíso. Seu trabalho é um primor. Parabéns, José Antônio Orlando. Que Deus e os Anjos aumentem e multipliquem tanto talento e sabedoria.

    Leandro Leite Galvão

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  10. Lindo artigo mais uma vez. Que harmonia fina. Parabéns cara.

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  11. Já publiquei aqui muitos outros comentários de elogio e gratidão, mas a cada visita que faço a este Semióticas descubro novidades tão grandiosas e tão lindas que sempre fico emocionado. Então venho repetir outro elogio e agradecimento por você compartilhar tanta beleza e sabedoria. Sou sinceramente e eternamente agradecido por tudo que aprendo com você, professor José. Parabéns.

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