terça-feira, 25 de outubro de 2011

Vovó vai à guerra




Pode parecer estranho, mas é um filme de guerra sem cenas de guerra. Contudo, poucas vezes na história do cinema a vida cotidiana de um exército em guerra foi tão presente e tão angustiante. Alexandra Nikolaevna (Galina Vishnevskaya, em performance impecável) é uma velha senhora que chega da Rússia para visitar e matar as saudades do neto, capitão num acampamento militar na Chechênia. A situação é, no mínimo, extremamente original: gente como aquela velha senhora não visita campos de guerra, nem nos filmes e nem na vida real.

A presença solene de vovó Alexandra em pleno acampamento do exército russo é um corpo estranho, ainda mais que ela tenta modificar aquela rotina abrutalhada de poucos sorrisos, pouco sentimento e poucas palavras. Com um título enigmático que evoca tanto o nome do diretor, Alexander Sokurov, como uma antiga e lendária civilização (e, não por acaso, tendo como cenário de guerra o mesmo território em que morreu o mítico Alexandre, o Grande – o célebre conquistador da Antiguidade), "Alexandra" completa a trilogia familiar que o cineasta russo iniciou há mais de dez anos, com os comoventes "Mãe e Filho" (1997) e "Pai e Filho" (2004).

Na trilogia, "Alexandra" foi precedido por filmes também enigmáticos. Em “Mãe e Filho”, Alexander Sokurov retrata o último dia na vida de uma mãe, adoentada, com o filho que cuida dela no campo. Em “Pai e Filho”, o olhar alegórico do diretor e roteirista aborda uma relação das mais intensas e pouco comum: depois de uma vida isolados num pequeno apartamento, a exemplo do pai, o filho vai para a escola militar.
















Com tantas simetrias com os filmes anteriores do cineasta russo, um dos grandes realizadores de nossa época, "Alexandra" (2008) poderia se chamar "avó e neto": a percepção da velha senhora nos cenários de guerra guia o olhar do espectador – que vê, ouve e acompanha somente o que vovó Alexandra percebe com uma dignidade a toda prova.



Guerra sem fim



Em torno daquela velha senhora, Sokurov constrói seu relato de ficção na fronteira dos documentários mais realistas, que têm o ritmo da vida real. Atormentados pelo mau cheiro, pelo calor opressivo e pela violência permanente, o batalhão de soldados que recebe a visita da velha senhora prossegue, quase indiferente, as maquinações alucinadas de uma guerra sem fim.










Nos poucos dias em que acompanha a rotina do alojamento militar, vovó Alexandra encontra o silêncio, entrecortado vez ou outra pelas explosões no horizonte. Observa cada soldado, cada rosto, mas se recusa a entender o que o conflito significa. Em um breve diálogo com o comandante da tropa, depois de caminhar a esmo pelo labirinto de tendas e tanques do acampamento, ela questiona: "Vocês só sabem destruir? Quando aprenderão a reconstruir?" Não obtém nenhuma resposta.

Em outro raro diálogo, tão breve quanto revelador, Alexandra pergunta ao jovem da Chechênia que a acompanha, no trajeto de volta da vila em ruínas para o acampamento militar: "O que você pediria a Deus?" Na dúvida, o jovem, que está sofrendo na pele as agruras dos bombardeios e invasões do exército russo, responde, desolado: "Liberdade". Vovó Alexandra não concorda e aconselha: "Peça sabedoria".











Família de militares



Dos breves momentos da relação instável e afetiva que Sokurov flagra no acampamento de guerra, entre o neto militar e sua querida "babushka", imagens poéticas e nostálgicas, comoventes, vêm à tona: o capitão cede, vai às lágrimas, penteia o cabelo da avó e, por fim, a toma nos braços, numa inversão da pose clássica ao estilo "Pietá". É quando vovó Alexandra ganha um tom grandioso, que faz lembrar Anna Magnani, a diva italiana do neo-realismo na época da Segunda Guerra.


Sokurov, cineasta do primeiro time, faz um belo filme, contemplativo e sofrido, sobre silêncios e sobre uma extensa galeria de rostos. Nome principal do cinema russo na atualidade, hábil nas artimanhas da ficção e na realização de documentários, considerado por muitos o melhor sucessor de Andrei Tarkovsky (1932-1986), de quem foi amigo e aprendiz, Sokurov nasceu na Sibéria, numa família de militares – motivo pelo qual é irresistível procurar por aspectos autobiográficos em "Alexandra".





Vovó vai à guerra: Galina Vishnevskaya 
e Alexander Sokurov fotografados no
set de filmagens de "Alexandra"



Pelo olhar de vovó Alexandra, tudo é destroço de guerra, tudo é desilusão. Mas ela resiste, entre silêncios. Em uma das muitas cenas emblemáticas, vovó Alexandra caminha para um mercado na cidade vizinha ao acampamento militar e simpatiza com uma mulher chechena. A mulher leva Alexandra para a sua casa em um prédio bombardeado, onde ela serve seu chá. A cena de civilidade e hospitalidade em meio ao caos e à miséria da guerra comove e impressiona.



Sensação de descoberta



Hábil na condução do som e da imagem, Alexander Sokurov deixa no espectador uma sensação de descoberta e de algo novo, apesar das tantas sequências em que quase nada acontece. Lembra um conto curto, daqueles que se lê em minutos e que permanece no pensamento por um longo tempo. A diferença: o que Tolstoi, Turgev e Chekov fizeram com a caneta e palavras, Sokurov faz com a câmera e com a montagem, que sempre leva à reflexão e ao silêncio, praticamente abrindo mão de palavras e diálogos.













Não há cenas de batalha ou tiroteios. As explosões se ouve apenas ao longe, quase um eco. E há uma estranha poesia no olhar de Alexandra, que a tudo observa, com alguma ternura. Em outro breve diálogo, um militar graduado pede para que ela, durante sua breve estadia no acampamento de guerra, não perturbe os jovens recrutas. Na sequência, ela se aproxima de um deles e recomenda, quase sussurrando : "Ei, não deixe sua raiva consumi-lo. Em vez disso, aprenda a ser um bom garoto!"

A construção dramática de Sokurov parece calculada para que cada espectador faça as pontes entre Alexandra e as metáforas que ela representa: a avó, a mulher, a Rússia. É uma figura pensada para simbolizar a banalidade da guerra e suas consequências entre os soldados, entre as famílias, entre as nações, entre nós e nossos afetos e lembranças.

Da primeira à última cena, o cenário desolador e sombrio que Sokurov retrata pelos olhos da velha senhora parece fugir para além da Chechênia, para além de qualquer posição ideológica demarcada. Sua reflexão melancólica alcança as raízes irracionais da intolerância e de todas as guerras e as feridas, físicas e psíquicas, que cada uma delas inevitavelmente vem provocar.


por José Antônio Orlando.


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8 comentários:

  1. Aline Maria Mendes25 de outubro de 2011 13:54

    Fiquei emocionada com esta página sobre o filme Alexandra, meu querido José, e olha que nunca assisti a um filme do Sokurov. Lembrei de minha avó e de outros filmes que tiram a gente do chão e levam para o espaço... Seu texto e sua bela edição de imagens comprovam qualidade e sofisticação a toda prova, e prova que a grande arte diz o indizível, exprime o inexprimível, traduz o intraduzível.
    Parabéns e vida longa a este blog incrível. Muito obrigado pela gentileza de compartilhar. Grande abraço para ti!

    Aline Maria Mendes

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  2. Belíssimo texto! Também nunca vi os filmes do Sokurov, mas seu texto desperta um grande desejo de começar por Alexandra.
    Parabéns e sucesso ao blog.

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  3. "Vocês só sabem destruir? Quando aprenderão a reconstruir?" Construir 'e uma arte que poucos buscam.(Nao consigo achar os acentos no teclado gringo, to puto. Mas vou seguir o exmplo da vovo e transformar minha raiva em outra coisa, kkk) Fazer um filme de guerra sem cenas de guerra 'e incrivel. Sair do cliche bomba, helicopteros, "Eu vou te salvar, sou um heroi!!) No caso do Sokurov, a vovo 'e o heroi. Muito doido, pois quem iria imaginar que o heroi nao precisa ser jovem, bonito, forte, usar a cueca por cima da calca(no caso do superhomem) O barato esta nas "entrelinhas". Continuarei estudando(tentando achar as entrelinhas dos meus roteiros) e quem sabe um dia receber uma critica sua, caro Jose! Aqui nesse blog fantastico. Vou esperar por esse filme e 'e claro pelos proximos de Sokurov. Abrs
    Walfried Weissmann

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  4. Meu querido José Orlando suas palavras sempre serenas, carregadas de conhecimento e astucia me fazem faltam, mas logo me recupero desse sentimento de saudade quando me vejo surpreendido por esse texto incrível falando a respeito de uma relação entre os opostos, como você mesmo disse no inicio do texto, é um cenário de rotina abrutalhada de poucos sorrisos, pouco sentimento e poucas palavras convivendo com uma figura, que em minha opinião na sua maioria, emana ternura e afeto. E essa sensação fica mais forte quando nos deparamos com toda alma do filme resumida em sua capa e enxergamos essa oposição apenas em uma imagem. Estou no mínimo ansioso para assistir o filme e conferir de isso tudo de perto. Forte abraço.

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  5. José Orlando, que maravilha de blog, meu amigo. Quando falaram do seu blog Semióticas achei que fosse mais um daqueles blogs de rascunho, apressados e que repetem o que se vê nos jornais do Rio e de São Paulo e na TV. Mas nada disso. Seu blog é uma revista eletrônica da melhor qualidade, com assuntos sofisticados, personagens surpreendentes, seus textos maravilhosos e edição inteligente.
    Aliás, seu blog é surpreendente. Comecei por esta página sobre o filme do Sokurov (Soukurov?) e não parei mais. Vou ter que voltar muitas outras vezes. Que maravilha...
    Dizem que a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios e que por isso quem é vivo deve cantar, chorar, dançar, amar e sorrir intensamente antes que a cortina se feche. No seu caso, não sei o que dizer, pois a peça de teatro é só sucesso: jornalista brilhante, professor amado por todos os alunos, amigo de caráter invejável...
    Deus te abençoe, meu caro.
    Vida longa e prosperidade, é o que posso desejar.
    E obrigado por proporcionar tanto conhecimento e por ter a gentileza de compartilhar. Parabéns!

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  6. As páginas de seu blog são um espetáculo, José Orlando, especialmente as que tocam em cinema, como esta sobre o filme do Sokurov. Quero ler outros textos seus sobre cinema. Como faço? Tem outros em outro blog? Manda aqui alguma página. Quem sabe Glauber e o cinema novo no Brasil? Ou a Nouvelle Vague de Godard e Truffaut? Ou os italianos, Fellinni, Rossellini, Bertolucci... Aguardo para ler e mando parabéns pra você, porque seu trabalho está incrível. Virei fã. Grande abraço!

    Fernando Silveira

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  7. João Paulo Fortes29 de agosto de 2013 20:36

    Cheguei agora por essa matéria sobre Sokurov e viajei. Com estas imagens lindas e seu texto conduzindo o pensamento, entendo perfeitamente tantos elogios. Parabéns demais, meu querido autor do blog Semióticas. Seu trabalho é sensacional. Eu também virei fã.

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  8. José Alexandre de Moraes4 de novembro de 2014 08:46

    Parabéns por esta e por todas as outras belíssimas matérias que encontrei por aqui. Show!

    José Alexandre de Moraes

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