sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Banalidade da corrupção












Mais conhecido como fotógrafo de moda e publicidade – além de ser sempre lembrado por seus antológicos retratos das beldades da hora, há décadas, na revista "Playboy" – Bob Wolfenson sempre surpreende com investigações sobre novas possibilidades da imagem. Seu trabalho mais recente reúne um acervo de 20 fotografias que impressionam, tão belas quanto incômodas. No livro "Apreensões" (editora Cosac Naify) o fotógrafo paulistano reúne novos ângulos de enquadramento para realidades tristíssimas e muito comuns aos olhos dos brasileiros.

Os novos "modelos" de Wolfenson: animais e objetos confiscados pela polícia. Amontoados de metralhadoras e arsenais de munições do Rio de Janeiro e de São Paulo, gaiolas em quantidade e pássaros silvestres engaiolados, peles de onças e de répteis gigantescos do interior do Mato Grosso, macacos de espécies em extinção em jaulas minúsculas, centenas de máquinas caça-níqueis em um galpão de Belo Horizonte, serras elétricas e profusões de telefones celulares e aparelhos eletrônicos contrabandeados figuram nas fotografias que misturam denúncia e arte. 

São imagens que lembram as naturezas-mortas da composição secular dos grandes mestres das artes plásticas. Imagens contundentes, nas quais o fotógrafo paulistano, que nasceu em 1954 e começou na carreira aos 16 anos na Editora Abril, deixa claro um fundamento central na arte de capturar imagens. Um fundamento que fez seu trabalho ser reconhecido internacionalmente, aclamado como um retratista de raro talento.




Banalidade da corrupção: no alto,
o fotógrafo Bob Wolfenson no
lançamento do livro Apreensões em
São Paulo. Acima e na sequência
abaixo, fotografias do acervo reunido
no livro publicado pela Cosac Naify

 









 



Como lembra o deputado e publicitário Carlos Nader, na apresentação ao livro, ao fotografar objetos e animais apreendidos pela polícia, Wolfenson escancara um fundamento central da arte de capturar imagens. "Ele nos lembra que a própria fotografia é, em sua essência, também uma apreensão, uma captura. E quando nos coloca como espectadores, diante de uma dessas apreensões duplicadas, abre um estimulante jogo metalinguístico de reflexos. Apreendemos aquilo que ele apreendeu do que foi apreendido. Apreendemos exponencialmente", destaca Carlos Nader.

Nas palavras do próprio fotógrafo, o universo envolvido nessas imagens diz respeito a todos nós. "Mas elas não pretendem dar respostas, a não ser dividir uma certa apreensão", alerta Bob Wolfenson, em breve entrevista pelo telefone. O caminho percorrido para realizar essa espécie de inventário de uma certa tragédia brasileira foi longo e de difícil acesso – explica o fotógrafo, revelando que a ideia do trabalho surgiu em decorrência da infinidade e da frequência das apreensões policiais exibidas na imprensa.











Interdições de toda ordem

 
"Seria impossível ficar indiferente à presença acachapante desses fatos na vida de todos nós. No entanto, essas notícias acabam por se naturalizar, ficam banais, repetidas, e não nos chocam mais. O paradoxo do excesso de informação é exatamente este: quanto mais vemos, menos enxergamos. Tornamo-nos cegos de tanto vê-las", destaca.

Aula e demonstração de domínio técnico e composição para fotógrafos e profissionais das artes gráficas, as 48 páginas coloridas em papel duplo de "Apreensões", para além da aspereza do assunto, ainda reservam foco para aquilo que o pensador francês Roland Barthes classificou como "Punctum" – aquele emaranhado de impressões fortes, instantâneas e imprecisas que apenas as boas fotografias conseguem guardar e reproduzir. 











As dificuldades definiram a forma de cada uma das imagens, explica Bob Wolfenson. "Tarefa paralela foi negociar com as autoridades. No caminho deparei com juízes, policiais, fiscais e secretários de Estado que se mostraram muito colaborativos. Obviamente encontrei também interdições de toda ordem, justificáveis em face da gravidade do assunto. Lidar com os meandros desses salvos-condutos para chegar aos materiais apreendidos, na tentativa de que as imagens fossem vistas não como prova de algo, nem muito menos como denúncias veladas à inoperância ou elogios à eficácia do Estado, tudo isso foi outra aventura”.

Reconhecido como um dos principais fotógrafos em atividade no Brasil, Wolfenson também confessa seu aprendizado durante a produção e captura das imagens reunidas no livro “Apreensões”. “Durante o processo tive várias surpresas: a grande diversidade de formato das ampliações, por exemplo, não estava inicialmente prevista, mas acabou sendo constituinte do trabalho, além de pessoas e situações verdadeiramente incomuns. Ao ressignificar as apreensões através de fotografias de materiais apreendidos e ampliá-las em formatos e tamanhos pouco usuais para este assunto, acredito iluminar os aspectos mais obscuros e menos visíveis destes eventos", completa, com sabedoria. 






Corrupção não é exclusividade do Brasil



A corrupção não é exclusivamente um fenômeno brasileiro, aponta Céli Regina Jardim Pinto, autora do livro “A Banalidade da Corrupção – Uma forma de governar o Brasil”. Publicado pela Editora UFMG, o livro aborda a complexidade de alguns gargalos da história recente que têm criado um território vasto para a emergência de atos ilícitos na vida pública e em significativas parcelas da elite brasileira.

Doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Céli Pinto aponta algumas das condições que propiciam a corrupção no Brasil e porque, em determinados contextos, a corrupção se tornou quase uma das formas de governar. “A corrupção é um fenômeno complexo, que existe em todas as sociedades: capitalistas, desenvolvidas, subdesenvolvidas, socialistas, democráticas, autoritárias, totalitárias. Portanto, a primeira observação importante que deve ser feita é que o problema da corrupção não é uma exclusividade da política brasileira”, alerta.

Confira, a seguir, alguns trechos da entrevista que fiz por telefone com Céli Pinto e que foi publicada por um jornal de Belo Horizonte.

Existe no Brasil uma cultura da corrupção?

Céli Pinto A corrupção manifesta-se com formas e intensidade diferentes em cada sociedade. No caso do Brasil, vejo como uma das características centrais da corrupção a desvalorização da cidadania. Este foi um país em que as elites dominantes por longos períodos da história não precisaram construir o sentido de cidadania, não precisaram de um sentido de igualdade cidadã para governar. Daí que se criou no país uma cultura anti-cidadã, ou seja, uma busca pela diferença que permita a todos que têm algum tipo de poder (e não precisa ser muito) ter privilégios especiais e, o que é mais definidor, não cumprir a lei. Digo no livro que este é um objeto de desejo no país, não cumprir a lei, não ser pego e se achar importante por isto. Na minha opinião, esta é a questão central e a mais complicada de ser superada.










O que mais agrava a corrupção? A disputa de poder entre os partidos, os poderes político e econômico concentrados, as profundas desigualdades sociais ou a pouca ou nenhuma noção de direitos pela maioria da população brasileira?

Há dois tipos de corrupção. Primeiro, tem aquela que acontece dentro do Estado, e tem também aquela que acontece entre o setor privado da economia e o Estado. A primeira tem sempre lugar na mídia. Já a segunda, certamente a que envolve as maiores somas de recursos e grandes negócios, não tem, para a mídia, o charme da primeira. Em qualquer um destes tipos de corrupção a grande maioria da população brasileira fica de fora.

Mas em qualquer um dos casos, não é a forma como se faz política no Brasil que tem grande responsabilidade na promoção de atos de corrupção?

Sem dúvida nenhuma. As eleições são caríssimas e precisam ser financiadas com recursos privados ou com desvio de recursos públicos. Por outro lado, o capitalismo no Brasil teve um grande arranque durante o regime militar, quando se formaram grandes grupos econômicos que passaram a monopolizar importantes áreas da economia brasileira. Muitos destes grupos são atores influentes na economia, ainda hoje, e agem dentro de uma lógica muito longe do que se poderia chamar de lógica democrática.









Tem sido um lugar comum o comentário de certos analistas da política apontando que o Brasil nunca foi tão corrupto quanto é hoje. A senhora considera que isto é um fato ou aumentaram as instâncias de investigação?

É muito difícil afirmar com alguma segurança se a corrupção é maior hoje do que foi em governos anteriores. Houve muita corrupção durante o governo militar, por exemplo, mas naquela época era proibido denunciar ou admitir que ela existisse. E a imprensa não podia e nem queria, na maioria das vezes, denunciar. Atualmente, a Polícia Federal, o Ministério Público, entre outras instâncias, têm se comportado como agentes do Estado e não do governo de ocasião e isto tem sido fundamental e muito positivo.

Há quem avalie que há também a intenção explícita de denunciar o malfeito através de setores majoritários da imprensa...

A imprensa quando investiga está fazendo seu papel. Mas quando a imprensa parte para o denuncismo irresponsável e espetaculariza denúncias, sem fundamento, está fazendo um triste papel.




Detalhes das ilustrações das duas capas:
Apreensões, livro de Bob Wolfenson
publicado pela Editora Cosac Naify, 
e A Banalidade da Corrupção, de
Céli Regina Jardim Pinto. Abaixo, a
pesquisadora Céli Pinto e outras
imagens da exposição realizada
por Bob Wolfenson com as
fotografias publicadas em
seu livro Apreensões




No livro “A Banalidade da Corrupção”, a senhora compara a corrupção nos vários níveis de governo (federal, estadual e municipal) com o tráfico de drogas, na medida em que não se pode avaliar o montante do tráfico, pois só temos conhecimento das negociatas que falharam. No entanto, o número de casos descobertos, investigados, julgados e condenados não deveria extirpar o quase “direito a ser corrupto”?

Acho que não... Não acredito que a corrupção acabará no Brasil colocando todos os corruptos na cadeia. Isto é uma ilusão. É como dizer que não sabemos votar, que se escolhermos pessoas de bem para os cargos de governo não haverá corrupção. Não existe nada de genético na corrupção. O corrupto não nasce corrupto, ele se torna corrupto. Portanto, temos de acabar com as condições de emergência da corrupção. Evidentemente que o efeito demonstração é fundamental. Quanto maior for o número de condenados pela corrupção, quanto menos impunidade houver, maior será a possibilidade da corrupção diminuir.


Há uma luz no fim do túnel para enfrentar o problema da corrupção no Brasil?

Certamente há luz no fim do túnel, sou muito otimista em relação ao Brasil. O país já tem uma formidável história de regime democrático de mais de 20 anos. Temos de aprimorar a democracia, mais do que aprimorar diria radicalizar a democracia. Estamos diminuindo as desigualdades sociais, temos que paralelamente diminuir a desigualdade de poder que há nesta sociedade. Quanto mais cidadãs e cidadãos participarem da política em todos os níveis, quanto mais abrangentes forem os temas discutidos publicamente, quanto mais a agenda pública for decidida a partir de discussões também públicas, quanto mais os partidos políticos deixarem de ser dirigidos por oligarquias, quanto mais democrática for a sociedade no sentido profundo da democratização da tomada de decisão, menos poderes terão as elites que dominam o país.


Mas conseguir isto no Brasil não parece ser uma tarefa fácil...

Não é uma tarefa fácil, mas é possível e pode se realizar mais rapidamente do que o atual quadro deixa transparecer. E me parece que este é o único caminho para enfrentar seriamente o problema da corrupção no Brasil, sem espetacularização, sem indignados de tarde de domingo.


por José Antônio Orlando.



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7 comentários:

  1. Evidentemente que corrupção não é exclusividade brasileira. Talvez o agravante à brasileira, no trato do fenômeno corrupção, seja a participação dos meios de comunicação de massa nos eventos que envolvem essa prática nojosa, sobretudo na Administração Pública. O "showrnalismo" dificulta o amadurecimento democrático do nosso país. Lamentavelmente, as coberturas jornalísticas dos fatos de corrupção se empenham em, de um lado, demonizar os políticos, e, de outro lado, acobertar os corruptores. Mais do que a malversação de dinheiro público, o grande problema do Brasil são os vícios dos impérios de comunicação que se formaram - e que ainda se sustentam - graças a muita corrupção. Enquanto não se democratizar a comunicação neste país, a corrupção permanecerá impune, porque as promiscuidades dos círculos de poder e as pressões dos grandes interesses econômicos permanecerão inatacados.

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  2. Cada um de nós vive a sua vida apenas uma vez, se formos honestos, viver uma vez é suficiente. E todos nós sabemos o que é uma ação desonesta, mas o que é a honestidade, isso, cada dia mais poucos sabem.
    Por isso iniciativas como esse seu blog Semióticas, José, são de uma importância fundamental para reforçar valores e lembrar o que é o jornalismo de qualidade, atual, verdadeiro e acima de tudo HONESTO.
    Vendo suas páginas e suas entrevistas aqui postadas e vendo a maioria das páginas dos jornais de BH, dá para ter vergonha. Será que seus colegas de profissão que cada vez mais copiam releases e matérias de agências também ficam envergonhados? Deveriam.
    Parabéns, meu querido.
    Que Deus conserve e aumente este raro talento e o bom-senso que tenho encontrado neste seu blog. E parabéns pelo prêmio como melhor blog de 2011 em Minas Gerais. Mais do que merecido!

    Juliana Damasceno

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  3. Silvana de Almeida29 de janeiro de 2012 10:13

    Fotos maravilhosas, entrevistas inteligentes e textos impecáveis, como sempre. Parabéns de novo, José. O prêmio como melhor blog de 2011 é mais que merecido. Seu Semióticas é show!
    Silvana de Almeida

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  4. Nem a aspereza do assunto reduz a beleza das páginas do seu blog e o brilho de suas entrevistas, José Orlando. Tudo de primeira, jornalismo sério e da maior competência. Quando vai sair um livro com as melhores páginas deste Semióticas. Pelo que vejo, você já tem material para mais de um. Aguardo o lançamento. Grande abraço para você e tenho a honra de ter sido seu aluno. Saudades, mestre...

    Paulo Pires

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  5. Pelo nome do blog, pensei que fosse uma coisa e é outra muito diferente. Pensei que fosse coisa de teorias complicadas, mas é jornalismo e literaturada melhor qualidade, sem nenhum complicador para leigos como eu sou. Adorei a descoberta. Parabéns!
    Neusa Camargos

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  6. Bela matéria e grande entrevista sobre um tema tão áspero. Parabéns pelo blog. É sensacional em cada detalhe e em todas as matérias. Também estou te seguindo no Facebook e no Twitter. Ganhou outro fã de carteirinha.

    PJ Paulo Messias

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  7. Gostei muito. Você conseguiu chegar à raiz do problema da corrupção nesta abordagem. Fotografias sensacionais e a entrevista acho que é a melhor que já vi sobre o tema. Parabéns pela clareza de ideias e pelo blog todo que é sensacional.

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