sexta-feira, 9 de março de 2012

Bracher barroco





Considerado por unanimidade um dos grandes artistas plásticos em atividade no Brasil, o pintor, desenhista, escultor e poeta Carlos Bracher apresenta mais um trabalho de excelência: o livro "Ouro Preto – Olhar Poético", com texto e aquarelas de sua autoria. Partindo das referências históricas desde as origens de Vila Rica e de personalidades emblemáticas do século 18 como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, além de Tiradentes, Marília de Dirceu, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e outros heróis e poetas da Inconfidência, Bracher apresenta um roteiro poético sobre a cidade que, em suas palavras, deu origem à "civilização mineira".

Mineiro de Juiz de Fora, expoente de uma família de artistas, Bracher escolheu Ouro Preto para viver desde 1971. "Eu conhecia Ouro Preto de passeios e temporadas. A partir do Carnaval de 1971 fui morar na cidade e desde então, com a vivência e as experiências do dia a dia, a minha paixão por Ouro Preto tem sido cada vez mais avassaladora", confessa.

"Ouro Preto – Olhar Poético" é o segundo livro que Bracher publica. O primeiro, dedicado a Brasília ("Bracher Brasília"), foi lançado em setembro de 2006 reunindo uma seleção de textos e 66 quadros sobre os cenários mais conhecidos da Capital Federal. "Na verdade este livro sobre Ouro Preto foi o primeiro que escrevi”, ele explica, em entrevista por telefone. “Foi concluído no primeiro semestre de 2006, mas por diversas razões o livro sobre Brasília saiu primeiro e o projeto sobre Ouro Preto ficou adiado, primeiro por um motivo, depois por outro”.









Bracher barroco: no alto,
o Cristo segundo Bracher,
pintura em óleo sobre tela
reproduzida na capa do livro
Ouro Preto –– Olhar Poético.
Acima, o artista em ação, em seu
ateliê, na casa onde mora, e nas
ruas de Ouro Preto; abaixo,
Bracher nas ruas da cidade de
Tiradentes, com os cenários
da cidade barroca traduzidos
na pintura em óleo sobre tela







O livro propõe uma visita a Ouro Preto numa perspectiva que alcança muito além da história e do conjunto arquitetônico, levando o leitor a passear pelos logradouros, museus, igrejas, contando casos da cidade, do “renascimento” ocasionado pelas visitas dos modernistas na década de 1920 e do estilo que encanta turistas e pesquisadores. “São muitos detalhes para publicar um livro de qualidade. A própria edição é demorada, cheia de detalhes e revisões, e tem também a questão do patrocínio, que é sempre um complicador", revela o artista.



Barroco em roteiro amoroso



Nas páginas de "Ouro Preto – Olhar Poético", Carlos Bracher apresenta um roteiro amoroso que remonta à Vila Rica de 300 anos no passado, com seus personagens históricos e outros mais recentes – como Dona Olímpia, Bené da Flauta, os artesãos – e cenários, fotografias, imagens de Rugendas, referências culinárias e um leque de questões culturais. O projeto, ele explica, nasceu de uma proposta que pretendia uma “síntese amorosa”.








"Posso dizer que é uma síntese amorosa sobre o sentimento das coisas encantadas", destaca. A Ouro Preto de Carlos Bracher se desnuda em personagens, artistas, poetas e sonhadores, propondo uma viagem por imagens da história e cenas retratadas em aquarelas que ele produziu ao longo do tempo. Entre outros personagens da trajetória da cidade, presentes no livro, Bracher define o Aleijadinho:

"Donde vinha a força daquele homem? Do mutilado com seus ferrões presos às mãos paralíticas, ferros invioláveis da dor, da excrescência máxima da feiúra do corpo a transitar a intangível beleza revertida, de alguém a dialogar com o divino da encarnação, transfigurando chagas em cantaria, suplício em poesia. Aleijadinho detinha a real senha da pulsação, os vórtices fecundos e a entrega devocional dos desígnios definitivos do que seja, em verdade, arte".






A sequência de aquarelas com cenários de igrejas, ladeiras, casarios e a Praça Tiradentes é intercalada com textos breves em linguagem poética. Bracher recria o passado – com traços e palavras em busca dos enigmas encobertos e das raízes profundas que fizeram da antiga Vila Rica e da moderna Ouro Preto as matrizes do pensamento artístico e libertário da identidade nacional.



Mestres de primeira grandeza



Aos 72 anos e depois de quase seis décadas de vida dedicada às artes plásticas, Bracher está entre os brasileiros que mais tiveram exposições de seus trabalhos no exterior, com dezenas de mostras individuais em importantes museus e palácios em Paris, Roma, Milão, Londres, Madri, Haia, Moscou, Bruxelas, Miami, Tóquio, Pequim, entre outras cidades do mundo. Otimista, absorto pela verdade da obra de arte e encantado pelos cenários barrocos de Ouro Preto, ele faz do livro uma declaração de amor à cidade que desde 1971 adotou como sua.






Uma conversa com Carlos Bracher é um encadeamento sem fim de lembranças e de ideias inspiradas sobre o tempo presente. No pouco tempo da entrevista ao telefone, ele descreve os passos de composição do livro e recorda momentos importantes de sua formação, que teve início num ambiente familiar propício para a arte. Ele conta com orgulho que foi desde a infância, em Juiz de Fora, que a literatura, as artes plásticas e a música nortearam sua trajetória.

A dedicação à arte, que o levaria às primeiras experiências do reconhecimento ainda na década de 1950, iria ultrapassar em pouco tempo as fronteiras de sua cidade-natal. Além dos primeiros estudos em Juiz de Fora, Bracher também teve a sorte, como ele diz, de ter sido aluno em sua temporada em Belo Horizonte de Fayga Ostrower (1920–2001) e de Inimá de Paula (1918–1999), entre outros mestres de primeira grandeza. 



 
Já em 1967, Bracher obtinha a premiação máxima de pintura no país, com o "Prêmio de Viagem ao Estrangeiro", do Salão Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro, pelo qual permaneceu por dois anos na Europa participando de cursos e oficinas de aperfeiçoamento em pintura. Em 1968, outro destaque surpreendente: o Prêmio Revelação do Ano, concedido pelo “Jornal do Brasil”. Os fatos marcantes de sua carreira são muitos, enumerados no decorrer das últimas décadas, entre eles a grande retrospectiva "Pintura Sempre", em 1989, com curadoria de Olívio Tavares de Araújo, no MASP de São Paulo.



A família do artista



Fiel ao uso de telas, tintas, pincéis e cores, sem nunca ter se filiado aos movimentos de vanguarda que se aproximaram de outros suportes e outras tecnologias, Bracher também destaca com orgulho em sua trajetória a série de 100 quadros que realizou, entre 1990 e 1992, para comemorar o centenário da morte do pintor Van Gogh (1853-1890) – que teve exposições em diversas galerias e museus no Brasil e no exterior. Outro destaque importante é uma retrospectiva itinerante e abrangente de sua obra que, desde 2006, está em curso na Europa, com exposições em Luxemburgo, Alemanha e Rússia. 



 
Filho do pintor, professor e compositor Waldemar Bracher e irmão dos artistas plásticos Nívea e Décio Bracher, casado com Fani Bracher, outro nome de destaque na pintura brasileira contemporânea, e pai de duas filhas, Blima e Larissa, Carlos Bracher defende que a obra de arte é, desde sempre, o melhor que o ser humano pode produzir. 

“A arte e a cultura formam um conjunto que distingue o ser humano de todos os outros seres do planeta”, ele diz, quando questionado sobre o valor e a importância da obra de arte no mundo atual. “Sem a obra de arte o ser humano não seria em nada diferente dos outros animais. A arte é a descoberta do mais humano que existe em nós mesmos”, conclui.


por José Antônio Orlando.






Carlos Bracher fotografado em Ouro Preto,
cidade que escolheu para viver desde 1971

 


7 comentários:

  1. Ouro Preto e seus detalhes tão encantadores! Quero muito ler esse livro. Concordo com ele: "a paixão por Ouro Preto tem sido cada vez mais avassaladora". Abraços, Lícia Ribeiro.

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  2. Muito inspirador esse artista que colore e dá vida ao passado ... Bem mesmo.

    EDUARDO.S.

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  3. Parabéns de novo, José Antonio Orlando. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir. Você tem na mesma medida talento e vocação para produzir estes textos lindos que comovem a gente e encantam... Não é a toa que seu blog é um sucesso que tem conquistado essa multidão de milhares de leitores e de elogios. Acabo de anexar esse Carlos Bracher à lista dos meus favoritos. Muito bom mesmo...
    Abração para você, mestre!

    Gilberto da Gama

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  4. A arte é a descoberta do mais humano que existe em nós mesmos... Deus do céu! Só a alegria de encontrar esta frase tão linda e poética do mestre Carlos Bracher já valeria a visita de hoje ao seu blog Semióticas, José. Aqui há sempre mais de uma surpresa e de um deleite para os olhos e para o pensamento. Amo cada uma de suas páginas e à maior parte delas já fiz mais de uma visita... Vontade de agradecer um milhão de vezes por você existir e fazer parte da minha lista de amigos. Beijos, beijos!

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  5. Tem coisas que a gente não sabe explicar. Hoje eu estava pesquisando para minha monografia de graduação e saí navegando meio sem rumo. E não é que um link sobre o barroco me trouxe até o seu blog? Fiquei encantada. Estou aqui há horas lendo e olhando e admirando a beleza dos textos e das imagens que você seleciona. Parabéns, José Antônio Orlando. Deixo aqui nesta página sobre o Carlos Bracher este registro porque foi a primeira página que encontrei no seu blog. Mas todas são geniais. Descobrir este Semióticas foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos. Virei sua fã.

    Nayana Sousa

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  6. Que espetáculo! Só em Minas para surgir a arte de Bracher e este blog fantástico chamado Semióticas. Também sou fã. Parabéns.

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  7. Amanda Garcia Leal6 de janeiro de 2016 23:13

    Estou encantada com o que encontrei por aqui. Amo Bracher e esta sua matéria com ele está uma beleza. O blog Semióticas inteiro é uma beleza. Parabéns, José. Há muito tempo não encontrava textos tão bons em sintonia com imagens espetaculares. Você ganhou mais uma fã. Agradeço de coração por tanta sabedoria e beleza compartilhada.

    Amanda Garcia Leal

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