Há um conto de Cortázar, publicado em “Valise de Cronópio”, editado em 1993 pela Perspectiva, em que o narrador está em um concerto de Pops em Paris, em 1952. Tudo é normalidade e expectativas, mas quando o artista surge no palco, o fabuloso se instala, multiplicado em risos, pausas, canções, gestos mirabolantes.
A história de Pops é a história do blues e do jazz desde o começo do século 20. Nascido no primeiro ano do século, em Nova Orleans, ele é um daqueles artistas que superaram a infância miserável e uma condenação penal como menor infrator para ganhar o mundo como incontestável e incontestado porta-bandeira do gênero que ajudou a criar e do qual permanece como maior protagonista.
Pops, o apelido, veio dos amigos. Para os fãs, ele era Satchmo (em inglês, forma reduzida de “satchelmouth”, boca de saco), por conta de sua expressão facial nos solos prolongados de voz e trompete. Quatro décadas depois de sua morte, o trompetista, cantor, compositor, ator e chefe de orquestra Louis Armstrong (1901-1971) encontrou no jornalista Terry Teachout um biógrafo que não se opõe à mitologia criada em torno do artista. Tampouco a repete.
Em “Pops: A Vida de Louis Armstrong”, lançamento Larousse do Brasil, o biógrafo vai além do lugar-comum. Repórter de cultura do “Wall Street Journal” antes de seu livro virar best-seller internacional, Teachout é conhecido do público de jazz como produtor e autor dos textos de encartes de CDs recentes de nomes de prestígio como Karrin Allyson, Diana Krall e a brasileira Luciana Souza, entre outros. Em 2009, Teachout recebeu prêmios e seu livro "Pops" entrou nas listas de melhores do ano do “Washington Post”, “The New York Times” e “The Economist”.
“Louis Armstrong era um homem muito consciente da importância que tinha na história da arte americana”, registra Teachout, que não poupa o leitor de revelações surpreendentes, além de enumerar dos primeiros tempos do artista tocando corneta e trompete à trajetória do sucesso, destacando o poder de Louis como protagonista maior do jazz clássico.
Munido de um arsenal de entrevistas, publicações de época, fotos inéditas e registros audiovisuais, o biógrafo reconstitui o entorno no qual a presença calorosa do mito, seu “swing”, sua voz grave e rouca, suas improvisações geniais confrontavam a tradicional submissão do negro na cena cultural e política dos Estados Unidos – e do mundo inteiro, por extensão.
Em “Pops”, Louis surge introspectivo, contraditório, quase sempre muito amável. Durante mais de meio século inventou canções que se tornariam standards, tocou inúmeros solos com inúmeras bandas, fez parcerias antológicas com outros gigantes do jazz como Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Duke Ellington, participou de filmes, programas de rádio e TV e enfrentou críticas de ativistas negros por não militar no movimento dos direitos civis. “Ele trabalhou muito e morreu feliz, dormindo em casa, em Nova York”, destaca Teachout.
Fruto da miséria social, mas também de um fervilhante caldeirão musical, a saga do genial Louis Armstrong se espraia em detalhes minuciosos em “Pops”, biografia assinada por Terry Teachout. Infância miserável, adolescência difícil como cantor de rua, depois trompetista de cabaré. Com o fechamento do “bairro de tolerância” Storyville, em 1917, Louis fica sem emprego e segue à deriva para Chicago com outros negros adeptos da novidade do jazz. Acaba fazendo história.
Lançado por King Oliver em 1922, Louis foi contratado por Fletcher Henderson em 1924. Em 1925 funda seu próprio conjunto, o Hot Five, passa a gravar discos e, a partir daí, sua fama não parou de crescer. Na biografia, Teachout destaca que Louis Armstrong cresceu e chegou à juventude ao mesmo tempo em que o jazz começava a ganhar forma.
“Armstrong não inventou o jazz, não foi sua primeira figura importante, e não é correto afirmar que foi o primeiro grande solista do gênero”, decreta no prólogo o autor, sem ignorar que Louis foi o mais popular e influente dos primeiros solistas de jazz. As inovações rítmicas e melódicas, a voz granulada e repleta de modulações, assim como o expressivo sorriso e o impagável senso de humor também têm destaque no livro.
Teachout lembra que, no auge da forma, em 1950, as performances de Louis tomam a forma do virtuosismo dos músicos eruditos, mas transformadas por largos vibratos de complexas passagens de conjunto, mudanças súbitas de tempo, alterações harmônicas inesperadas, um senso de ritmo irresistível.
Os dotes literários do músico também são destacados: na sala de casa ou nos camarins, ele batucou em sua máquina de escrever dois livros de memórias, vários manuscritos biográficos, artigos para revistas e jornais e extensas cartas, além de 650 fitas com seus próprios depoimentos — gravações a que Teachout teve acesso e usadas pela primeira vez por um biógrafo.
“Pops” também revela casos hilariantes e outros dramáticos – quiproquós decorrentes do apreço de Louis por marijuana, os impedimentos do preconceito racial, empresários metidos com a máfia negociando seus contratos, represálias de gângsteres, embates públicos com jazzistas como Dizzie Gillespie e Miles Davis e com autoridades como o então presidente dos EUA Dwight Eisenhower, num caso que marcou época e mostrou um Louis Armstrong corajoso, libertário e consciente de seus direitos.
Teachout investiga os motivos de cada atitude arriscada de Louis – que fez da música sua tábua de salvação, capaz de tirá-lo da sarjeta onde nasceu, em Nova Orleans, e fazer dele uma celebridade mundial que na última década de vida bateu todos os recordes de vendagem de discos e viajou pelos cinco continentes em shows que arrastavam multidões e eram celebrados pelos críticos mais renitentes.
Teachout investiga os motivos de cada atitude arriscada de Louis – que fez da música sua tábua de salvação, capaz de tirá-lo da sarjeta onde nasceu, em Nova Orleans, e fazer dele uma celebridade mundial que na última década de vida bateu todos os recordes de vendagem de discos e viajou pelos cinco continentes em shows que arrastavam multidões e eram celebrados pelos críticos mais renitentes.
Armstrong preferiu a arte à política
Diversas biografias de Louis Armstrong já foram escritas, motivo pelo qual o esforço de Teachout correria o risco de redundância. Correria, não fosse o pulo do gato: jornalista dos bons e músico treinado, pesquisou e cita uma centena de livros e entrevistas. Diz que ouviu e ouviu de novo todas as 650 fitas gravadas pelo próprio Louis, nas quais ele se revela por inteiro.
“Louis gravou todas estas fitas justamente para salvar para a posteridade tudo o que podia de si”, destaca o biógrafo, que fez uma decupagem inspirada da enorme quantidade de material que dispunha para escrever o que seria recebido como um dos melhores livros de 2009.
Teachout consegue colocar o leitor no cotidiano de Louis – percebendo e comentando, de forma sutil, por que o músico negro, embora tenha levantado a voz para o presidente Eisenhower pelo descaso em implementar medidas antirracistas, preferiu sempre a expressão artística à expressão na política.
“Sua maneira de cantar era uma extensão da maneira de tocar: o fraseado é o mesmo e semelhantes são o balanço e o sentido de tempo”, conclui Teachout. O final de “Pops” é poético, feliz, com o autor recordando sua própria emoção com a notícia da morte do artista. Faz lembrar o final de “Louis, Enormíssimo Cronópio”, o conto de Cortázar, quando o narrador na plateia em Paris percebe que o concerto acabou mas a sala continua cheia – com todos perdidos no seu sonho.
Palavras de Cortázar: “Montões de cronópios que procuram lentamente e sem vontade a saída, cada um com seu sonho que continua, e no centro do sonho de cada um Louis pequenininho soprando e cantando”. Louis morreu no dia 6 de julho de 1971, em Nova York.
por José Antônio Orlando









rapaz, fiquei emocionado com seu blog. não sabia nada disso sobre o Armstrong, apesar de gostar muito dele há muito tempo. obrigado por proporcionar estas fortes emoções. seu blog agora lidera os meus favoritos. vá em frente que está bom demais!
ResponderExcluirMeu caro anônimo. Fico feliz com tanta gentileza. Envie mensagem para o semioticas@hotmail.com. Um grande abraço para ti!
ResponderExcluirZé, Adorei esse texto. Lindo!! Por coincidência, eu e Flávio falávamos agora a pouco de Louis Armstrong, Miles Davis e charlie Parker... Assistíamos um vídeo de jazz... Lindo!!!
ResponderExcluirAmei cada palavra, cada imagem!
ResponderExcluirParabéns, José. Seu blog, ou melhor, sua revista eletrônica chamada Semióticas tem mais qualidade e diversidade de assuntos que a maioria dos cadernos de cultura dos principais jornais... Fala sério, meu caro. Tudo nota 10, professor! Parabéns e vida longa que o seu trabalho só merece aplausos. Abraço cronópio.
ResponderExcluirPerfeito.
ResponderExcluirAmo o Louis Armstrong e agora também amo o seu blog Semióticas, José Orlando. Há muito tempo eu não encontrava uma coleção de textos assim tão fantástica junto com fotos tão lindas. Repito todos os elogios que estou lendo aqui nestes comentários de leitores. Seu blog é um encanto pela inteligência e traz para a gente os melhores sentimentos e muita inspiração.
ResponderExcluirParabéns pra você, meu querido!
Alice Nogueira
Adorei todas as fotos! Belas palavras José Orlando. Louis foi um dos primeiros solistas negros a romper a barreira entre o mercado exclusivamente negro e o branco e a se tornar uma estrela do show business nos USA. Apesar de tudo o que passou ao longo da carreira e da sofrida infância, ele sempre se mostrou muito espirituoso, alegre e divertido, qualidades que contribuíram para seu sucesso. Um gênio brincalhão, um ídolo.
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