quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Freud explica






O homem é dono do que cala
e escravo do que fala. Quando
Pedro me fala sobre Paulo, sei
mais de Pedro que de Paulo...
 
Sigmund Freud (1856–1939)



Há mais de um século o gênio fascinante e por vezes contraditório do doutor Sigmund Freud sempre esteve em foco para outros pesquisadores e para os “leitores comuns”. O que não faltam são livros – os publicados pelo próprio Freud e centenas de outros, que relatam da biografia à correspondência do pai da Psicanálise, incluindo aqueles que se dedicam a aspectos incomuns na vida e obra do biografado ou mesmo os que recriam, em forma de ficção, momentos na trajetória do mestre. Dos muitos títulos sobre Freud das safras recentes nas livrarias, alguns são documentos preciosos sobre os ensinamentos do mestre na intimidade e na vida cotidiana.

Entre as edições nacionais, alguns destaques são a correspondência que Freud manteve com a filha Anna, cerca de 300 cartas enviadas entre 1904 e 1938, e dois estudos publicados pela Record, “Deuses de Freud” e “A Fuga de Freud”. A historiadora da arte Janine Burke é autora do primeiro, que revela o lado colecionador e menos conhecido do biografado. Freud, por mais de 40 anos, teve dedicação diária para reunir um extraordinário acervo de mais de 2 mil miniaturas, estátuas, vasos, joias e pedras preciosas esculpidas, remanescentes das civilizações da Antiguidade Clássica.

Enquanto Janine Burke pesquisa e desvenda hábitos incomuns na intimidade cotidiana do médico austríaco, o psicólogo, jornalista e cineasta David Cohen investiga os últimos tempos de vida de Freud, com o avanço do nazismo que o levaria a fugir de Viena para Londres. São três relatos com mais semelhanças que diferenças. Enquanto as cartas reunidas em “Correspondência – Sigmund Freud e Anna Freud” (“Briefwechsel”, L&PM Editores) revelam muito sobre as relações familiares e de afeto entre o pai e seus filhos – especialmente Anna, a caçula, de quem Freud se tornou analista entre 1918 e 1924 – tanto Burke quanto Cohen também fornecem, igualmente, elementos biográficos e analíticos.







A partir do alto, Sigmund Freud fotografado em 1922
para a revista Life, por Max Halberstadt; ao lado de
sua filha, Anna Freud, em Viena, Áustria, em 1928; e
personificado no cinema em “Freud” (1962), filme de
John Huston, com Montgomery Clift e Susannah
York; e em "Um Método Perigoso" (“A Dangerous
Method”, 2011), de David Cronenberg, com Michael
Fassbender como Jung e Viggo Mortensen como Freud


Tanto na "Correspondência" quando nos relatos de Janine Burke e de David Cohen, o que está em evidência são dois perfis do doutor Freud: aquele da intimidade familiar e o outro, referência das mais importantes em seu tempo e protagonista de revoluções da cultura no último século que chegaram ao senso comum e permanecem até a atualidade. Nos relatos de Burke e Cohen, cada um dos perfis surgem como mosaicos, construídos pelas palavras e impressões de terceiros. Nas cartas, cada opinião ou decisão é anunciada nas palavras do próprio Freud.



Complexo de Édipo



Através de “Correspondência”, pela primeira vez o leitor brasileiro tem acesso aos bastidores de uma das mais famosas relações entre pai e filha da história: a correspondência mantida durante 34 anos entre o médico e a caçula dos seus seis filhos, a única a seguir seus passos na profissão. Escritas entre 1904 e 1938, as cartas compõem um registro abrangente da gênese e do desenvolvimento da psicanálise, enquanto enumeram as opiniões de Freud sobre seus discípulos mais próximos.

Na trajetória de descobertas como o Complexo de Édipo e nas repercussões de obras radicais como “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), Freud constata, através das cartas, seu crescente prestígio na comunidade científica e o quanto a Psicanálise vai adquirindo reconhecimento como teoria do funcionamento do aparelho psíquico, dispondo de um método de investigação com a interpretação das associações livres na transferência.





No alto, Freud e seus cães da raça Chow Chow.
Freud tinha vários cães e dizia que eles possuíam
um certo sentido que os fazia capazes de analisar
o caráter das pessoas. Um de seus cães, Jo-Fi, até
participava das sessões de análise acompanhando
alguns pacientes. Freud também foi pioneiro ao
defender que a presença de cães teria um efeito
calmante, principalmente para as crianças. Acima,
Freud com seus amigos e discípulos no começo
do século 20 – a partir da esquerda, de pé, Abraham
A. Brill, Ernest Jones e Sândor Ferenczi. Sentados,
Sigmund Freud, G. Stanley Hall e Carl G. Jung







A trajetória ascendente de Sigmund Freud também marca as cisões com discípulos importantes e amigos mais próximos, dos quais se separou sucessivamente desde 1908, quando fundou a Sociedade Psicanalítica de Viena, incluindo rompimentos dramáticos com Adler (em 1911), Jung (1913), Rank (1924) e Ferenczi (1929), entre outros pioneiros que fundamentam com Sigmund Freud a psicologia, a psicanálise e suas variações tanto nos métodos de psicoterapia quanto na sua aplicabilidade aos domínios da arte e da cultura contemporânea. 
 
Curiosamente, depois da morte de Freud, em 1939, Jung renunciou à presidência da Sociedade Médica Internacional para Psicoterapia. No pós-guerra, quando Freud e outros grandes pioneiros na teorias que fundamentam a Psicologia e a Psicanálise já estavam mortos, Jung ressurgiria com status de referência intelectual e celebridade na mídia internacional. Em 1955, aos 79 anos, lúcido e polêmico, Jung é reverenciado na capa da revista “Time”, com entrevista que marcou época criticando a massificação da Psicologia e da Psicanálise.





Carl Gustav Jung aos 33 anos, em 1909, na
Universidade de Viena, e em fevereiro de 1955,
aos 79 anos, na reportagem da revista Time
 


A compreensão e a escuta



As questões de sua época, das vanguardas na arte à política, da evolução de seu entendimento sobre os chistes às articulações espontâneas do inconsciente como linguagem, dos esboços de suas teorias sobre a psicologia das massas ao contraponto do nazismo em ascensão tudo está registrado nos comentários de Freud e nas respostas sempre breves da filha.

A formação de Anna, contudo, é o fio condutor de “Correspondência”. De criança problemática e precoce, a caçula de Freud passou a mulher independente e determinada, subverteu convenções sociais e tornou-se analista mundialmente reconhecida. Depois da morte de Freud, Anna também se destacou como guardiã do legado intelectual paterno – um legado que ela aprofundaria com rigor científico, sobretudo nos estudos sobre psicanálise infantil. 










Anna Freud e o pai, fotografados em
Viena, em 1920. Abaixo, a capa da
edição nacional de Correspondência
e o jovem Sigmund Freud (ao centro)
em retrato de família datado de 1872




 

As cartas acompanham a educação sentimental de Anna e seu envolvimento crescente com as pesquisas e com os discípulos do pai. "Olhando você me dou conta do velho que sou, porque tens exatamente a mesma idade que a psicanálise. As duas me deram preocupações, mas no fundo espero de tua parte mais alegrias que dela", escreveu Freud a Anna no final de 1920. Todas as cartas, com raras exceções, são iniciadas com "Minha querida Anna" ou "Querido papai", e deixam vislumbrar como no início da psicanálise essa prática era testada nos círculos dos iniciados e em família.

O leitor familiarizado com os textos do pai da Psicanálise irá descobrir um tom afetivo comovente e surpreendente, em momentos em que o sisudo doutor Freud manifesta "uma humanidade profunda e palpável" – segundo as palavras de Anna. O leitor que não tem tanta leitura sobre as teorias de Freud também tem a descobrir outros tantos segredos nas cartas do destaque entre os mentores da “intelligentzia” de sua época. Um aprendizado: escrevendo à filha, o mestre parece evitar atitudes moralizantes e dá prioridade à compreensão e à escuta. 




 

O próprio Freud confessaria, em novembro de 1928: "Foi para mim uma experiência preciosa aprender quanto pode receber um de seus próprios filhos". Em outros momentos, a reflexão cede ao trivial, como na carta datada de julho 1904:


Minha querida Anna,

Foi muito gentil da tua parte me teres escrito, e por isto eu respondo conscienciosamente. Deves ter te enganado na tua carta, querendo dizer que engordaste um quilo; mas se realmente tiveres emagrecido, então a tia deve te alimentar com Salvelinus alpinus, até que tenhas recuperado teu peso. Na tua idade ainda se pode ganhar peso sem ter medo de engordar. A mamãe já está com a passagem de leito para a quinta-feira à noite, então vocês estarão completos, só faltando este último, que já está feliz por chegar em breve,

teu velho papai.”



Navegando no mar dos sonhos



Freud não estava sozinho quando entrou no mar dos sonhos. Seus companheiros eram deuses do Egito, da Grécia e de Roma”, destaca Janine Burke na abertura de “Deuses de Freud”. Foi no final dos anos 1890, quando escrevia sua obra mais conhecida, “A Interpretação dos Sonhos”, que Freud se tornou um colecionador de arte.

A autora reveste de significados simbólicos, usando referências dos próprios conceitos e argumentos analíticos desenvolvidos pelo primeiro entre seus pares na Psicanálise, um detalhe importante: pouco depois de adquirir sua primeira peça de alto valor, ele tem uma notícia que o deixaria profundamente abalado: a morte de seu pai, Jacob Freud, em 25 de outubro de 1896. Desde então, Freud passaria a conviver com uma intensa obsessão por antiguidades da arte e pequenos objetos de culto, tesouros da Arqueologia.

Amuletos, alguém diria. Por certo, amuletos, alguns deles, não por acaso, transferidos à argumentação das teses mais conhecidas do doutor Freud, transformados em alegorias no método que ele celebrizou e que leva seu nome à categoria de adjetivo, "freudiano", tomando de empréstimo a metáfora da Arqueologia em que camadas sucessivas são removidas para revelar o mais importante, a chave do enigma: o sentido que permanece no fundo, submerso, a aguardar por seu resgate futuro.






Peças da coleção preciosa de miniaturas
e relíquias de civilizações da Antiguidade
na mesa de trabalho de Freud, em Viena






Seu gosto era preciso e sagaz”, aponta Burke, que persegue os percalços do gênio em seu estúdio vienense, onde todo espaço disponível – estantes, móveis, armários, gavetas – com o tempo ficaria apinhado de objetos antigos. Os mais valiosos ficavam inacessíveis à maioria dos visitantes, mas no restante da casa, especialmente no escritório, ele mal podia se mover sem arrastar algum objeto ou vários deles. A imagem de Freud como austero e hostil é contestada pelas revelações de Burke, que descobre no cotidiano do médico uma personalidade generosa, por vezes até hedonista, encantado pelos fetiches (para usar o termo tão caro às teorias freudianas) preciosos da coleção.



Segredos milenares da Arqueologia



De Viena, o médico avançava na teoria e acompanhava à distância que segredos milenares e tesouros da Arqueologia estavam sendo descobertos em todo o mundo: em 1871, o aventureiro Heinrich Schliemann, idolatrado pelo jovem Freud, desenterra as ruínas de Tróia; em 1900, data da publicação de “A Interpretação dos Sonhos”, Arthur Evans traz à tona os monumentos e estatuária de Creta; em 1922, Howard Carter penetra no túmulo de Tutankamon.









Imagens clássicas da Arqueologia: acima, Howard Carter
fotografado no Vale das Pirâmides, no momento da abertura
da antecâmara da tumba do faraó Tutankamon, no dia 26 de
novembro de 1922. Abaixo, Arthur Evans, Theodore Fyfe
e Duncan Mackenzie fotografados em 1900, na Grécia, nas
escavações que revelaram os palácios em Knossos, Creta,
onde nasceram as lendas de Minos, Teseu e o Minotauro

Uma das histórias que fascinaram o doutor Sigmund Freud
foi protagonizada por Howard Carter, que revelou uma das
maiores descobertas da Arqueologia: a tumba de Tutankamon
no Vale das Pirâmides, no Egito. A múmia do faraó, que morreu
há mais de 3.300 anos, estava em perfeito estado de conservação
e, junto a ela, estava guardado um tesouro inestimável em ouro,
joias e pedrarias, que tinha permanecido intocado ao longo dos
milênios. Há muitas lendas intrigantes sobre a descoberta feita
por Howard Carter, decorrentes de uma inscrição na tumba que
lança uma maldição contra aqueles que perturbarem o descanso
eterno de Tutankamon. Realmente, a maior parte da equipe que
trabalhou com Carter na descoberta da tumba morreu em situações
trágicas pouco tempo depois, atiçando a imaginação das pessoas.

Na tarde de 26 de novembro de 1922, o inglês Howard Carter
(fonte de inspiração para o personagem Indiana Jones criado para
a série de superproduções no cinema por Steven Spielberg) e seu
patrocinador, Lorde Carnarvon, encontraram a antecâmara da
tumba. Lorde Carnarvon morreria em poucos meses, em 5 de abril
de 1923, em circunstâncias ainda hoje não esclarecidas: registros
oficiais dão conta de que, no momento da sua morte, ocorreu na
capital do Egito uma falha elétrica sem explicação e a cadela do
lorde teria uivado e caído morta no mesmo momento na Inglaterra.
Nos meses seguintes morreriam um meio-irmão do lorde e também
sua enfermeira, o médico que fizera as radiografias e vários outros
visitantes do túmulo e trabalhadores acompanharam a expedição.

Há muitos e muitos outros eventos estranhos que reforçam a
maldição do faraó”. Entre eles, uma serpente que, no dia em que
o túmulo foi aberto de forma oficial, entrou na gaiola e devorou o
canário de Carter. Na mitologia egípcia, as serpentes protegem os
faraós dos seus inimigos. Os jornais da época fizeram alarde sobre
o assunto e contribuíram de forma sensacionalista para lançar no
público a ideia de uma maldição. Curiosamente, Howard Carter
morreria exatos 13 anos depois de sua grande descoberta.








Fascinado pela Antiguidade Clássica e pelas histórias sobre as descobertas recentes da Arqueologia, Sigmund Freud seguiu montando sua coleção de miniaturas, papiros e pequenas gravuras em relevo no intervalo entre 1871 e o final da década de 1930,  No início, réplicas de gesso. Quando começou a ganhar dinheiro com a Psicanálise, passa às peças verdadeiras, por vezes recorrendo ao mercado negro e, segundo fontes pesquisadas pela autora, também às redes de mercenários e assaltantes de tumbas. O relato de Burke é didático:

Para Freud, a religião cumpre a função de ajudar o ser humano a satisfazer na imaginação o que na realidade ele não se atreve ou não pode realizar na vida real", ela explica. "Para satisfazer estas necessidades, o indivíduo se identifica com um intermediário, que atua como 'muleta' para que a pessoa possa seguir com sua vida. Desta maneira, o indivíduo assim se expressa: 'Eu sofro, mas através de Cristo (ou de qualquer outro Deus) os meus sofrimentos serão recompensados'. Tudo isto nos mostra que o próprio Freud, em sua crítica sobre a religião, acaba nos mostrando que sua ligação com os Deuses e com a arte funcionava também como a "perna de pau" que o pirata usa para poder caminhar e seguir seu caminho”.



Objetos para amar



Eu preciso ter sempre um objeto para amar”, confessaria Freud certa vez a Jung, em passagem citada por Janine Burke. David Cohen e seu “A Fuga de Freud” vai em outra direção, deixando para trás a coleção de antiguidades e os prazeres secretos do médico na intimidade da família e da vida cotidiana. Cohen vai aos dias mais difíceis, quando Freud, famoso tanto na Europa quanto nos Estados Unidos na década de 1930, entrou em xeque quando a Áustria foi tomada pela Alemanha de Hitler, em 1938.





Miniaturas da coleção de Freud: a deusa Isis
e a Esfinge, artefatos sagrados do antigo Egito


Nascido em uma família judia, da pequena burguesia comerciante da Morávia, desde cedo aprendeu a conviver com problemas financeiros. Foram eles que obrigaram toda a família a se mudar para Viena, na Áustria, onde Freud viveria desde 1860, quando tinha apenas quatro anos. Aos 17, ingressou na Universidade de Viena. Formou-se em Medicina, com especialização em Neurologia. Aos 30, se casou com Martha Bernays e abriu uma clínica especializada em distúrbios nervosos, onde desenvolveria os princípios da Psicanálise. Em Viena, sempre usufruiu de vida financeira modesta, só ocasionalmente pontuada por regalias permitidas à sua classe social. Mas tudo mudou muito rápido em 1938.

Naquele ano, os nazistas obrigaram os judeus a declarar todos os seus bens – que passariam a ser tratados como riquezas ilegalmente adquiridas. Aí vem o golpe de sorte: Anton Sauerwald, estudante de Medicina e fã dos livros de Freud, foi designado para supervisionar os ganhos do médico de Viena, mas escondeu de seus superiores as provas de contas secretas na Suíça. Em “A Fuga de Freud”, todo o processo, a partir dos documentos oficiais, é investigado por David Cohen e narrado em primeira pessoa, em tom de novela policial.





Artefatos sagrados e valiosos na coleção:
o deus Eros, de origem na antiga Grécia,
e o deus babuíno Thoth, do Egito


Cohen acompanha o agravamento da situação, os lances mais arriscados e o passo a passo de Freud em Viena, naqueles dias turbulentos, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, até sua escapada espetacular aos 82 anos para Londres, a bordo do Orient Express, com vistos conseguidos por Sauerwald. Contudo, muitos na família de Freud, incluindo suas quatro irmãs, não foram autorizados a deixar a Áustria, acabaram presos e morreram no campo de concentração de Auschwitz. Segundo Cohen, Sauerwald foi salvo dos tribunais que julgaram os crimes de guerra nazistas no último momento, em 1947, por intervenção emocionada e emocionante de Anna, filha de Freud.



Segredos de família



Segredos de família, fraudes, suicídios, transações bancárias: nada escapa ao faro do jornalista e cineasta David Cohen, que por sua formação profissional como psicólogo pode se dar ao luxo, inclusive, de pontuar as situações biográficas do pai da Psicanálise com trechos das obras principais e comentários do próprio Freud, incluindo o que há de mais polêmico.

Descrevendo a agonia do veterano pensador e médico austríaco em fuga para Londres, o relato de Cohen ressalta que Freud, simultaneamente, inovou em vários domínios, tanto ao desenvolver uma teoria da mente e da conduta humana, quanto ao apresentar técnicas terapêuticas revolucionárias para ajudar pessoas afetadas psiquicamente. Vastos domínios, que terminaram por afastar alguns seguidores, influenciados por um, mas não pelo outro campo de atuação.





A chegada a Londres, em 1938. Abaixo,
o pensador homenageado em escultura na
areia na praia de Pera, em Portugale na
fotobiografia em retratos de 1864 a 1839


Cohen transforma em ritmo de thriller de suspense o momento mais amargo da biografia de Freud. Seu relato encontra o médico atormentado pela decisão de deixar Viena e às vésperas da fuga, a bordo do Orient Express. No mesmo ritmo, Cohen passa em revista os preparativos para a fuga e os percalços da maturidade, o legado teórico, as inovações no campo científico, as questões do inconsciente que se articulam como linguagem, as reviravoltas introduzidas pelo conceito de “pulsão de morte”, o agravamento das diferenças fundamentais com seus discípulos, especialmente Jung, ou o estabelecimento pela comunidade científica internacional do novo modelo para o aparelho psíquico, que Freud desenvolvera ainda no começo do século, compreendendo o ego, o id, o superego.

No capítulo final, Cohen cita uma frase de Freud que poderia constar como epitáfio, ou quem sabe como epígrafe, num dos muitos livros que Freud publicou, ou num dos tantos livros sobre ele, sua exegese, seus conceitos e teorias, assim como em qualquer das dezenas de biografias que têm o mestre como protagonista. Uma frase que reflete muito das convicções, dos ensinamentos e do temperamento de um pensador genial: Só os estados de conflito e turbulência podem aprofundar nosso conhecimento.


por José Antônio Orlando. 



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18 comentários:

  1. Meu coração disparou quando encontrei esta página do seu blog maravilhoso sobre Freud. A-do-rei. Tudo de bom. Aprendi demais da conta. Beijos.

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  2. Carlos Augusto Ibrahim Novaes13 de dezembro de 2012 12:16

    Texto de alto nível que acrescenta informações importantes sobre Sigmund Freud. Aliás, outra aula esclarecedora sobre assuntos muito complicados.

    Parabéns de novo, José Antônio Orlando. Cada visita que faço ao seu site é uma surpresa e um aprendizado. Estou simplesmente encantado.

    Carlos Augusto Ibrahim Novaes

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  3. Fantástico. Concordo com tudo e aprendi muito, como sempre acontece a cada visita a este site diferente de tudo.

    Faço questão de repetir as palavras do Ibrahim Novaes: outra aula esclarecedora sobre assuntos muito complicados. Parabéns, mestre. Orgulho de ter sido seu aluno. Abraçaço!

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  4. Maria Lúcia Magalhães17 de dezembro de 2012 10:56

    Muito correta e muito surpreendentemente bela sua abordagem sobre o lado místico do mestre Sigmund Freud. Há muito tempo não ficava tão emocionada com um texto da internet. Seu blog é muito, muito bom. O melhor que já encontrei.
    Como agradecimento por sua seriedade de pesquisador, sua generosidade e acolhida aos que aqui chegam, registro uma benção, a "Bênção da Casa", um sortilégio de proteção que vem da tradição judaica. Muito amor para você em seus caminhos, José!

    Nessa casa não virá tristeza
    Nessa moradia não virá sofrimento
    Nessa porta não virá temor
    Neste lar não virá discórdia
    Neste lugar haverá somente
    bençãos e paz.

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  5. Excelente a matéria apresentada. Motivou a leitura de ambos os livros.
    Cumprimento. Carmen

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  6. Excelente este blog e as postagens! Não esperava achar detalhes assim sobre Freud e psicanálise. Parabéns!

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  7. José Antônio, grande prazer. é a primeira visita que lhe faço e resgistro que voltarei a relê-lo. deixo-lhe, sem maiores referências, um pedido mas antes lhe explico a razão. foi-me valiosíssimo em um curso que fiz na pós da usp e o perdi. nem referência autoral tenho, o que sei que dificultará qualquer ajuda que possa me dar. dou-lhe umas dicas: trabalha a 'diagnose' como fator básico para unir freud, conan doe e morelli em respectivas atividades profissionais. o detetive sherlock holmes e o crítico de arte morelli eram médicos. a 'arqueologia' para os três - tão bem demonstrada aqui, em freud - era um instrumento para chegarem a seus resultados finais. destaco morelli - talvez o mais desconhecido - e seu trabalho em distinguir uma obra de arte da que lhe fora falseada e que circulava em museus outros. a minúcia, o pequeno traço, o mínimo gesto - descartados para um leigo - p/ eles era fundamental. de morelli cito uma passagem óbvia ao responder a uma curioso sobre o que o levava a tanto preciosismo quanto a uma obra falsificada ele responde com uma simplicidade absurda para o leigo, usando de uma pergunta: para você o que poderia ajudá-lo a diferenciar um gigante de um homem comum? nenhuma resposta lhe foi dada e ele conclui:basta ver-lhe o tamanho do 'dedão de seu pé'. tão simples! e para nós...
    .
    peço-lhe outrossim, caso o possa, que me informe de qual das obras de freud foi retirada a citação acima, que destaca no início de seu riquíssimo trabalho. e como iniciante navegante, como aprendi! minha arqueóloga da família estará ainda hoje degustando tanto saber.
    abraços e parabéns!

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    Respostas
    1. Olá, minha querida leitora. Sou muito grato pelos elogios e pelo comentário inteligente. O livro a que você se refere provavelmente é "O Signo de Três", editado no Brasil pela Perspectiva. Sobre a citação de Freud, foi extraída de um texto de 1930, "O Mal Estar na Civilização", publicado no volume XXI da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1969. Seja sempre bem-vinda. Forte abraço!

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  8. grande, josé antônio! brilhante mesmo. tenho segurado a sua afirmação num post do face em que me remeto a você. desculpe-me pelo pedido e trabalho extra. parabéns! obrigada sempre.

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  9. Estou encantada. Comecei por Freud e não parei mais neste labirinto maravilhoso e sofisticado chamado Semióticas. Só textos dos mais inteligentes com imagens lindas que traduzem ideias. Parabéns, José. Ganhou mais uma súdita com gratidão eterna.

    Alice Lepomme

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  10. Caro José Orlando, cada vez mais, cada dia mais, Semióticas me encanta, me enebria, com tanta matéria boa e com textos tão agradáveis e solenes, que minha alma regogiza de tanto deleite, Um grande abraço!

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  11. Meu caro autor do blog Semióticas: seu trabalho é notável. Não por ser um blog inteligente e sofisticado, porque há outros assim. Também não apenas por ser bonito e ter sempre lindas fotos, também há outros. O que me impressionou mesmo foi a qualidade dos seus textos e seu cuidado na edição de imagens incomuns, surpreendentes até para mim, que me considero colecionadora do um repertório que encontro com muita alegria a cada página que visito neste seu site maravilhoso.
    Pelo que vejo nos posts dos visitantes que te conhecem, você deve ser um cara muito legal. Por isso mandei solicitação de amizade para seu Facebook e seu Twitter. Aguardo a resposta, mas antes de tudo só posso agradecer. Virei fã. Muito obrigada!
    Eliana Carvalhal

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  12. Marília Alves de Lima24 de julho de 2013 11:59

    Magnífico. Amei tudo porque é tudo lindo e de uma inteligência...
    Sou Marília Alves de Lima e virei fã de carteirinha. Parabéns, parabéns!

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  13. Muito bom, mas a grande pena, é que pensadores, de cérebros privilegiados não existem mais, e o imenso legado, pouquíssimas pessoas absorveram. É uma obra vasta, mas pouco aproveitadas pelos homens de hoje. Tudo o que precisamos, ainda temos de recorrer á Freud, Jung, Nietzche, Edgard Alan Poe, Sócrates, e tantos outros que ainda hoje nos auxiliam. Minha conclusão é que a capacidade mental atual, está muito empobrecida.
    Angela G Sá

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  14. Acho que é a primeira vez que encontro um texto tão completo que explica Freud e ao mesmo tempo deixa toda a teoria mais fácil de entender. Aprendo muito em cada visita que faço ao seu blog, Semióticas. Parabéns. Sou fã de carteirinha deste blog e da página Semióticas do Facebook e agradeço muito.
    Heloísa Furtado

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  15. Marilene Queiróz20 de abril de 2014 19:54

    Professor, estou encantada com seu blog. Esta matéria do Freud me fez lembrar suas aulas maravilhosas. Aprendi e aprendo muito. Agradeço de coração. Mil beijos!

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  16. Ana Paula Albuquerque6 de julho de 2015 18:13

    Ensaio sensacional. Uma aula de alto nível sobre a complexidade de Freud. Parabéns pelo blog. Sou fã.
    Ana Paula Albuquerque

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  17. Walter Silva dos Santos25 de setembro de 2016 09:05

    Poucas vezes em todas as minhas pesquisas em sites e blogs encontrei um textos tão completo e tão bem escrito sobre Sigmund Freud. As referências são bem encadeadas, as imagens são belas e surpreendentes e seu raciocínio do começo ao fim do artigo são brilhantes, José. Parabéns. E agradeço por você compartilhar beleza e sabedoria em tudo o que encontrei aqui neste maravilhoso blog Semióticas. Ganhou mais um fã de carteirinha. Walter Silva dos Santos

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