sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Retrato de Marilyn







Passei toda a minha vida vendo esse filme, embora nunca o tenha assistido até o final”... A frase, poética e nostálgica, adquire um valor simbólico ainda maior quando associada à personalidade que a escreveu – são as palavras que abrem um dos capítulos iniciais de “Blonde”, romance da norte-americana Joyce Carol Oates que tem como personagem central ninguém menos que um dos maiores mitos do século 20: Marilyn Monroe.

Ao contrário, porém, do que pode pensar o leitor desavisado, não se trata apenas de outra biografia sobre a trágica existência da estrela que Hollywood produziu. “Blonde”, traduzido por Luís Antônio Aguiar e publicado no Brasil em dois volumes pela editora Globo, cada um com cerca de 500 páginas, acrescenta sutilezas de alta literatura à extensa lista de livros sobre a estrela, rivalizando com obra-primas como “Marilyn”, romance de Norman Mailer que provocou escândalo quando foi publicado em 1973.

Subjetivo e cruel nos juízos de valor sobre a obscenidade, os arroubos histriônicos e as crises depressivas da estrela, o livro de Mailer, não por acaso, aparece parafraseado em diversas passagens do romance de Joyce Carol Oates. Só que com algumas diferenças pontuais, como uma certa ternura que Oates deixa transparecer pela personagem, ao contrário do distanciamento reforçado pelo relato em terceira pessoa de Mailer. 







Portraits famosos de Marilyn Monroe:
a partir do alto, Marilyn vestida de bailarina e
posando no estúdio de seu amigo fotógrafo,
Milton Greene, que também fotografou a
estrela em Londres, na escada e na calçada,
em 1956. Acima, a pequena Norma Jeane 
com a mãe, Gladys Baker, em 1929, e a
sequência de fotos de 1957 por outro grande
fotógrafo e amigo de Marilyn Phil Stern




Premiados e aclamados como elite entre os escritores dos EUA, Mailer e a autora de “Blonde”, críticos ferrenhos do “american way of life”, tornaram-se conhecidos por atuarem na fronteira entre ficção e jornalismo e também dividiram as honras como candidatos permanentes ao Nobel de Literatura. Mas não são os únicos que têm Marilyn como personagem. São dois entre mais de uma centena.

Só entre as edições brasileiras, há muitas biografias de MM dignas de atenção, entre elas “Fragmentos Poemas, anotações íntimas e cartas de Marilyn Monroe” (Tordesilhas), de Stanley Buchthal e Bernard Comment, com prefácio de Antonio Tabucchi; “Marilyn Monroe” (ed. L&PM), de Anne Plantagenet; “A Conspiração Marilyn” (ed. Imago), de Milo Speriglio, e “Marilyn, A única história não revelada” (ed. Nova Época), de Norman Rosten.

Desde que morreu, na madrugada de 5 de agosto de 1962, em circunstâncias mal esclarecidas, envolvendo o ex-presidente John Kennedy, seu irmão, senador Bob Kennedy e outros figurões imponentes da política e do cinema – Marilyn permanece no imaginário do público, no mundo inteiro, e sobrevive como denominador comum nas fixações de Mailer, Oates e muitos outros escritores, repórteres e roteiristas. 






Marilyn na praia, aos 17, fotografada
por Andre De Dienes, quando ainda
usava o nome de batismo, Norma Jeane
 
Marilyn está em todas, talvez mais ainda em evidência do que quando morreu, há 50 anos. Foi a grande homenageada no último Festival de Cannes, está e sempre esteve em todas as revistas e sites sobre moda e cinema, ganhou exposições de fotos e retrospectivas nos mais importantes museus e galerias do mundo – e teve ainda o tributo adicional com o lançamento do belo “Sete Dias Com Marilyn” (“My Week With Marilyn”), de Simon Curtis, com Michelle Williams no papel-título.

Mas, retornando à literatura, o que se pode esperar de mais um romance sobre o mito Marilyn Monroe? Escândalos e revelações bombásticas, traumas na infância, amantes secretos, drogas, pornografia, sofrimento mental, abortos, tentativas de suicídio, ou uma reflexão sobre a trajetória autobiográfica de um mito que morreu no auge da fama e produziu momentos marcantes do cinema? “Blonde” traz doses generosas de tudo isso. Com a novidade de construir entornos de habilidade literária que humanizam personagens e situações conhecidas e surpreendem o leitor mais atento, afirmando o talento de Oates com as palavras.



Personagem da cultura pop



A arte de narrar – que para muitos está em vias de extinção, em nossa época de vertigens virtuais e imagens que se repetem ao infinito – Joyce Carol Oates demonstra já nas primeiras páginas do romance, quando intercala reflexões e “fluxos de consciência” à voz de Marilyn, em primeira pessoa, em meio a episódios e personalidades marcantes em Hollywood e no jogo político do Pós-Guerra.





Antes da fama: no alto, Marilyn fotografada
por John Miehle em 1948. Acima,
a futura estrela na praia, em 1949,
em fotografia de Andre De Dienes

Tudo está dito, às vezes escamoteado em um ou outro irritante pseudônimo para os ex-maridos e para os amantes poderosos: o Teatrólogo (Arthur Miller), o Príncipe Sombrio (Laurence Olivier), o Ex-Atleta (Joe DiMaggio), o Cantor Que Chega com a Madrugada, o Repórter, o Solitário... Misturando textos escritos por Marilyn às estratégias de ficção e de intertextualidade, Oates compõe, em fragmentos, um discurso coerente em sua complexidade. “Blonde” trafega por entre reminiscências da protagonista e referências saborosas aos astros em grandeza variada.

Em cena, os mais importantes diretores e roteiristas, além das estrelinhas de ocasião e dos deslumbrados do mundo do cinema, mexericos infernais de gente como Hedda Hopper e outros colunistas de imprensa, perversões de alcova do chefão Darryl F. Zanuck e outros magnatas dos estúdios de Hollywood e a relação destrutiva e sadomasoquista da estrela principal com o ex-presidente Kennedy, peça-chave na hipótese de homicídio, endossada por Oates no inusitado “depoimento póstumo” que encerra o romance.

Longe de pastiches de autoria duvidosa da era da internet e das invasões de privacidade que identificam boa parte da indústria cultural da atualidade, “Blonde” investe na recriação perfeccionista do mito Marilyn Monroe. Inevitavelmente, reaviva polêmicas e tabus. Mas não deixa de ser um livro inventivo, audacioso, que começa com um esclarecimento da autora sobre os recursos literários e suas fontes de pesquisa – um procedimento no mínimo honesto quando a questão central é um minucioso relato biográfico destilado em ficção.






Felizes para sempre: no alto, Marilyn aos
17 com o primeiro marido, James Dougherty,
em 1943; e com Joe DiMaggio, em 1954, no
dia de seu casamento com o ex-atleta. Acima,
Marilyn no seu terceiro casamento, com o
escritor Arthur Miller, em 1956

Oates alerta que não devem ser procurados dados biográficos relativos a Marilyn em “Blonde”, que não se propõe a ser um documento histórico. Nas palavras de Oates: quem está à procura de nomes e datas deveria ler as muitas biografias publicadas sobre MM. É como se a autora – que foi saudada por outro mestre das letras, John Updike, como “dark lady of american letters”, por suas novelas, ensaios e poemas sobre a violência do universo masculino, e também como “a maior escritora norte-americana, homem ou mulher, desde William Falkner”, pelo crítico Robert H. Fossum – depois de mais de 70 livros publicados, de repente decidisse professar em alto nível o cânone principal do pós-modernismo.

Blonde” é o próprio romance pós-moderno, seguindo à risca toda a caracterização estilística que o pós-modernismo adquiriu desde a publicação do best-seller “O Nome da Rosa” por Umberto Eco, em 1980: ficção e História, entrelaçadas na mesma trama, com o narrador envolto pela ambiguidade no jogo de paráfrases das mais eruditas e pela tentativa de extrair a si próprio da ação narrada, em atitude semelhante à do repórter que tenta ser imparcial apresentando seu relato sobre um dilema de paixões extremadas, ou mesmo do telespectador que assiste à realidade representada nos telejornais intercalada de toda sorte de anúncios publicitários ilusionistas, alheio a tudo ao seu redor, na tranquilidade do sofá da sala.









Estrela de Hollywood visita as tropas 
aliadas na Guerra da Coreia, em 1954. Acima,
com o comediante Groucho Marx, que lançou
pela primeira vez o nome Marilyn Monroe nos
créditos de um filme, Loucos de Amor (Love Happy)


Da Segunda Guerra à propagação da TV


Joyce Carol Oates nasceu em 1938 e pertence à mesma geração de Marilyn. Viveu as mesmas situações históricas e sociais que narra em “Blonde”, da Segunda Guerra à propagação da TV, entre outros percalços existenciais que também estão no calvário da garota órfã que, de repente, foi elevada ao status de... Marilyn Monroe. Cercada de referências para construir variantes literárias, Oates tem subsídios em suas impressões pessoais de romancista e professora (leciona literatura na Univesidade de Princeton, em New Jersey, desde 1978), mas também em dossiês oficiais e leituras de outros narradores – em muitos filmes, livros e reportagens assinados pelos aventureiros que também estiveram, nas últimas décadas, a observar os passos do mito Marilyn Monroe.

As fontes de pesquisa anunciadas por Oates, algumas delas citadas em transcrições livres nos fragmentos e capítulos do romance, vão dos diários, cartas e poemas inéditos escritos por Marilyn às biografias, entrevistas e textos filosóficos ou poéticos que a atriz, sempre descrita como muito inteligente (ao contrário da loura ingênua que incorporou em tantos filmes) por todos os que com ela conviveram, tinha como referência: livros de H. G. Wells (“A Máquina do Tempo”), Stanislavski (“A Preparação do Ator”), Schopenhauer (“O Mundo como Vontade e Representação”), Sigmund Freud (“O Mal-Estar na Civilização”), Blaise Pascal (“Pensamentos”), mais Gustave Flaubert, Samuel Beckett, Joseph Conrad, Ernest Hemingway, Albert Camus, James Joyce e versos de Emily Dickinson, entre outros.







A famosa sequência na cama de cetim
vermelho, fotografada em 1949, que anos
depois se tornaria capa e primeiro ensaio
erótico da revista Playboy. Acima, cartaz
de Cannes 2012, que homenageou Marilyn


No prólogo para “Blonde”, datado de 3 de agosto de 1962 e intitulado “Entrega especial”, as palavras contornam expectativas e estereótipos que acompanham MM no panteão da cultura pop. “Lá vem a Morte, descendo em velocidade o Boulevard, mergulhada em pálida luz sépia. A Morte torna a tocar a campainha pressionando por um longo tempo. E, desta vez, a porta foi aberta. Das mãos da Morte, aceitei o presente. Acho que sabia o que era. De quem vinha. Vendo o nome e o endereço, ri e assinei sem hesitação”...


A menina adulterada


O que vem a seguir, no primeiro volume de “Blonde”, em ordem cronológica, é a transformação em objeto precoce do desejo masculino contra a vontade da garota órfã, ingênua e sorridente, de pele clara, que nasceu Norma Jeane Mortenson, em 1926. O nome foi uma homenagem de Gladys Baker (mãe solteira que, depois de ter o bebê, passou a sofrer de problemas mentais), às atrizes Norma Talmadge e Jean Harlow.

Sem Gladys, a garota sorridente passaria por vários orfanatos e lares adotivos, até o primeiro casamento, aos 17 anos, e daí às aulas de teatro antes de chegar às pontas em filmes em Hollywood. A explosão iminente do sucesso reforça na jovem estrela a preocupação com a qualidade, o que a levaria ao curso levado a sério no Actor's Studio de Lee Strasberg, na mesma turma em que também estavam outros predestinados futuros mitos do cinema – James Dean, Marlon Brando, Montgomery Clift, Paul Newman... 




Acima, Marilyn Monroe veste Dior,
em fotografia de Bert Stern, que também
registrou em um extenso ensaio as últimas
fotos da atriz em estúdio, em julho de 1962

 
Oates acompanha o passo a passo da trajetória de transformação de Norma Jeane em Marilyn Monroe, do corte e tintura nos cabelos à ascensão aos melhores papéis em troca de favores sexuais. O segundo volume do romance flagra a garota ingênua e sorridente em 1953, depois que chefões de estúdio a elegeram, mudaram seu nome (Marilyn foi um nome inventado na hora por Zanuck e Monroe era o sobrenome dos avós maternos de Norma Jeane) e tingiram de louro seus cabelos castanhos. Daí o “Blonde” do título.

É quando começa a escalada da fama em Hollywood e nos quatro cantos do planeta – época da célebre sessão de fotos nua na cama de cetim dando origem à cultuada primeira edição da Playboy e do sucesso conquistado, finalmente, como cantora e protagonista em “Torrentes de Paixão” (“Niagara”, 1953), um filme de Henry Hathaway, um diretor de prestígio entre os chefões dos estúdios de cinema.






Marilyn no Actor's Studio de Lee Strasberg,
em Nova York, fotografada por Elliot Erwitt,
em 1956. Acima, Marilyn e o efeito que sua
presença provocava em todos durante as sessões
de filmagem em Hollywood, em foto de Phil Stern.
Abaixo, fotografada por Elliot Erwitt nas filmagens
da cena lendária em O Pecado Mora ao Lado
 (The Seven Year Itch, 1955), de Billy Wilder


Do anonimato mais completo para os mais altos degraus da fama internacional, em apenas poucas semanas. Junto com o sucesso inesperado e crescente, ecoam para Marilyn as palavras do mestre Lee Strasberg, que não por acaso estão transcritas na orelha do romance “Blonde”: “Você deve construir mentalmente um círculo, um círculo de luz e atenção. Não deve permitir que a sua concentração o ultrapasse. Se o seu controle começar a perder força, deve recuar depressa para um círculo menor”.

Strasberg e a experiência de aprendizado no Actor's Studio ajudam Marilyn a equilibrar o sucesso e as armadilhas à espreita entre novas e infinitas propostas de trabalho. Ela queria seguir com seriedade a carreira de atriz, queria experimentar novas possibilidades no cinema e no teatro e começou a ficar irritada com a reprodução quase obrigatória da mesma personagem loura e ingênua que atiçava o imaginário sexual dos homens.






É nessa época, três anos depois de seu primeiro filme como protagonista, que ela toma a decisão radical de se mudar definitivamente de Hollywood para Nova York. Continuou seu contrato com os estúdios, continuava a se dedicar com toda atenção às atuações em comédias e musicais, mas decidiu dar um passo ousado que desagradou muito aos principais chefões de Hollywood: seguindo uma sugestão de Lee Strasberg, abriu sua própria produtora, a Marilyn Monroe Productions, que poderia realizar os filmes que ela própria escolhesse.

A Marilyn Monroe Productions teve curta duração e não alcançou nenhum sucesso estrondoso, mas até os críticos mais exigentes elogiaram alguns dos filmes que ela produziu – entre eles “Nunca Fui Santa” (“Bus Stop”, 1956), com direção de Joshua Logan), e “O Príncipe Encantado” (“The Prince and the Showgirl”, 1957), dirigido e coestrelado por Sir Laurence Olivier, filmes importantes para Marilyn mostrar seu talento e versatilidade como atriz. Em 1959, acontece o auge de seu affair com críticos de cinema do mundo inteiro: Marilyn canta, dança, brilha e faz comédia em “Quanto Mais Quente Melhor” (“Some Like It Hot”), de Billy Wilder, e tem seu trabalho reconhecido ao vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz.






Marilyn Monroe em preto e branco 
e em cores: no alto, em maio de 1957,
fotografada por Richard Avedon;
acima, em dois registros feitos por
Alfred Eisenstaedt em 1953
 


A imagem de Marilyn Monroe, figura das mais fotografadas e reproduzidas em nossa época, também seduz os grandes fotógrafos do século 20. Pauta obrigatória em sua época para o cotidiano do fotojornalismo, Marilyn foi personagem de portraits e ensaios assinados por um batalhão de primeiro time que inclui, entre muitos outros, Richard Avedon, Cecil Beaton, Henri Cartier-Bresson, Robert Frank, Weegee, Gary Winogrand, Philippe Halsman, Milton Greene, Eve Arnold, Elliot Erwitt, Bert Stern, Phil Stern ou Tom Kelley, o fotógrafo amador que registrou, em 1949, a célebre sessão de fotos na cama de cetim e que passou à condição de celebridade, anos depois, quando a garota chamada Norma Jeane foi transformada em Marilyn Monroe.

A garota recebeu apenas 50 dólares de Tom Kelley pelas poses eróticas em 1949. E o fotógrafo principiante teve certeza de que fez um bom negócio quando conseguiu vender toda a série por mil dólares para a Western Lithograph Company. Porém, teve de se contentar apenas com os créditos de autoria quando as mesmas imagens trouxeram fama e fortuna para Hugh Hefner, em 1953. Hábil negociante, Hefner aproveitou o nascimento da estrela Marilyn Monroe e elegeu as fotos de Tom Kelley, à venda pela WLC, para estamparem capa e páginas inteiras da primeira edição da revista “Playboy”, pioneira no mundo inteiro na exibição de fotografias de mulheres nuas.




 




Três das fotografias favoritas de Marilyn: 
com uma rosa (por Cecil Beaton, 1956);
o close-up capturado por Eve Arnold durante
as filmagens de Os Desajustados (1961); e com

a câmera, no estúdio de Bert Stern, em 1962

Muitos acreditam que as fotografias de Marilyn estejam entre as imagens mais reproduzidas em nossa época. É possível. Mas nesta extensa galeria é preciso destacar que ela própria fez anotações sobre algumas de suas fotografias favoritas: a pose colorida com sombrinha na praia (registrada por Andre De Dienes em 1949), a imagem em preto e branco com uma rosa (por Cecil Beaton, em 1956), o retrato de bailarina (por Milton Greene, 1956), o close-up pelas lentes de Eve Arnold durante as filmagens de "Os Desajustados" ("The Misfits", John Huston, 1961), os últimos portraits registrados por Richard Avedon, a imagem com a câmera no último ensaio em estúdio (por Bert Stern, 1962), a única imagem com Gladys Baker, em 1929.

Também é importante reconhecer que uma sequência das mais populares e emblemáticas na galeria de retratos de Marilyn, por certo, são as gravuras de Andy Warhol, que passariam do ateliê do artista para a impressão nos mais diversos suportes e daí à história da arte. Warhol não tirou ele mesmo as fotos: assim que a morte da estrela foi noticiada, em agosto de 1962, ele se apropriou de uma imagem de 1953, de Frank Powolny, e passou a testar variações cromáticas em silkscreen. As serigrafias de Marilyn sobre tela produzidas por Warhol ainda hoje são impressionantes: transformam as fotos publicitárias do rosto da estrela em um ícone quase religioso, provocando reflexões sobre o efêmero e sobre o culto moderno ao consumo, ao sexo, às celebridades.





Exposição da série de serigrafias de Marilyn 
criadas por Andy Warhol, na Sotheby's. Abaixo,
Marilyn canta Happy Birthday para o presidente
JFK, no Madison Square Garden, em 1962. No 
final da página, Marilyn na sua última cena filmada
em estúdio, no inacabado Something's Got to Give,
que estava no início da produção, em agosto de 1962,
com roteiro e direção do veterano George Cukor


Contudo, se é inegável que Marilyn era extremamente fotogênica, também é preciso reconhecer: o mistério que emanava de sua presença e que a fazia tão magnética não vinha apenas de sua beleza. Ela não era simplesmente uma moça bonita que posava como modelo fotográfico: era uma atriz surpreendente, uma comediante como poucas e uma cantora tão carismática quanto os grandes nomes que chegaram ao panteão do jazz. O som e o ritmo de sua voz, a mobilidade expressiva de seu rosto, a maneira como falava e movimentava o corpo dimensões que podiam ser capturadas apenas em filme – é o que constituia e ainda constitui sua sedução. 

Mesmo diante de protagonista tão espetacular, "Blonde” tem fôlego e alcança, no suporte da literatura, a mesma dimensão transcendental para o registro mundano que tanto Warhol, quanto alguns grandes fotógrafos e uns poucos diretores conseguiram registrar na presença de Marilyn, aliás Norma Jeane. Como era de se esperar, as últimas páginas do romance de Joyce Carol Oates descrevem os últimos dias da estrela.







A versão oficial da história diz que ela cometeu suicídio aos 36 anos, ao ingerir alta quantidade de barbitúricos, analgésicos e anfetaminas. Oates, como outros autores que se dedicaram a contar a história de Marilyn, contestam essa teoria. Argumentos não faltam, baseados em muitas evidências e nos depoimentos de testemunhas que estiveram próximas de Marilyn naquela noite e que, curiosamente, não constam no prontuário médico nem no boletim de ocorrência policial registrado naquela data em Los Angeles.

Depois de muito batalhar como figurante ou corista em mais de uma dúzia de pequenas participações, Marilyn Monroe viveria, enfim, uma década inteira de glória no auge do estrelato. Quando veio a morte trágica, em 1962, com ingredientes explosivos de drogas e política, Marilyn já estava aprisionada para sempre na imagem irresistível de estrela glamurosa e de símbolo sexual. Uma imagem que ainda persiste e impressiona, mesmo reproduzida ao infinito.


por José Antônio Orlando.



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18 comentários:

  1. Sou egoísta, impaciente e um pouco insegura. Cometo erros, sou um pouco fora do controle e às vezes difícil de lidar, mas se você não sabe lidar com o meu pior, então com certeza, você não merece o meu melhor...
    Esta frase que copiei aí no alto está num pôster de Marilyn que tenho em meu quarto desde meu aniversário de 10 anos. Foi presente de minha madrinha e hoje, já adulta, percebo a importância que este simples pôster e uma simples frase tiveram nos caminhos que tomei na vida...
    Seu blog é o máximo, José Antônio Orlando. Nunca encontrei nada igual, tão bacana e de tão alto nível. Virei fã de carteirinha a partir desta primeira visita. Beijos e tudo de bom que houver nesta vida para você!

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  2. Sérgio Ricardo dos Santos10 de novembro de 2012 13:44

    Não tinha visto um artigo tão bonito e tão esclarecedor sobre o mito MM. E nunca tinha encontrado um site como este Semióticas: perfeito e instigante. Parabéns, José. Tudo por aqui é um show!!!

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  3. Vivianne D Alessandro11 de novembro de 2012 11:25


    Preciso registrar que estou encantada com seu site. E peço desculpas pelo meu português ruim de visitante porteña. Maravilha seu artigo sobre Marilyn. Traz a edição de imagens mais inteligente que já encontrei e um texto impecável, mistura de reportagem com perfil biográfico e com toques de literatura. Ter um texto como o seu no clipping sobre um livro é o sonho de todo autor.
    Faço atualmente uma pesquisa de pós-graduação sobre Andy Warhol, com ênfase nos retratos de Marilyn Monroe, e por isso peço sua contribuição. Seu artigo, como he escrito al principio del mesaje, é uma maravilha e já está lançado na bibliografia da dissertação. Enviei para seu e-mail semioticas@hotmail.com o questionário que remeto para 50 jornalistas e professores universitários para quantificar a percepção de cada ícone. Conto com su partición e desde agora agradeço muito.

    Vivianne D'Alessandro

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  4. Você construiu um artigo dos mais interessantes, que acrescenta informações preciosas sobre o mito MM. Além do texto, impecável, a seleção de imagens apresenta uma trajetória completa. Sua página entrou agora em destaque na minha monografia de conclusão de curso. Mas também merece estar na seleção de melhores perfis já publicados sobre a estrela. Parabéns demais. Virei seu fã e leitor de carteirinha do site.

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  5. Marlena de Oliveira3 de dezembro de 2012 19:12

    Adorei. Este Semióticas é sempre um espetáculo e com Marilyn então, chegou ao auge. Só que a página seguinte que você publicou, sobre Banksy, consegue ser ainda melhor, e a seguinte, sobre o Picasso, de novo é ainda melhor, superação total. O céu é o limite?
    Aguardo pelas próximas, José, e desejo a você toda a boa sorte do mundo. Sou grata por tantos textos e imagens maravilhosos. Beijos, beijos!

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  6. Muito bom seu trabalho; parabéns!!

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  7. Excelente !!! A qualidade do texto e das imagens permite vislumbrar o mito e o ser humano que o acompanha. Parabéns!!

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  8. Sério que nunca encontrei em lugar nenhum uma matéria tão completa e tão bem escrita sobre Marilyn. E que fotos!
    Seu blog é maravilhoso, José. Textos perfeitos, imagens lindas. Virei fã e visitante diário a partir de hoje. Parabéns!!!

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  9. Estou muito emocionado de ver e ler esse artigo! Que belo presente você nos ofereceu! Mto obrigado!

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  10. Maria Adélia Brito18 de março de 2013 11:04

    Do anonimato mais completo para os mais altos degraus da fama internacional, em apenas poucas semanas... Juro que fiquei emocionada com seu texto e estas imagens tão lindas e maravilhosas de Marilyn. Seu blog é um espetáculo. Ponto. Isso não se discute.
    Parabéns, José. Ganhou mais uma fã de carteirinha e muito grata.

    Maria Adélia Brito

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  11. Mariana Gonçalves2 de setembro de 2013 13:44

    Nossa, José. Que coisa mais linda. Fiquei até arrepiada com este estudo sobre minha diva Marilyn. Mas TODAS as outras páginas do seu blog também são lindas. Viva o Semióticas!

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  12. Não sei por qual motivo ainda fico surpresa. Cada visita que faço a este seu blog me deixa sempre emocionada e encantada. Essa matéria sobre Marilyn, então, Jesus!...
    Só posso agradecer. Muitos parabéns a você, José, por tanta beleza e sabedoria.

    Elaine Dias

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  13. Cristina Melo Campos2 de julho de 2014 09:23

    Sensacional. Virei fã na primeira visita que faço. Parabéns demais!
    Cristina Melo Campos

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  14. Que espetáculo! Parabéns por esta matéria maravilhosa e pelo blog todo que é uma maravilha. Sou fã.

    Sylvia Patricia

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  15. Caroline Machado6 de junho de 2016 17:00

    Adorei. Aprendi mil coisas que não sabia sobre minha diva das divas. Juro que fiquei emocionada. Texto excelente, imagens maravilhosas. Parabéns pelo blog, Semióticas. Ganhou mais uma fã de carteirinha.

    Caroline Machado

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