segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Cândido Aragonez de Faria e o Cinema










Um brasileiro é o grande destaque na exposição de inauguração da primeira fundação dedicada aos primórdios do cinema. A Fundação Jerôme Seydoux-Pathé, aberta ao público a partir desta semana em Paris, França, traz um nome brasileiro como artista principal em meio a um dos mais importantes acervos mundiais de filmes desde a invenção do cinema, no final do século 19, incluindo câmeras, fotografias, cartazes, maquetes e milhares de documentos sobre a história da indústria cinematográfica.

O brasileiro em destaque é Cândido Aragonez de Faria (1849-1911), nascido em Sergipe e considerado internacionalmente como um dos mais representativos artistas da charge e dos cartazes dos primeiros tempos do cinema. Na exposição inaugural da Fundação Jerôme Seydoux-Pathé – que está sendo chamada pela imprensa internacional de “templo dos filmes mudos” – Cândido Aragonez de Faria é o nome em primeiro plano, com as centenas de belíssimas ilustrações e cartazes que ele criou para filmes produzidos no final do século 19 e começo do século 20.

O artista sergipano, que a exposição em Paris apresenta como “referência fundamental do Primeiro Cinema”, deixou sua cidade-natal, Laranjeira, e seguiu com a família em meados do século 19 para o Rio de Janeiro, onde estudou na Academia Imperial de Belas Artes. Em 1882, decidiu tentar a sorte na França e, em Paris, tornou-se o principal ilustrador da Pathé, na época em que a exibição dos filmes passava das feiras populares e circos para os primeiros prédios de teatros dedicados exclusivamente às sessões de cinema.








O brasileiro Cândido Aragonez de Faria
e o Cinema: no alto, saguão de entrada da
exposição que abre ao público a Fundação
Jerôme Seydoux-Pathé em Paris. Acima,
retrato do artista, datado de 1890, e dois
pôsteres de divulgação da exposição.
Abaixo, cartazes de lançamento criados
por Cândido Aragonez de Faria para
Les victimes de l'alcool, de 1902, e
Les Apaches de Paris, de 1905, filmes

de Ferdinand Zecca, diretor dos primeiros
grandes sucessos do cinema da Pathé;
seguidos por La poue aux oeufs d'or
(A galinha dos ovos de ouro), filme de
1906 de Gaston Velle; e uma
pequena amostra das centenas de
cartazes publicitários em litografia
e policromia que o artista brasileiro
produziu, da última década do século
19 até 1911, sob encomenda da Pathé











A maior parte das ilustrações e cartazes criados por Cândido Aragonez de Faria, agora apresentados na exposição que inaugura a Fundação Jerôme Seydoux-Pathé, foi produzida de forma artesanal, em litografias sobre pedra e em surpreendentes nuances de policromia. Dos últimos anos do século 19 até o ano de sua morte, em 1911, o artista sergipano foi o principal artista plástico ligado ao cinema e o principal ilustrador contratado pela Pathé – considerada a mais importante empresa cinematográfica do mundo, com produção de mais de 10 mil filmes de 1896 aos dias de hoje.

A Pathé, mais antigas das empresas de produção de filmes e equipamentos de cinema ainda em atividade, com todo o seu acervo de mais de 120 anos, foram comprados na década de 1990 pela família Seydoux. O acervo foi transformado na fundação que, a partir desta semana, estará aberta à visitação, com direito a uma sala de cinema para projeção de filmes mudos e acompanhamento permanente, ao vivo, de um pianista, da mesma forma como aconteciam as projeções nas primeiras décadas do século 20.



Um artista na trajetória da imprensa



Pouco conhecido no Brasil, Cândido Aragonez de Faria foi também um nome fundamental para a trajetória da imprensa – no Brasil, na Argentina e na França. Antes de seguir para Paris, Cândido e o irmão, Adolfo (que também seguiria para Paris, trilhando uma carreira bem-sucedida com um estúdio de fotografia), investiram em um ousado empreendimento jornalístico: no Rio de Janeiro, fundaram uma revista de caricatura e sátira que marcou época na década de 1870 – “O Mosquito”. Em 1878, Cândido deixa “O Mosquito” aos cuidados do irmão e vai para Porto Alegre, onde também funda outros dois importantes jornais ilustrados: “Diabrete” e “Fígaro”.









 



Nos três empreendimentos, Cândido Aragonez de Faria conquistou sucesso de público, mas também muitas dívidas e muitos desafetos políticos. Por conta das dívidas e dos desafetos, depois de um ano no Rio Grande do Sul, Cândido vai para a Argentina e, em Buenos Aires, trabalha como ilustrador e técnico de artes gráficas em vários jornais e revistas.

Em 1882, aos 33 anos, ele toma uma decisão radical: deixar Buenos Aires para tentar a sorte na Europa, fixando residência na França e abrindo seu próprio estúdio de mestre de ofício em Paris – o Ateliê Faria, que conseguiu enfrentar e superar a forte concorrência de outros artistas e seus tradicionais estúdios de produção, entre eles, alguns dos grandes pioneiros da Arte Moderna como Henri de Toulouse-Lautrec (1864–1901), mestre da pintura, da litografia e das técnicas mais avançadas para o design gráfico dos cartazes publicitários.










Das artes gráficas ao Cinema



Com seu ateliê em Paris, Cândido Aragonez de Faria passou a conquistar uma clientela fiel e, gradativamente, estabelece seu prestígio com a prestação de serviços em desenho, ilustrações e artes gráficas. Sua clientela em Paris vai incluir charges e caricaturas sob encomenda para jornais e revistas, ilustrações para livros, impressão de partituras e de programas para óperas, concertos e peças de teatro, criação e impressão de cartazes publicitários em geral e, finalmente, ilustrações e cartazes surpreendentes para os espetáculos de cinema dos irmãos Auguste e Louis Lumière.

Menos de um ano depois da invenção do Cinematógrafo e das primeiras projeções dos filmes pelos irmãos Lumière, em 1895, nos cafés parisienses, começaram a surgir em Paris e em outras grandes cidades de vários países os concorrentes que arriscavam-se no promissor negócio da produção e exibição de filmes. Entre a clientela de Cândido Aragonez de Faria, nesta época, também estavam os vários artistas que trocaram os palcos de teatro e de shows de variedades pela novidade do Cinematógrafo, como Georges Méliès (1861-1938), e empresários como os irmãos Pathé – Charles, Émile, Theóphile e Jacques.











Admirador do trabalho em artes gráficas do brasileiro, Charles Pathé passa a ser um dos mais assíduos clientes do Atelier Faria. Para não perder o artista para a concorrência que proliferava, o empresário decide então oferecer um contrato de exclusividade para que o atelier do brasileiro passe a atender apenas às encomendas de ilustrações e impressão para os investimentos de sua companhia, a Société Pathé Frères, que concentrava todos os esforços e recursos financeiros na produção e exibição dos espetáculos de cinema. 
 
A partir de 1902, quando a Pathé se torna a principal indústria de produção cinematográfica da Europa, assim como a maior produtora fonográfica do mundo, Cândido Aragonez de Faria é contratado com exclusividade por Charles Pathé para criar todos os cartazes, folhetos e material publicitário que acompanhariam os filmes e equipamentos produzidos pela companhia. É este acervo criado pelo artista brasileiro, com centenas de belas ilustrações e cartazes adotados como modelo para a divulgação dos filmes no mundo inteiro, que está atualmente em destaque em Paris na exposição de inauguração da Fundação Jerôme Seydoux-Pathé.



por José Antônio Orlando


Para visitar a exposição da Fundação Jerôme Seydoux-Pathé, clique aqui.


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Acima, cartazes originais criados por
Cândido Aragonez de Faria e o
prédio em Paris da Fundação Jérôme
Seydoux-Pathé, restaurado com projeto
na fachada e interiores por Renzo Piano
 

8 comentários:

  1. Que maravilha, professor! Eu não conhecia este pioneiro do cinema e da imprensa, fiquei encantado em descobrir agora, pelo seu site fantástico. Enviei agora para seu email um convite para que você apresente uma palestra sobre uma breve história do cinema nacional, desde os pioneiros do cinema mudo até a década de 1990, passando pelos ciclos regionais, a chanchada, o cinema novo, o cinema marginal e o cinema feito nos anos 1980. Tomara que o convite seja aceito. Saudades daquele espetáculo que sempre são suas aulas. Parabéns demais por este ensaio brilhante sobre o Cândido Aragonez de Faria. Sensacional!
    Eduardo Moreira

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  2. Um espetáculo este Site Semióticas e mais ainda esta matéria sobre este pioneiro do cinema que eu também não conhecia. Texto perfeito e imagens muito lindas. Virei seu fã e do site já na primeira visita, professor. Agradeço muito por compartilhar sabedoria. Parabéns!!! José Luiz Granato

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  3. Carla Maria Saldanha25 de setembro de 2014 09:16

    Seu blog é sensacional e este estudo sobre o pioneiro do cinema homenageado em Paris é maravilhoso. Parabéns pelo alto nível e pela sabedoria compartilhada.

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  4. Um artigo maravilhoso, professor, e imagens para copiar e arquivar, de tão lindas. Não conhecia este Cândido Aragonez. Agradeço muito, de novo, por este seu site Semióticas, que é sensacional. Amo.

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  5. Marco Antônio de Souza Faria21 de outubro de 2014 09:38

    Eu nunca tinha ouvido falar deste meu parente chamado Cândido Aragonez de Faria, mas adorei a descoberta. Semióticas é show! Parabéns pelo alto nível!!! Marco Antônio de Souza Faria

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  6. Estou impressionado com este Semióticas desde a primeira visita e toda vez que retorno a surpresa é ainda maior. Eu adoro todos os assuntos que encontro por aqui e sempre aprendo muito, tudo como muita beleza de textos e imagens. Faço 53 anos no dia 18 de dezembro e navego pela internet há mais de uma década, mas confesso que não vi ainda nada parecido com este seu blog, professor José Antônio Orlando. Vi que há muitos comentários de elogios, mas não resisti e vou registrar mais um: tenho uma felicidade imensa por ter chegado até aqui e agradeço muito. Parabéns por tanta beleza e inteligência compartilhada.

    Marcelo Santos

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  7. Parabéns pelo belo trabalho. Cheguei aqui por acaso e adorei conhecer o Cândido Aragonez de Faria. Agradeço, feliz. James Alcantara

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  8. Estou encantada com a história de Cândido Aragonez de Faria, e mais encantada ainda com a qualidade e resultado final das ilustrações e dos cartazes publicitários criados por ele. Estou observando, com toda calma do mundo, todos os detalhes destas imagens surpreendentes, criadas de forma artesanal. As nuances de cores são realmente incríveis.
    Este blog Semióticas é o paraíso dos melhores textos e das mais lindas imagens. E, claro,da sua competência de sempre, querido José Antônio Orlando. Beijo
    Edi Lopes

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