domingo, 19 de fevereiro de 2012

Antigos carnavais





Aos 90 anos de idade, festejados no dia 8 de dezembro, o compositor Jadir Ambrósio diz que é do carnaval de outros tempos que ele mais sente falta. "Sinto falta dos tempos de boemia nos botequins do Centro de Belo Horizonte, como o 'Mocó de Iaiá', do carnaval animado dos anos 1950, das escolas de samba maravilhosas que invadiam a Avenida Afonso Pena com seus adereços e aquela energia que fazia todo mundo cair no samba", destaca.

"Pude matar as saudades há uns cinco anos, quando subi ao palco pela última vez, na Biblioteca Pública, na Praça da Liberdade, ao lado de Mestre Conga, meu amigo de longa data", ele recorda, nessa entrevista concedida no jardim da casa onde mora há décadas, na esquina da rua Clara Nunes, no bairro Renascença. Jadir Ambrósio e outro sambista da velha guarda, Mestre Conga, foram convidados na época pelo projeto Stereoteca e quem assistiu diz que foi um show comovente, bem no espírito da época de ouro do samba de raiz em Belo Horizonte.

"Há muito tempo que o carnaval não é mais o mesmo. Eu vejo muita falta de solidariedade, muita falta de companheirismo nos dias de hoje. As pessoas estão muito individualistas, parece que não estão nem aí umas para as outras. Isso dói num homem vivido como eu", explica, enquanto confessa que para matar as saudades costuma ouvir os velhos discos de vinil com as canções de Orlando Silva, Sílvio Caldas, Francisco Alves, Ataulfo Alves, Carmen Miranda e outras estrelas de outras épocas.









Jadir Ambrósio e as lembranças
dos antigos carnavais em
Belo Horizonte: acima, a partir do
alto, desfile de escola de samba 
(década de 1960) e o Corso na
avenida Afonso Pena, em fotografias
de álbum de família, das décadas de
1930 e 1940. No alto da página,
Jadir Ambrósio fotografado em
2012 pela neta, Natália Ambrósio.
Abaixo, o Carnaval de 1924 em
fotografia de Augusto Malta.
Exceto quando indicado, as imagens
abaixo são reprodução de álbum de
família ou têm autoria desconhecida





"Gosto especialmente de sambistas. Quando me entrevistam eu sempre digo que Paulinho da Viola é meu preferido, mas agora eu preciso confessar que também gosto muito do Martinho da Vila e de outros, muitos outros. A lista é grande. Entre as cantoras, ouço sempre os discos da Beth Carvalho e da Alcione, mas não tenho como deixar de falar da grande Clara Nunes. Oh, que mulher importante, talentosa, uma guerreira do samba, e para a nossa sorte era mineira", completa.



A descoberta de Clara Nunes



Mineiro de Vespasiano, ele nasceu em 8 de dezembro de 1922 e veio para a cidade onde passaria a vida inteira ainda menino, quando a família se mudou para Belo Horizonte em março de 1926. O endereço de Jadir Ambrósio, na esquina da Rua Clara Nunes, não é puro acaso. Na verdade, o batismo da rua foi sugestão dele, que insistiu muito com a Prefeitura. Até que, há poucos anos, Clara Nunes passou a ser o nome da rua. 




Clara Nunes na avenida, no Carnaval
de 1975, em desfile da Portela com
o samba-enredo "Macunaíma, Herói
de Nossa Gente", e no Programa do
Chacrinha na TV Tupi, em 1974.
Nas fotos abaixo, primeiros blocos
caricatos desfilam em BH, na avenida
Afonso Pena, na década de 1940;
foliões tomam os bondes no Carnaval
de Belo Horizonte, nas décadas de
1940 e 1950; e o desfile do Corso
na avenida Afonso Pena, anos 1950








"Eu conheci a Clara Nunes quando ela chegou numa festa que eu fazia no adro da igreja Santo Afonso, aqui no bairro. Ela era ainda quase uma criança, tinha uns 16 anos, e tinha vindo de Caetanópolis para trabalhar como operária na Fábrica de Tecidos Renascença, que não existe mais. Aí eu soube que era vizinho dela. Quando ela cantou foi um acontecimento, e depois a gente acabou ficando muito amigo daquela moça tão talentosa. Fui eu quem a levou para as primeiras participações nos programas de auditório. Foi assim que apareceu a Clara Nunes", conta, emocionado.

Clara retribuiu a força que impulsionou sua carreira como cantora gravando músicas de Jadir Ambrósio nos primeiros discos e depois, quando estava no auge da fama, nas décadas de 1970 e 1980. "Clara gravou várias de minhas composições. A que fez mais sucesso na voz dela foi 'Noites de Farra'", recorda, cantarolando um trecho. Com Jadir Ambrósio, a música está sempre presente para ver a vida com mais otimismo. 









Entre trechos cantarolados de marchinhas de carnaval e sambas da velha guarda, ele volta e meia retorna a sua composição mais celebrada, o Hino ao Cruzeiro, seu time do coração. "O locutor Audair Pinto aproveitou o sucesso imediato do hino do Cruzeiro e virei freguês no programa de auditório da Inconfidência, que era a maior audiência da rádio naquele tempo", conta, com entusiasmo.

Na mesma época em que surgiram os hinos do Cruzeiro e do Atlético, outros compositores do primeiro time da música popular também criaram obras em outros estados que celebravam o casamento de música e futebol. Entre outros nomes consagrados, o gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974) criou o hino do Grêmio e o carioca Lamartine Babo (1904-1963) criou o hino do Flamengo.

"Lamartine era outro fenômeno", destaca Jadir Ambrósio. "Era humorista, músico, cantor e um dos mais importantes compositores que o Brasil já teve. Ele é autor do hino do Flamengo, do Fluminense, do Botafogo, do América, do Vasco da Gama... Tem mais, mas não me lembro agora. Também fez marchinhas de carnaval das melhores de todas, 'O teu cabelo não nega', 'Linda morena', 'Cantoras do rádio', 'Joujoux e balangandãs', 'O hino do carnaval' e muitas outras. E ainda é dele tantos clássicos do cancioneiro brasileiro, 'No rancho fundo', 'Serra da Boa Esperança'... Êh, Lamartine..."














Bandolim, pandeiro e tamborim



"Uma das grandes alegrias que tive na vida foi quando colocaram meu hino para o Cruzeiro num disco que reunia os hinos mais bonitos do futebol brasileiro. Aquele disco, que saiu pela Continental, fez história e até hoje as pessoas que eu conheço comentam e elogiam", conta, com orgulho, enquanto procura o disco de vinil no móvel da sala.

"Deviam relançar esse disco que o sucesso ia se repetir. Todo torcedor tem um amor verdadeiro pelo hino de seu time de coração. E eu acho que futebol sempre teve ligação com a boa música", defende, lembrando que até a década de 1970 toda vila de Belo Horizonte tinha um clube de futebol com sua respectiva sede social.

"Nesta sede social dos clubes sempre tinha muito samba, muito choro de improviso, violão, cavaquinho, bandolim, pandeiro e tamborim. Havia nossas horas dançantes, tudo era motivo para comemoração, até aniversário de padre da paróquia", brinca. Outro ponto de encontro dos sambistas da antiga em Belo Horizonte, ele recorda, era a Associação dos Datilógrafos de Minas Gerais, na Rua Tupinambás. "Eles davam muita força para todos os sambistas, chegavam até a datilografar as letras da músicas", comenta.


 








Depois do seu primeiro sucesso, "Oi, sabiá", gravado pela dupla Caxangá e Sanica pelo selo Columbia, em 1954, vieram outros sucessos antes do divisor de águas que foi o hino do Cruzeiro, incluindo samba, marchinhas, baião, xote e outros ritmos dançantes. Jadir Ambrósio faz uma pausa e enumera seus principais sucessos: "Chô Passarinho" (em parceria com Caxangá), "Buraco de Tatu" (com Jair Silva), "Domenique" (com Henrique Almeida), "História do Tico-tico" (com Xavier e Eli Murilo), "Índia Guarani" (com Eli Murilo), "Professor Maluco" (com Manoel Moes), "Protegido de Nossa Senhora" (com Jair Silva), "Quando o Repórter Descobriu" (com Raguinho). “Esses são os que estou lembrando agora, mas tem muitos outros”, ele diz. 

"Desde menino eu sou compositor. Engraçado é que naquelas primeiras reuniões que a gente fazia, em frente lá de casa, na Cachoeirinha, eu ainda estava aprendendo a tocar cavaquinho e violão e já improvisava acordes e versos, inventava, juntava trovas e trechos de sambas que eu tinha ouvido no rádio. São minhas as melhores lembranças. A vizinhança assistindo e a gente ali, aprendendo a tocar o cavaquinho, depois o violão, o pandeiro e tudo de percussão que aparecesse", recorda.

"Só lembro que era a maior diversão para os vizinhos todos e para nós também, aqueles batuques e ensaios na porta de casa. Os vizinhos não reclamavam, não. Muito pelo contrário. Eles gostavam tanto que a brincadeira progrediu. Até que formamos o conjunto Os Filhos da Lua. Não sou tão saudosista, mas que tempo bom era aquele... Oh, que tempo bom..."




Apesar de tantos sucessos que fizeram história na música de Minas Gerais nas décadas passadas, Jadir Ambrósio conta que nunca conseguiu viver somente do ofício em que é mestre aclamado por seus pares e pelo público que acompanhou sua trajetória desde os tempos de Getúlio Vargas, na década de 1930, época dos primeiros acordes com os irmãos e com os amigos mais próximos em frente à casa em que sua família morava, no Bairro Cachoeirinha.

"Sempre fui um faz-tudo. Sou daquele tipo de gente que fez de tudo para sobreviver. Só não roubei e nem enganei ninguém", conta, com orgulho. "Uma vez teve até uma história engraçada, se não fosse uma coisa muito séria. Lembro que eu voltava de um baile de carnaval no Centro da cidade em que tinha estreado um saxofone novinho em folha. Aquilo brilhava e eu voltava para casa andando a pé, suado, vestindo uma fantasia de bloco de sujos”, recorda, rindo muito do acontecido antes de contar como foi o desfecho da aventura.




E lá ia eu, fazendo mesura com o saxofone tinindo de tão novinho. De repente dou de cara com uma patrulha montada a cavalo, que me parou porque achou aquilo suspeito. Imagine um negro de roupas de molambo andando apressado, de madrugada, carregando um instrumento valioso como aquele e ficando assustado porque encontrou a polícia. Foi então que um dos policiais virou para mim e falou – se este instrumento é seu, moço, então toca para provar que é verdade”.

Ele diz que o medo e o susto o deixaram paralisado, mas daí a pouco o coração voltou a bater compassado e a coragem o fez criar forças. “Aí a coisa mudou. Com aquele desafio do guarda, toquei e toquei com força. Mas com tanta força que os cavalos se espantaram e fugiram em disparada pela ladeira abaixo. Foi uma confusão e também uma lição para quem julgou apressado por puro preconceito", conta, divertindo-se com a lembrança do susto dos policiais e com o desfecho inesperado que o caso tomou. 




A Praça Sete, no centro de BH,
fotografada na década de 1960.
Abaixo, desfile da escola de samba
Cidade Jardim na Praça da
Liberdade, na década de 1960,
e a plateia no desfile de blocos na
Avenida Afonso Pena em 1946







Samba e aposentadoria



Jadir Ambrósio lembra que em épocas diferentes, por necessidade, teve que trabalhar muito em situações e condições nem sempre boas: já capinou ruas, foi mecânico, ajudante de obras, escriturário, vendedor. "Depois de muitos anos, consegui me aposentar como auditor técnico de tributos da Prefeitura de Belo Horizonte", recorda, lembrando de suas andanças pela capital que inspiraram uma de suas marchinhas preferidas, que fala sobre o antigo Bairro da Concórdia. 
 

"Minha Concórdia
onde estão seus tamborins
cadê suas mulatas
minha escola tão querida..."


Entre uma e outra melodia dedilhada ao violão, ele também conta que nunca gostou de se apresentar em shows. "Gostava só no tempo do rádio ao vivo. Meu negócio sempre foi roda de samba, baile de carnaval e desfile de blocos", revela. Entre seus planos para o futuro próximo está o lançamento de um novo disco, que será seu terceiro CD. "Estava tudo pronto quando adoeci e as coisas ficaram paradas. Agora preciso retomar o projeto e marcar o lançamento do disco, que até já está gravado, com canções inéditas e um ou outro sucesso do passado", explica. 




 
Segundo lhe disseram, o lançamento do novo disco depende apenas de alguns detalhes na conclusão dos trâmites burocráticos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. "Para mim, música é coisa da alma. Não vejo a música como um meio de vida. Aliás, nessa vida não posso me queixar de nada. Foi através de minha música que conheci muita gente do bem", registra. Entre os compositores de Minas Gerais, sua preferência é pelos contemporâneos e conterrâneos Rômulo Paes, Gervásio Horta, Valdir Silva e os irmãos Saraiva.

"Também tem o seu valor o trabalho de músicos de primeira que não são tão conhecidos, como o Serginho BH, o Fabinho do Terreiro. Das gerações mais novas, respeito muito o Paulinho Pedra Azul, que tem uma personalidade musical como poucos que conheci em tantos anos de carreira", completa. Entre os compositores de outros lugares do Brasil, ele diz que um sempre chamou sua atenção e ganhou sua admiração desde a primeira audição, na década de 1960.

"É o Paulinho da Viola. Que classe, que talento, que qualidade que impressiona a gente! Lupicínio Rodrigues também é um dos grandes, mas se a gente for falar da velha guarda a lista é interminável, porque tem muita gente boa que anda esquecida pelas novas gerações", lamenta. "Comparar com os compositores de hoje em dia é impossível, porque cada música sempre traduz sua época. A diferença é que a boa música permanece na vida das pessoas mesmo quando passa o tempo".


por José Antônio Orlando.






Encontro de estrelas da música brasileira
para discutir as ações de revitalização para as
marchinhas de Carnaval, registrado pela revista
Realidade, no final dos anos 1960, no Rio de
Janeiro, na casa de Vinicius de Moraes (ao centro,
à frente de Paulinho da Viola). Na foto, entre outros,
Lenita Plocynska, Edu Lobo, Tom Jobim, Torquato
Neto, Caetano Veloso, Capinam, Paulinho da Viola, 
Sidney Miller, Zé Ketti, Eumir Deodato, Olivia Hime,
Helena Gastal, Francis Hime, Luis Eça, Nelson
Motta, João Araújo, Vinicius, Dori Caymmi,
a veterana rainha do rádio Dircinha Baptista,
Chico Buarque, Luis Bonfá, Tuca,
Braguinha e Jandira Negrão de Lima


6 comentários:

  1. Maravilha, José! Encantada, de novo. Seu blog é o máximo... Que show de entrevista, que edição mais inspirada... Salvou meu domingo de carnaval... Amo você e seu blog Semióticas. Beijos, beijos!

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  2. Sou atleticano, mas tenho que reconhecer que a sua entrevista com o veterano do samba em BH está muito boa, daquelas que merecem constar em antologias, José Orlando. Parabéns, meu caro. Seu blog está cada vez melhor. Boa sorte e vá em frente, que nós, seus leitores, só temos a agradecer!

    Édson Coimbra de Sá

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  3. Que beleza de blog, que beleza de página, que imagens fantásticas dos antigos carnavais, que entrevista mais bacana. Parabéns, Zé. Você é o cara!

    Bruna Magalhães

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  4. Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro, como diz nossa amiga Adriana Falcão. Alegria é também visitar este blog e sempre ser surpreendido por páginas, textos e imagens da melhor qualidade. Repito todos os elogios que encontrei nesta coluna, Zé. Seu blog é o máximo!

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  5. Que fantástico! Passei a minha infância até os 17 anos de idade, quando me casei, no bairro Santa Cruz, colado ao Renascença e Cachoeirinha.. quanta saudade... embora eu fale de rock, tenho um site rock (www.ledarocker.com.br) marchinhas de carnaval são inesquecíveis. Li sua matéria em um unico trago!!! Parabéns, excelente! vou divulgar!

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  6. Adorei esta entrevista e o blog todo que é muito lindo. Parabéns. Ganhou mais uma fã. Show!!!

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