sábado, 9 de fevereiro de 2013

Nadar com o Pierrô






Gaspard-Félix Tournachon (1820–1910) trabalhava em uma profissão que, antes dele, ainda não tinha sido inventada: era desenhista, caricaturista e ilustrador de jornais e revistas em tempo integral. Durante o inverno de 1854, aproveitando a popularidade que seu trabalho começava a adquirir em Paris, por conta de duas publicações que ele havia criado – a “Revue Comique” e o “Petit Journal pour Rire” – Tournachon deu um passo arriscado: decidiu abrir seu primeiro estúdio fotográfico.

A fotografia era uma grande novidade, inventada havia pouco mais de uma década, ainda restrita a poucos, pelas dificuldades técnicas e pelo alto custo do equipamento. Mas Gaspard-Félix Tournachon tinha um projeto ambicioso para seu estúdio parisiense: registrar e publicar um Panthéon reunindo retratos fotográficos das grandes personalidades de seu tempo.

O projeto foi adiante. Depois do estúdio fotográfico, Gaspard-Félix Tournachon ficaria mais conhecido por seu nome artístico – Nadar – e seu trabalho como fotógrafo passaria à história em lugar de destaque tanto entre os pioneiros como entre os maiores de todos os artistas no registro de imagens através de lentes e câmeras. O Panthéon Nadar, por uma sugestão de Adrien, irmão de Gaspard-Felix, teria início com uma série, realizada no estúdio fotográfico, retratando um personagem que vinha direto da Baixa Idade Média.








Nadar com o Pierrô: no alto da página,
Pierrot Photographeimagem que abre
a série sobre Pierrô realizada em 1854
por Félix Nadar (acima, em autorretrato
datado de 1910 e na célebre sequência
de autorretratos de 1865 criada para
ser exibida de forma a criar ilusões de
movimento, duas décadas antes dos
estudos de movimentos em fotografias
de Eadweard Muybridges. Abaixo,
imagens do ensaio sobre Pierrô. A
série completa atualmente pertence ao
acervo do Musée d'Orsay, em Paris
(veja link no final deste artigo)








A ideia original de Adrien, colocada em prática pelo irmão, era apresentar o salão fotográfico de Nadar à alta sociedade e a artistas e intelectuais através de fotos estampadas em cartões de visita. Adrien tinha assistido à estreia em Paris do espetáculo teatral de Jean-Gaspar-Baptiste Deburau e seu filho Charles Deburau, que resgatava esquetes e personagens da Comedia dell'Arte. Ficou impressionado com o espetáculo e sugeriu que Nadar fizesse um retrato de Pierrô (ou Pierrot, em francês). Nadar aprovou e Charles Deburau foi contratado, dando início à série destinada a promover o salão e também inaugurar o Panthéon de retratos fotográficos. Mas a “ajuda” do irmão acabou custando muito caro a Nadar.

Um ano depois da inauguração, os cartões de visita de Nadar com as fotos de Pierrô eram sucesso em Paris, os negócios do salão fotográfico prosperavam e o Pantheón Nadar colecionava os primeiros retratos de grandes celebridades de seu tempo – incluindo Charles Baudelaire, Gustav Flaubert, Eugène Delacroix, Sarah Bernhardt, Stéphane Mallarmé, Jules Verne e muitos outros, além da novidade de um fetiche dos mais lucrativos: cartões para cavalheiros com fotografias de cenas eróticas e de nudez.







Foi quando um problema dos mais imprevistos surpreendeu Nadar: seu irmão Adrien inscreveu, sem que ele soubesse, a série de fotografias sobre Pierrot na Exposição Universal de 1855. A série acabou recebendo o grande prêmio da exposição, mas o premiado foi Adrien e não Nadar. Foi o início de um processo tumultuado que marcou época, com muitas idas e vindas e reviravoltas na Justiça, até que Nadar conseguiu finalmente ganhar a causa em 1857. Um escândalo. Mas um escândalo que ajudou a promover o trabalho de Nadar com a fotografia.



Commedia dell'Arte



Pierrô, Arlequim e Colombina vêm de antes do século 16, com origem em Veneza e outras cidades de países da Europa banhados pelo Mediterrâneo. As origens se perdem no tempo, mas o registro documental mais remoto desta história vem do ano de 1513, nas cidades da Itália, quando os três personagens ganharam destaque em esquetes de criação coletiva de grupos de teatro populares, apresentados pelas ruas e praças públicas. Tornou-se um estilo, conhecido como Commedia dell'Arte, com seus tipos fixos e improvisos de humor escrachado, em oposição à Commedia Erudita, mais recatada e apresentada em latim, já naquela época uma língua inacessível à maioria.

Há séculos, Pierrô e sua trupe levavam gargalhadas às multidões reunidas nas praças, enquanto as tramas da Commedia Erudita, com pompa e circunstância, eram encenadas nos palcos de teatro e palácios para as seletas plateias da nobreza e da aristocracia. Não é por acaso que na origem, na Baixa Idade Média, Pierrô, Colombina e Arlequim fossem serviçais envolvidos em sátiras e quiproquós sobre a vida dos patrões.







Pierrô, ingênuo e sonhador, vítima preferida das piadas de Arlequim e de todos os outros personagens em cena, descobre que está perdidamente apaixonado por Colombina, uma moça simples, mas muito prendada, que sabe cantar e dançar, é empregada de uma dama da Corte e, assim como Pierrô, também ingênua e sonhadora. O drama começa quando Pierrô decide se declarar à sua musa Colombina, mas logo vem a decepção porque ela também está apaixonada: pelo espertalhão Arlequim...

O russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), expoente da Semiótica, das Ciências Sociais e da Teoria da Literatura, em seus estudos sobre a cultura popular na Idade Média e no Renascimento, situa as tramas de Pierrô e demais personagens da Commedia dell'Arte na origem de uma cultura universal de humor popular, destacando que provavelmente tudo teve origem na Turquia e nos reinos da Ásia Menor na Antiguidade.

O drama de Pierrô permaneceu um sucesso popular nos vilarejos da Itália e em outros países da Europa durante séculos, mas estava mais próximo da tradição folclórica quando foi resgatado, estilizado e levado aos palcos de Paris, em 1854. A montagem que resgatou Pierrô foi produzida e encenada por Jean-Gaspar-Baptiste Deburau, pai do ator Charles Deburau, que aparece como Pierrô nas fotos de Nadar.








 Da Europa para o carnaval tropical



O espetáculo dos Deburau, pai e filho, terminou por firmar algumas tradições na caracterização dos personagens saídos da Comedia dell'Arte: Pierrô com roupas largas e brancas, porque é feita de sacos de farinha, rosto pintado de branco e marcações em preto destacando olhos e boca. A Colombina ressurge com forte maquiagem nos olhos, nas bochechas e na boca vermelha, com roupa em preto e branco, enquanto o Arlequim é apresentado como bufão e piadista, com roupa feita de losangos coloridos e fundo preto, feliz e sorridente, em contraponto a Pierrô, que traz uma lágrima desenhada abaixo dos olhos e raramente sorri.

Dos palcos de Paris para os quatro cantos do planeta: depois do sucesso do espetáculo dos Deburau e dos cartões de visita do estúdio fotográfico de Nadar, a fantasia de Pierrô, assim como Arlequim e Colombina, voltaram à moda nos festejos populares e nos bailes de carnaval em Paris e outras capitais. Em pouco tempo, chegavam à Corte no Rio de Janeiro, ainda no final do século 19. No início do século 20, fantasias de Pierrô e Colombina eram quase obrigatórias nos corsos e nos bailes carnavalescos da alta sociedade.




Acima e abaixo, baile de carnaval em
1905 com pierrôs e colombinas em Paris,
em duas fotografias de Joseph Byron
em exposição permanente no acervo do
Musée d'Orsay. No final da página,
desfile do Corso durante o Carnaval
carioca em fotografia anônima, datada
de 1910; a gravação de Maria Bethânia
de 1965, que resgatou a marchinha de
Carnaval Pierrot Apaixonado, e outras
duas obra-primas da História  da Arte:
Pierrot, tela de 1818 de Pablo Picasso,
e Carnaval de Arlequino, pintura de
1925 da fase dadaísta de Juan Miró






Depois de desembarcar em terras brasileiras no final do Oitocentos, Pierrô, Colombina e Arlequim também não demoraram a encontrar o mundo do samba. O grande sucesso no Brasil do carnaval de 1936, ainda hoje celebrado pelos foliões no Reinado de Momo, foi uma marchinha de Noel Rosa, composição em parceria com Heitor dos Prazeres: “Pierrô Apaixonado”.

Da remota Antiguidade para os festejos populares da Baixa Idade Média e daí aos palcos parisienses em meados do século 19, até encontrar registro definitivo nas lentes e câmeras de Nadar. Um daqueles paradoxos da tradição e dos rituais que a cultura representa: um personagem tão nostálgico e melancólico como Pierrô tomado como símbolo para celebrar, há tanto tempo, no mundo inteiro, a festa e a alegria do Carnaval...


por José Antônio Orlando. 



Para visitar a série Pierrot, de Nadar, no Musée d'Orsay,  clique aqui. 






'Pierrô Apaixonado'


Um Pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina
Acabou chorando, acabou chorando...

A Colombina entrou num butiquim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
Dizendo: Pierrô, cacete, vai
Tomar sorvete com o Arlequim...

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o Pierrô aconteceu assim
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim...

Um Pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina
Acabou chorando, acabou chorando...

(Pierrot Apaixonado, composição de 1936, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres)















6 comentários:

  1. Curiosidades curiosas...sempre muito bom conhecer mais e vc sempre faz isso com maestria!Parabéns!A-DO-RO!

    ResponderExcluir
  2. Meu querido José Antonio Orlando. Parabéns pelo blog. Acabei de fazer minha primeira visita. Cheguei nesta bela página, Nadar com o Pierrô, por causa de um link que encontrei no Facebook, mas não tinha noção da maravilha que eu ia encontrar por aqui. Tudo lindo, divino, maravilhoso. Estou completamente encantada, completamente sem palavras. Desejo boa sorte e preciso dizer que já virei fã de carterinha. Mil beijos.

    ResponderExcluir
  3. Maravilhoso o seu trabalho. ADORO!

    ResponderExcluir
  4. Fiquei impressionado com esta sua aula sobre um personagem tão bacana que faz parte do imaginário de todos nós. Fiquei impressionado mesmo. Uma beleza. Parabéns pela qualidade do trabalho e muito obrigado por compartilhar sua sabedoria.
    Adilson Marques

    ResponderExcluir
  5. Mariana de Araújo Borges21 de janeiro de 2014 21:08

    Seu blog é um espetáculo. Estou emocionada com este artigo brilhante sobre o Pierrô. E que imagens mais lindas. Você ganhou mais uma fã, José Antônio Orlando. Parabéns!

    ResponderExcluir
  6. Uau!!! Que aula deliciosa sobre o Carnaval e sobre estas figuras que a gente conhece desde sempre. Foi para mim uma surpresa e uma felicidade descobrir este blog Semióticas. Ganhou outra fã de carteirinha. Tudo aqui é maravilhoso.

    Regina Guimarães

    ResponderExcluir

( comentários anônimos não serão publicados )

Todas as páginas de Semioticas têm conteúdo protegido.

REPRODUÇÃO EXPRESSAMENTE PROIBIDA.

Contato: semioticas@hotmail.com

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Páginas recentes