domingo, 22 de dezembro de 2013

Robert Capa em cores







Nenhum outro fotógrafo construiu uma trajetória mais célebre viajando ao redor do mundo para acompanhar a Segunda Guerra Mundial e outras guerras. Coube ao húngaro Endre Erno Friedmann, mais conhecido pelo pseudônimo Robert Capa, conferir à profissão de fotojornalista uma aura de ideal romântico e sedutor. Antes dele, outros registraram as tropas de soldados momentos antes ou momentos depois das batalhas, mas ele foi o primeiro a registrar o que acontecia durante as batalhas. Também é mérito de Capa, junto com Henri Cartier-Bresson e David “Chim” Seymour, a iniciativa pioneira de criar a Agência Magnum, em 1947, que revolucionou o mercado internacional de direitos autorais na fotografia.

Nascido há 100 anos, em 1913, o mais famoso dos fotojornalistas do século 20 voltará à cena em 2014 em uma exposição de suas fotos coloridas, que permaneciam inéditas, e em duas superproduções de cinema sobre suas aventuras extraordinárias dentro e fora das trincheiras de guerra. Mesmo depois de décadas de sua morte trágica e de suas muitas biografias, Capa, que também colecionou inimigos e polêmicas, ainda guarda muitos segredos.

A queda pela aventura começou ainda na adolescência, quando Endre Erno Friedmann deixou sua terra natal e sua família de judeus na Hungria e fugiu para a Alemanha. Com a chegada de Hitler e dos nazistas ao poder, em 1933, fugiu novamente – desta vez para Paris, onde adotou o pseudônimo americanizado para escapar do antissemitismo, mas com um detalhe prosaico: “Capa”, que era seu apelido desde a adolescência, significa “tubarão” em húngaro.






No alto, Robert Capa em Hollywood,
em 1950. Acima, o fotógrafo em ação
na Segunda Guerra e com sua
companheira Gerda Taro em 1936,
durante a Guerra Civil Espanhola.
Abaixo, Gerda Taro ferida no campo
de batalha, em Córdoba, Espanha,
fotografada por Capa. Gerda Taro
morreria em 1937, durante a
Guerra Civil Espanhola, atropelada
por um tanque de guerra conduzido 
pelas tropas do General Franco;
e uma das primeiras experiências
de Capa com fotografias coloridas,
em 1938, após um bombardeio sobre
Hanku, na China, durante a guerra
deflagrada entre China e Japão
















Segundo seus biógrafos, Capa sempre foi viciado em pôquer e apostas com jogos de cartas, além de apaixonado pelas farras da vida na boemia. Conquistador com fama de irresistível, namorou estrelas de Hollywood como Ava Gardner e Ingrid Bergman, entre outras, e teve como amigos e confidentes personalidades como Pablo Picasso, Ernest Hemingway, John Steinbeck. O que todos dizem é que era um homem incomum – tanto que outro de seus grandes amigos, o escritor William Faulkner, certa vez declarou que Capa era um fotógrafo “apenas nas horas vagas”.

Entre outras, Capa também foi o único fotógrafo presente no dramático desembarque das tropas aliadas no Dia D, em 6 de junho de 1944, nas praias da Normandia, momento crucial para o desfecho da Segunda Guerra. Antes, em 1937, viu sua companheira, a também fotógrafa Gerda Taro, ser morta por um tanque desgovernado durante a Guerra Civil Espanhola. Entre tantos trabalhos memoráveis e aventuras, morreu em uma explosão no campo de batalha no Vietnã, em 25 de maio de 1954, durante a Guerra da Indochina, quando se afastou da tropa francesa para procurar um ângulo melhor de enquadramento e acabou pisando em um campo minado.




Sangue e Champanhe



Em seu centenário, celebrado em vários países, Capa contou no Brasil com o lançamento de uma de suas biografias, “Sangue e Champanhe – A vida de Robert Capa” (Editora Record). Lançada há 10 anos nos EUA, pelo jornalista Alex Kershaw, a biografia amplia a lista de livros publicados no Brasil sobre vida e obra de Capa, incluindo o romance histórico sobre o amor entre o fotógrafo e Gerda Taro, "Esperando Robert Capa", de Suzana Fortes (Record), e o célebre relato autobiográfico de Capa, de 1947, “Ligeiramente Fora de Foco”, editado em 2010 pela Cosac Naify, que também já havia lançado os catálogos “Robert Capa” (Coleção Photo Poche), “Robert Capa – Fotografias” (com texto de Henri Cartier-Bresson) e “Um Diário Russo”, com fotos de Capa e texto de John Steinbeck.













No alto e abaixo, imagens da espetacular
cobertura fotográfica de Robert Capa
 para o desembarque das tropas dos
Aliados em Omaha Beach, Normandia,
no Dia D, em 6 de junho de 1944,
momento crucial para o desfecho
da Segunda Guerra. Acima, uma das
raras e inéditas imagens coloridas
produzidas pelo fotógrafo


Quando lançou a biografia nos EUA, Kershaw se viu no centro de polêmicas semelhantes às que ele descreve na trajetória de aventuras de Capa. Pelos detratores do fotógrafo lendário, foi acusado de exagero e mistificação em várias passagens. Dos fãs declarados, recebeu críticas por ter simplificado momentos de maior complexidade da história, como o primeiro trabalho importante do biografado, em 1932, quando o jovem Endre Erno Friedmann viajou da Alemanha à Dinamarca e fotografou o dissidente russo Leon Trotsky, que discursava para estudantes em Copenhague – ou ainda as circunstâncias de sua foto mais conhecida, de 1936, que mostra a queda de um combatente na Guerra Civil Espanhola, com arma na mão, morto durante uma batalha em Córdoba.

As controvérsias sobre esta fotografia mais famosa de Robert Capa, publicada na revista francesa “Vu” em 1936 (e republicada na norte-americana “Life” no ano seguinte, quando ganhou repercussão internacional), permaneceram depois que Kershaw publicou a biografia. Como o próprio Capa nunca revelou em detalhes as circunstâncias em que a foto foi feita, há quem afirme que se trata de uma imagem encenada, ou mesmo que se trata do registro de um escorregão, e não do momento da morte do soldado. 
 







Os fatos verdadeiros e as lendas



Algumas das dúvidas sobre a veracidade da foto de 1936 que registra a morte do combatente espanhol foram diluídas em 2008, anos depois da primeira edição da biografia escrita por Kershaw, quando três pastas de papelão contendo cerca de 3.500 negativos, que Capa considerava ter pedido em 1944, durante um cerco nazista, foram encontradas por acaso no México. Esse material precioso, chamado de “a maleta mexicana”, foi encaminhado ao International Center of Photography, fundado e mantido em Nova York pelo irmão de Capa, Cornell Friedmann.

O acervo da “maleta mexicana” tem gerado muitos estudos, dois deles já publicados em livros ilustrados também polêmicos, ainda inéditos no Brasil, escritos por veteranos jornalistas que conviveram com o fotógrafo: “Robert Capa: The Paris Years 1933–1954”, de Bernard Lebrun e Michel Lefebvre, e “Get the picture”, de John Morris. Mesmo depois de tantas décadas, ainda restam muitas perguntas sobre o trabalho de Capa, mas suas imagens emblemáticas permanecem como símbolos poderosos do absurdo de qualquer guerra – e também demonstram como o fotojornalismo é um terreno minado, difícil, cheio de ambiguidades.






O fotógrafo e seu amigo escritor em
autorretrato diante do espelho:
Robert Capa e John Steinbeck
 em Moscou, 1947. Abaixo, Capa
registra seu amigo Pablo Picasso com
a esposa Françoise Gilot e o sobrinho
Javier Vicaro caminhando na praia,
no Sul da França, em 1948.







Construindo seus argumentos narrativos baseado nas raras entrevistas do próprio Capa e nos depoimentos de amigos e contemporâneos do fotógrafo, além da pesquisa em jornais e revistas da época, arquivos da Rússia, da França e de relatórios do FBI, até então inéditos, a biografia escrita por Kershaw apresenta uma trajetória que parece roteiro de um filme de aventuras. Ao alternar os casos mais pitorescos e os perigos permanentes nos campos de batalha, o biógrafo completa as lacunas e propõe interpretações para questões que surgiram desde a publicação de “Ligeiramente Fora de Foco”, a aubiografia que Capa publicou em 1947.



O Pós-Guerra e a novidade das cores



Depois das celebrações de seu centenário que ocorreram em 2013, com mostras e retrospectivas abertas ao público em museus e centros de pesquisa na França, Estados Unidos, Hungria, Itália, Espanha, México, Inglaterra, Alemanha, Israel, Robert Capa voltará à cena no começo de 2014, quando serão apresentados pela primeira vez seus trabalhos com fotografia em cores. A exposição “Capa in Color” será aberta em 31 de janeiro em Nova York, no International Center of Photography, onde fica até maio e depois segue em mostra itinerante por diversos países.






Robert Capa em cores: Pablo Picasso
na França em 1948 e Ava Gardner
na Itália, em 1954. Abaixo, outras
raras imagens coloridas de Capa:
no Piccadilly Circus, em Londres,
em 2 de junho de 1953, durante a
procissão antes da coroação da
rainha Elizabeth II; no Marrocos,
em 1949, com espectadores que
acompanham no alto da árvore
a visita do sultão Sidi Hohammed;
o desembarque de novos imigrantes
em Israel, em 1949; o encontro da
tropa com uma família de gansos
na Indochina, em 1954; e uma das
últimas fotos de Capa, no dia 25
de maio de 1954, data em que ele
morreu numa explosão, ao pisar em
uma mina, enquanto acompanhava
tropas no Vietnã, durante os combates
na Guerra da Indochina















 

As 125 fotos anunciadas para a mostra no ICP de Nova York foram selecionadas do acervo de mais de 4 mil imagens em cores que Capa produziu e que, na quase totalidade, ainda permanecem inéditas. Na maioria, são imagens feitas sob encomenda para as revistas norte-americanas durante a Segunda Guerra, no Pós-Guerra e no início da década de 1950, e devem revelar que Capa – reconhecido como um dos grandes mestres da fotografia em preto-e- branco – também foi um dos primeiros fotógrafos do primeiro time a investir na novidade das cores.

A técnica das fotos coloridas, que havia sido introduzida em escala industrial pela Kodak (Kodachrome) em 1936, foi esnobada até a década de 1950 pela maioria dos profissionais da fotografia contemporâneos de Capa. Ele, entretanto, investiu na novidade, contra tudo e contra todos, e começou a explorar a técnica dos filmes coloridos a partir de 1938, durante a guerra entre China e Japão. Com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, Capa experimentaria alguns registros a cores, mas teve dificuldades em vender as fotografias coloridas, motivo pelo qual continuou a fotografar em preto e branco e só regressou à cor depois de 1945, durante suas viagens pela Europa, pela África e por países do Oriente Médio. O resultado, pelo que se vê nas amostras do material distribuído à imprensa pelo ICP, impressiona.



Inéditos e cinebiografias



Entre as experiências inéditas de Robert Capa com a cor que serão apresentadas pela primeira vez em Nova York estão cenas urbanas e a crônica social sobre famosos e anônimos no Pós-Guerra, nas capitais da Europa. Também fazem parte das 125 fotos anunciadas para a exposição no ICP belas imagens de seu amigo Picasso em 1948, passeando com a família na praia, no sul da França, e brincando dentro d'água com o filho recém-nascido. Ava Gardner, uma de suas musas, também foi registrada em cores por Capa, durante as filmagens de “A Condessa Descalça” na Itália, em 1954, assim como a chegada dos primeiros judeus no Pós-Guerra ao recém-fundado Estado de Israel. 







A foto polêmica de Robert Capa
em 1936, durante a Guerra Civil
Espanhola. Abaixo, amostras do
lirismo do fotógrafo ao registrar a
plateia que assistia à final da corrida
no Hipódromo de Longchamp, em
Paris, 1952; duas fotografias sob
encomenda da Maison Dior, também
em Paris, 1948; o registro do beijo
do casal anônimo às margens do
rio Sena, em Paris, em 1952; e
Capa em ação, durante a Segunda
Guerra, durante e depois do célebre
desembarque na Normandia, em
junho de 1944, fotografado
por David Scherman





Também são aguardados com expectativa pelos fãs da fotografia, e pelos admiradores da trajetória do maior de todos os fotógrafos de guerra, dois filmes sobre a vida e as aventuras de Robert Capa pelos cinco continentes. Um deles é “Close enough”, que vai abordar sua passagem pela Guerra Civil Espanhola e tem Tom Hiddleston (o Loki de “Os Vingadores”) no papel do fotógrafo. O título do filme, que tem direção de Paul Andrew Williams e pode ser traduzido como “perto o suficiente”, é basedo numa das frases famosas atribuídas ao fotógrafo, que costumava dizer: “se as fotografias não são suficientemente boas, é porque você não está suficientemente perto”.

Um outro filme, que vai abordar a descoberta da fotografia pelo jovem Endre Erno Friedmann, é “Capa”, com direção de Michael Mann, com Andrew Garfield (de “O Espetacular Homem-Aranha”) no papel principal. Como os dois filmes se propõem a recriar passagens da biografia como obras de ficção, e não como documentários, tanto os ferrenhos detratores como os fãs dedicados de Robert Capa podem ir se preparando para encontrar novas e antigas questões polêmicas. 
 

por José Antônio Orlando.


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12 comentários:

  1. Camilo de Lélis Souza23 de dezembro de 2013 09:39

    Estou muito impressionado com este seu estudo sobre Capa e com todas as outras páginas e textos belíssimos que encontrei por aqui. Seu trabalho neste blog Semióticas é mesmo surpreendente, José. Merece todos os prêmios e aplausos. Agradeço muito pelo que aprendi e registro os mais sinceros parabéns. (Camilo de Lélis Souza)

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  2. Muito lindo, Zé. Adorei. Lembrei das suas aulas maravilhosas. Ah, que saudade... Queria repetir tudo, se fosse possível. Ainda bem que tem este blog das maravilhas pra gente matar as saudades. Você não falou dele, mas lembrei daquele super texto da Susan Sontag sobre a foto do soldado do Capa. Suas aulas sempre foram as melhores de todas. Beijos, parabéns, tudo do bom e do melhor pra você no Natal e em 2014. Que a felicidade e a sorte sorriam muito pra você. Parabéns, parabéns!!!

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  3. José Maurício Ramos24 de dezembro de 2013 16:28

    Uma beleza total. Capa é show. Mais uma para a lista dos meus favoritos neste Semióticas. Sou fã. Parabéns. Excelente é pouco.
    José Maurício Ramos


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  4. Parabéns. Excelente perfil do grande fotógrafo.

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  5. Muito bom mesmo. Uma aula sobre Capa. Tudo aqui é um espetáculo. Parabéns, autor do Semióticas!

    Júlio Nogueira

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  6. Maria Clara Queiroz6 de janeiro de 2014 12:33

    Aprendo muito a cada visita e acho tudo cada vez mais lindo. Parabéns pelo blog. Show!

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  7. João Marcelo da Silveira23 de abril de 2014 12:28

    Capa dizia que suas imagens eram Ligeiramente Fora de Foco, um pouco sub-expostas e que a composição que ele alcançava não era nenhuma obra de arte. Este seu belo artigo e esta seleção de imagens com olhar de especialista provam o contrário, José. Parabéns! Nenhum elogio a este blog Semióticas é exagero. Tudo aqui é sensacional!

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  8. Maíra Magalhães24 de maio de 2014 19:11

    Professor, isto é um presente para quem gosta de fotografia e de história. Não costumo escrever mensagem nos blogs e sites que visito, mas no seu caso não pude resistir. Registro parabéns e gostaria de agradecer por me mostrar tanta beleza. Eu adoro isso, adoro Robert Capa. Saudades de suas aulas maravilhosas. Roberta Magalhães

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  9. Registro histórico da maior significância. A cada leitura fico maravilhada.
    Em meio a tudo, a moda, o estilo e a passagem do tempo.
    A humanidade seguindo pelos caminhos da evolução.
    Parabéns por seu trabalho, sua ins piração..

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  10. Parabéns pelo site que é todo sensacional e por este ensaio magnífico sobre o grande Robert Capa. Preciso registrar que este é um dos melhores sites que já visitei, se não for o melhor de todos. Altíssimo nível.

    Teresa Bueno

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  11. Adriano Reis Gomes19 de agosto de 2016 09:58

    Adorei esta matéria sensacional sobre o mestre Robert Capa. É uma matéria que vale por uma aula, ou melhor, por um curso inteiro. O blog Semióticas é impecável em tudo. Nota 10 com louvor para todas as matérias que encontrei aqui. Agradeço a você José Antônio Orlando por compartilhar beleza e sabedoria. Ganhou mais um fã de carteirinha.

    Adriano Reis Gomes

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  12. Matéria espetácular, parabéns por publicar algo tão significativo e aguçado sobre este que foi o grande capturador dos movimentos das guerras..................Leitura prazerosa.
    Más uma vez parabéns.

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