terça-feira, 19 de julho de 2011

Alice vai ao futuro






Quando, em 1865, o matemático inglês apaixonado por jogos e enigmas e pioneiro da fotografia Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898), hoje conhecido pelo pseudônimo de Lewis Carroll, publicou o romance "Alice no País das Maravilhas", encontrou um sucesso inesperado e também muitos problemas. A começar pela primeira edição, de 2 mil exemplares, que mal saiu da gráfica, na época, e foi recolhida pelo ilustrador John Tenniel, sob a alegação de que a qualidade da impressão estava ruim.

Tenniel, patrocinador, destruiu a maioria dos livros. A edição seguinte, bancada pelo próprio professor Dodgson, esgotou em pouco tempo e rendeu ao autor um processo por ir contra os bons costumes e escrever um livro incompreensível. Depois vieram outras edições, mas os poucos exemplares que sobreviveram daquelas primeiras tiragens hoje são guardados a sete chaves. Em 1998, um deles foi leiloado por US$ 1,5 milhão. 

O livro foi escrito pelo professor Dodgson com exatas 36 mil palavras, a pedido de Alice Pleasance Liddell, uma garotinha que na época tinha 10 anos e que era filha do reitor da escola onde Dodgson lecionava. O retrato de Alice Liddell, a fotografia mais conhecida do professor Dodgson (reproduzida acima), está completando 150 anos.



Acima e abaixo, ilustrações da edição britânica
da década de 1960 que fez homenagem ao
centenário da primeira edição do clássico
Alice in Wonderland; e Alice Pleasance Liddell
aos 8 anos, em fotografia de Lewis Carroll
 datada de julho de 1860. Na imagem do alto,
Alice, em tradução, desenhos e projeto gráfico
que o designer mineiro Rafael Resende
realizou a partir do texto original e das
ilustrações incluídas na primeira edição
do livro clássico de Lewis Carroll







Charles Lutwidge Dodgson era amigo da família e se dizia perdidamente apaixonado pela inteligência de Alice, a quem fotografava com certa frequência. Durante um passeio de barco no rio Tâmisa, com Alice e outras crianças, o professor contou uma história engraçada e de puro nonsense sobre uma garotinha que segue um coelho e começa a viver uma aventura fantástica. Anos depois de sua morte, o professor Dodgson ganharia popularidade no mundo inteiro com seu pseudônimo: Lewis Carroll, autor de “Alice no País das Maravilhas”.

Apaixonado por magia, ilusionismo e todo tipo de jogos, Dodgson gostava de teatro e era frequentador de ópera. Nunca se casou, mas manteve uma relação amorosa por toda a vida com a atriz Ellen Terry, o que também escandalizava a sociedade de sua época. Algumas das acusações que se fazia ao professor Dodgson perduram até nossos dias – a mais cruel delas é que ele tinha um comportamento obsceno e pedófilo. 





A acusação vem da amizade que o professor mantinha com Alice e outras garotinhas, mas tudo não passava de suspeitas: nunca ficou provado nenhum delito contra ele. As amizades eram aprovadas pelas famílias e algumas também autorizaram Dodgson a fotografar as garotas. Mas ele temia que a divulgação das imagens pudesse causar problemas às famílias e às crianças, motivo pelo qual pediu em testamento que, após morte, todas as fotografias fossem destruídas ou devolvidas às crianças e a seus pais.

Algumas das fotos de Alice e das outras meninas, por sorte, sobreviveram e foram reunidas em 1995 no livro publicado por Carol Mavor, “Pleasures Taken - Performances of Sexuality and Loss in Victorian Photographs". Versão da tese acadêmica que a autora apresentou na Duke University, o livro apresenta um estudo sobre as fronteiras entre a arte e o obsceno a partir das primeiras fotografias produzidas na Inglaterra sob o reinado da austera e puritana Rainha Vitoria (1819-1901).

A partir da análise das fotografia de Dodgson e outros pioneiros, Carol Mavor faz uma defesa veemente da arte e da personalidade do autor de “Alice no País das Maravilhas”, descrito como alguém muito à frente de seu tempo. O livro de Carol Mavor inclui uma seleção de imagens surpreendentes, como a foto da menina Evelyn Hatch, fotografada por Dodgson em 1878 totalmente nua.
















No alto, a capa da primeira edição do livro
de Carol Mavor. Acima, a pequena
Evelyn Hatch, que foi fotografada por
Lewis Carroll em 1878 totalmente nua.
Acima, ilustrações da edição britânica para
o centenário de Alice; e The Elopement,
de 1865, um dos vários estudos fotográficos
refeitos por Lewis Carroll durante décadas.
Abaixo, Alice Liddell (à direita) e suas
irmãs fotografadas por Dodgson em 1858











As edições brasileiras já reuniram as obras completas de Lewis Carroll, à exceção de seus estudos de lógica e matemática e dos seus manuais manuscritos com instruções sobre passes de mágica e truques de ilusionismo – alguns dos quais se tornaram muito comuns no mundo inteiro, como a modelagem de um camundongo com um lenço para em seguida fazê-lo pular misteriosamente com a mão e as dobraduras para fazer chapéus e barquinhos de papel. 

Além de “Alice no País das Maravilhas” e “Alice no País do Espelho”, foram publicados no Brasil “Algumas Aventuras de Silvia e Bruno”, “Rimas no País das Maravilhas”, “A Caça ao Turpente” e “Obras Escolhidas”, coletânea de seus contos e histórias curtas. Outro livro, o mais polêmico de todos, foi publicado em 1997 pela editora 7 Letras: "Cartas às suas amiguinhas", que como indica o título reúne o conteúdo das cartas de Lewis Carroll às meninas com quem ele se relacionou. Nas cartas, o autor revela a mesma personalidade, tão ingênua quanto enigmática, que consagrou na literatura universal a presença de Alice.





Piadas e trocadilhos visuais
 

Traduzidas para mais de 50 línguas, as incríveis aventuras da garota que foi parar em um mundo inacreditável após cair na toca do coelho ganharam muitas versões e variantes pelo mundo afora. A mais recente, dirigida pelo cineasta norte-americano Tim Burton, entusiasta do fantástico e do sobrenatural, dividiu opiniões – exatamente como tem sido há décadas e décadas com o próprio livro de Lewis Carroll, que já provocou processos e acusações delirantes de pedofilia, má influência, elogio da loucura e outras blasfêmias.

O teor mais provocante das aventuras de Alice, contudo, perde-se inevitavelmente nas traduções. Muitos enigmas e situações ambíguas contidos no livro são quase que imperceptíveis para os leitores atuais, com suas tiradas filosóficas e por vezes absurdas, suas palavras-valise (“alicinações” é uma delas) e suas muitas referências cifradas, incluindo as piadas e os trocadilhos lógicos que só fazem sentido na língua inglesa. 


 



Nas livrarias e na cultura pop, quase 150 anos após a primeira edição do clássico de Lewis Carroll, viagens ao mundo dos sonhos, monstros, seres encantados, magia e poderes sobrenaturais – que por incrível que pareça provocaram a repulsa sobre Alice de muitos leitores e críticos mais puritanos no último século – nunca fizeram tanto sucesso, incluindo a saga milionária saída dos livros com as aventuras do bruxo adolescente Harry Potter, que descobre um outro mundo quando entra para uma escola de magia, e dos romances da saga "Crepúsculo", sobre a garota que cai em um mundo fantástico e delirante, povoado de criaturas surreais, quando descobre o amor por um vampiro.

Recentemente, a publicidade do filme de Tim Burton sobre "Alice no País das Maravilhas" (foto abaixo) impulsionou e continua impulsionando o lançamento de novas edições e novas versões do clássico da literatura fantástica assinado por Lewis Carroll. Entre os muitos lançamentos, algumas edições são dignas de nota, entre elas a versão do artista plástico Luiz Zerbini (editora Cosac Naify), com ilustrações autorais feitas com maquetes de cartas de baralho de diversos países.

Também merecem destaque, entre vários outros, o mineiro de Belo Horizonte Rafael Resende, com “Alice” (editado pela 2 Pontos Wide Business); o espanhol Iban Barrenetxea, premiado em 2010 pela Sociedade Lewis Carroll do Reino Unido por sua coleção de aquarelas baseadas na história original e publicadas em uma edição de "Alice" pela editoria Anaya (Espanha); e a uruguaia Verónica Leite, com “Uma história para Alice” (Editora Melhoramentos), autores de trabalhos surpreendentes que dialogam com o original de Lewis Carroll e estendem as fronteiras da história que todos sabemos de cor e salteado.














Alice vai ao futuro: acima, Tim Burton 
durante as filmagens de Alice (2010), que teve
a atriz australiana Mia Wasikowska no papel
principal. Abaixo, Alice, a Lebre Maluca e o
Chapeleiro Louco em uma das ilustrações
do espanhol Iban Barrenetxea, que foi
premiado em 2010 pela Sociedade
Lewis Carroll do Reino Unido






Escrita, ilustrada e apresentada em belo projeto gráfico – cheio de inovações inteligentes e saborosas – pela premiada autora e ilustradora de livros infantis Verónica Leite, a edição de "Uma História para Alice" tem surpresas inteligentes para leitores de todas as idades que atualizam as incontáveis ironias e alegorias com palavras e números inventadas por Lewis Carroll. 

Autora de "El Mandado del Tatú" e "Un Misterio para el Topo", premiados no Uruguai, seu país de origem, Verónica Leite investe no contexto histórico da Inglaterra da era vitoriana, em que foi criado o texto mais célebre de Lewis Carroll, e aposta principalmente na inteligência do leitor, acrescentando um "antes" e um "depois" à narrativa sobre a "viagem" delirante de Alice.





Acima, Alice Pleasance Liddell aos 6 anos,
 em 1858, em fotografia de Lewis Carroll.
Abaixo, Alice no País das Maravilhas
na versão do artista plástico brasileiro
Luiz Zerbini, que em 2010 lançou em livro
sua tradução do clássico de Lewis Carroll
com ilustrações autorais feitas de maquetes
de cartas de baralho de diversos países;
e a ilustração da capa de Uma História
para Alice, da escritora e ilustradora
uruguaia Verónica Leite: muito humor e
enigmas cifrados para crianças e adultos







O livro-álbum de Verónica Leite, que traz enigmas visuais para o leitor adulto, por certo vai encantar os pequenos ao brincar com forma e conteúdo para contextualizar a origem da história: o passeio de barco no rio Tâmisa do professor Dodgson com a pequena Alice Liddell, sua preferida, na época com 10 anos, e suas duas irmãs, Edith e Lory. 

Verónica reconstitui a cena, diálogos, trajeto, até que a pequena Alice convence o professor a escrever aquela história mirabolante de números, cálculos, sonhos e seres inacreditáveis. À viagem de Dodgson e de Alice pelo mundo da lógica e da matemática, a nova versão de Verónica Leite acrescenta citações sofisticadas e bem-humoradas.

Bem no espírito da narrativa original, a autora investe em detalhes à margem das páginas: à Rainha Vitória, símbolo do moralismo extremado da época em que viveram Alice Liddell e o professor Dodgson, e a grandes escritores dos domínios do fantástico e do mundo maravilhoso dos sonhos que vieram antes e depois dele, entre eles Shakespeare, Swift, Freud, Borges, mais The Beatles (que adaptaram a história de Alice e Dodgson em “I Am the Walrus”) e os mestres surrealistas Dalí, Chagall, André Breton, Magritte e Paul Klee. Um deleite inteligente – para cativar leitores de todas as idades.






O chapeleiro é louco e a lebre é maluca




Outra edição de “Alice”, produzida em Belo Horizonte por Rafael Resende, não é menos surpreendente e inteligente. Para comemorar seu aniversário de 10 anos, a 2 Pontos Wide Business lançou o livro em belíssimo projeto gráfico, desenvolvido pelo próprio Rafael Resende, que também traduziu o texto original e elaborou uma série de sofisticadas ilustrações (imagem abaixo).

Rafael, que trabalha como ilustrador, conta que o livro teve origem como projeto de graduação em Design Gráfico na UEMG. "Foi um presente esta proposta para editar o livro", comemora. Além da dedicação profissional às ilustrações, ele também trabalha como fotógrafo de eventos, incluindo aniversários, casamentos e formaturas. Uma amostra de seu trabalho está disponível no site www.rafaelresende.com.







Traduzida para o português, a "Alice" de Rafael Resende é fiel ao extremo ao original em inglês, repleta de trocadilhos e ironias sutis. A pesquisa de Rafael também avançou pela biografia de Lewis Carroll e da garota Alice Liddell, investigando sutilezas que virariam a inspiração do escritor para inventar a incrível personagem que segue um coelho branco e descobre um mundo onírico com estranhas criaturas depois de cair num buraco.

Perfeccionista, o designer de Belo Horizonte pesquisou a linguagem figurada do livro original de Lewis Carroll para representar expressões ligadas à cultura popular da época vitoriana. Na versão de "Alice" segundo Rafael Resende, personagens como o Chapeleiro Louco e a Lebre Maluca ganham sentidos insuspeitados e muitas vezes surpreendentes. Um deles: antigamente, na Inglaterra, os chapeleiros usavam mercúrio na confecção de chapéus e muitos deles sofriam de demência pelo contato excessivo com o produto. Enlouqueciam. 






Alice foi o primeiro projeto para um filme
de longa-metragem dos estúdios criados por
Walt Disney, ainda na década de 1920, mas
o projeto só seria concluído e lançado nos
cinemas em 1951, com uma colaboração
polêmica e não creditada de Salvador Dalí






Já a Lebre Maluca vem da sabedoria de um dito popular daqueles tempos, "louco como uma lebre de março": as lebres costumam procriar neste mês e, por conta do cio, ficam completamente descontroladas, em estado de euforia, à beira da loucura. Entre outras histórias saborosas que dialogam com o original de Lewis Carroll, Rafael Resende lembra, na entrevista, do filme que Walt Disney fez baseado nas aventuras da garotinha no país das maravilhas. Ele diz que sempre gostou muito do visual da versão Disney.

Lançado em 1951, “Alice” foi o primeiro projeto de Walt Disney, mas demorou décadas para ser concluído. A versão final, que teve problemas com a censura no Pós-Guerra, incluiu a colaboração não creditada e polêmica de Salvador Dalí. Mesmo não estando entre os maiores sucessos comerciais do mestre da animação, a “Alice” de Disney tem qualidades que sobreviveram ao tempo e continua encantando crianças e adultos de todas as idades. Tal e qual o estranho livro de Alice escrito por um certo professor Dodgson.



por José Antônio Orlando. 



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37 comentários:

  1. Nossa.. eu sabia que Alice tinha várias vertentes, mas não sabia que eram tantas, e cada uma mais curiosa que a outra. Fiquei interessadíssima em conhecer essa versão do Rafael Resende, mas não consigo encontrar. Vou ver se encontro em outro lugar além do site dele.
    Abraço

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  2. Professor, como sempre: sensacional!
    Parabéns!

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  3. Sabe o quanto me encanta o (sem)sentido que Lewis dá ao que escreve! Mas cega de amor, descontento-me com algumas versões, principalmente com as da Disney e mais ainda a de Tim Burton (dele gosto muito, mas vejo aí o filme menos "Burtoniano" possível).

    Quanto ao encantamento, digo que o senhor Dodgson conseguiu ser eterno e atemporal (apesar de enigmas da época, sarcasmos políticos, piadinhas internas entre outras alfinetadas ao seu tempo), ele é como a hora do seu chá maluco - deve ser relido como o chapeleiro senta na próxima cadeira, porque nunca é hora de terminar o chá.

    Dá espírito ao discurso, sobre o tempo (As portas são possíveis futuros (escolhas), e uma chave (você) as destranca. "O tempo é um Senhor e detesta ser desperdiçado". "E se você mantivesse boas relações com o Tempo, ele faria quase tudo o que você quisesse".), sobre paixão ("Em minha mente imaginei a Rainha de Copas como uma espécie de encarnação da paixão ingovernável, uma fúria cega e desnorteada" L.C)e sobre outras coisas...

    Encantamento maior ainda é a fuga da realidade, sonhar (favor, nunca ler ou dizer como "impossível") - é ver por outra (semi)ótica o que lhe parece comum.

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  4. Também não consegui encontrar a versão do Rafael Resente. Fiquei curiosa!

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  5. Domitila, que belo texto, hein? Até o professor Dodgson aprovaria... Uau!
    Sobre o livro do Rafael, ele mesmo está vendendo, através do site. É só mandar uma mensagem que ele responde. O livro dele é sensacional. Beijo para ti.

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  6. Olá, professor.
    Sugiro a leitura de um texto muito interessante ligando religião, Alice e Matrix.

    http://bulevoador.haaan.com/2011/01/19616/

    Voltando ao seu texto, não sei se podemos afirmar que seriam delirantes as acusações de pedofilia por parte de Carroll. Seu "amor" pela verdadeira Alice, pelo que li em algumas matérias sobre o livro/filme, seria, no mínimo, intrigante.
    Abraço.

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  7. Concordo com você, Marcelo Sander. Essa história de Dodgson e Alice é, no mínimo, intrigante.
    E fascinante, se você pensar que ela gerou um dos livros mais fantásticos da literatura, até hoje copiado e relido por gerações e gerações. O texto do bulevoador é mesmo muito bacana. Abração para ti.

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  8. Sophia Figueiredo20 de julho de 2011 14:20

    Olá José Antônio! Cheguei ao seu blog através do grupo de Cobertura do Festival de Jazz e não pude resistir a ler seu post sobre Alice. Sou uma fanática desde criança pelos labirintos da cabeça de Dogson e peço licença para deixar minha contribuição ao seu post, uma crônica que escrevi sobre o filme de Burton. Abraços!

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  9. Sophia Figueiredo20 de julho de 2011 14:23

    BURTON ATRAVÉS DO ESPELHO

    .

    Relutei até do caminho de casa até a porta do cinema se veria ou não o filme. Tá, eu queria muito muito, mas também estava morrendo de medo. Que diabos Burton teria feito com minha querida Alice? Os boatos e rumores e as opiniões dos críticos e amigos que viram na estréia tentaram perambular minha cabeça, mas eu me acomodei na fileira do Cinemark aberta, tranquila e disposta a ver o filme sem julgamentos prévios.

    Bom, preciso dar para vocês aqui um breve histórico. Alice surgiu dos passeios de barco de Carroll pelo Tâmisa com as filhas do deão da Christ Church, em Oxford, onde ele lecionava matemática, lá por meados de 1860. Alice Liddell era a caçula de três irmãs, que iam remando o barco e pedindo o reverendo que contasse histórias a elas “que tivessem muita esquisitice”. A publicação dessas histórias veio algum tempo depois, quando Carroll quis dar a Alice suas histórias reunidas e escritas.

    Portanto a história não tem começo e fim, objetivos, batalhas. Wonderland é puramente anarquista, e as criaturas que vivem por lá são frutos da cabeça de Carroll e do contexto que ele vivia, cheio de alusões satíricas dirigidas tanto aos amigos como aos inimigos, de paródias a poemas populares infantis ingleses ensinados no século XIX e também de referências linguísticas e matemáticas frequentemente através de enigmas que ele adorava, matemático que era. Mas tudo isso trabalhado em prol da máquina imaginária de uma criança, despretensiosa e ágil.

    Então eu menti aí pra cima. Quando sentei pra ver eu sabia que ele não ia dar conta de colocar Alice em uma hora e meia. Não daria conta daquele nonsense. Talvez daí minha reluta em vê-lo, sempre acreditei que o livro de Carroll te dá elementos mais que suficientes para que cada um crie sua própria fantasia e navegue por ela como bem entender.

    O caminho de Burton intencionou ser simples, deu recortes à história e montou como se pegasse o intenso quebra – cabeças e o colocasse às avessas. A Alice dele cresceu, o que eu já acho um absurdo tremendo, Carroll deve estar se revirando na cova. Resultante disso é que a Alice demora o filme todo para acreditar em Wonderland. Pior! A lagarta azul, transformada em uma espécie de guru diz à personagem que lá não é “o país das maravilhas”. Francamente!

    Como se não bastasse, Burton propõe uma guerra entre as rainhas, referência do segundo livro de Alice, Através do Espelho, que se baseia numa partida de xadrez. As rainhas não brigam. Alice, no livro, percorre o tabuleiro encontrando personagens e conhecendo o mundo do espelho até se se transformar também em rainha, na última casa.

    É claro, meus queridos, que as criaturas do livro não são nada simpáticas ou acolhedoras. Elas exigem da criança sempre astúcia e inteligência e adoram enigmas. Mas Alice também não é uma menina comum. Mas quanta violência no filme! A rainha vermelha do diretor realmente corta as cabeças de todo mundo de cabo a rabo. Se Burton é sinistro, e eu adoro sua sinistrice, em Alice infelizmente ele não soube trabalhar essa ferramenta.

    O Chapeleiro está sentimental e bastante são para quem foi inspirado nos artesãos lesados pelos efeitos do mercúrio, ossos da profissão. E cadê o Humpt Dumpty?? O ovo que fica equilibrado no muro e não sabe responder se está usando um cinto ou uma gravata? Se Burton queria briga, quem levou foi o poema do Jabberwocky, o Jubjub Bird e o Bandersnatch, Capturadam em tradução. Personagens secundários em Alice, um poema destacado muito mais, aliás, pelo jogo de palavras de Carroll:

    ‘Twas brillig, and the slithy toves
    Did gyre and gimble in the wabe:
    All mimsy were the borogoves,
    And the mome raths outgrabe.

    “Solumbrava (caía a tarde), e os lubriciosos (escorregadios) touvos (uma espécie de texugo com cauda e focinho enrolados feito abridores de vinho)
    Em vertigiros persondavam (perfuravam) as verdentes ;
    Trisciturnos (tristes) calvam-se os gaiolouvos (ave que se parece um esfregão vivo)
    E os poverdidos (porcos verdes perdidos) estriguilavam (guinchavam) fientes.”

    ...

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  10. Sophia Figueiredo20 de julho de 2011 14:24

    Essa primeira estrofe abre e também encerra o poema do Jabberwocky, dando sustentação de cena e abrindo o lúdico para que venham as criaturas horrendas, o Jabberwocky e os outros, detalhe que Burton simplesmente resolveu deixar de fora, colocando o Jabber-baby-wocky da rainha vermelha como a coluna de sustentação da sua tirania. O jogo de palavras Jabber-baby-wocky é aliás, a coisa mais legal do filme, ou o que é mais carroliano.

    Em suma, meus amigos. Leiam os livros de Alice sem ilustrações e tenham sua Wonderland como referencial. Independente do que façam por aí.

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    Respostas
    1. Bela crônica, Sophia Figueiredo, criativa e inteligente, adequada às viagens de Alice contadas pelo professor Dodgson... E Alice tem tudo a ver com os improvisos do jazz: a maior parte dos enigmas do livro vêm da gramática e da matemática, mesmos domínios por onde se desenvolve a melhor música... grato pelo acréscimo de qualidade e seja sempre bem-vinda...

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  11. SENSACIONAL O BLOG!
    ABS,
    CONRADO ALMADA.

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  12. valeu, meu caro Conrado Almada. vindo de você o elogio ganha proporções de privilégio. grande honra merecer leitores assim de alto nível. abração para ti.

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  13. Primo, fiquei fascinada! Desde criança, sempre fui louca pela história da Alice! E gostava justamente por ela ter uma série de passagens - e personagens - surreais e deliciosos. Depois de ler seu texto, meu coração até doeu de alegria! Viajei na minha visão infantil da história misturada às interpretações que acumulei ao longo do tempo e com o que você escreveu agora. Resultado: aumentou meu fascínio!
    Parabéns, meu caro! Muito bom o texto!
    Elisângela Orlando.

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  14. Valeu prima! As altas literaturas, a grande arte, têm mesmo esse poder de causar sensações e provocar o aprendizado pela experiência do outro e de nós mesmos. Alice vai ao futuro... Um beijo para ti!

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  15. Alice no país das maravilhas é muito mais do que todos esperam de uma narrativa de história infantil. Problemas de lógica divertidos (os relógios loucos de Carroll), jogos de palavras e adivinhação, charadas sem respostas aos jogos de linguagem que constantemente interrompem as aventuras. A aventura de Alice condensa uma vontade humana de romper com o pré-estabelecido, evidencia aspectos absurdos e incoerentes do comportamento dos adultos.
    Zé, seu blog é muito mais que um blog, nos faz viajar em um mundo abilolado. Sucesso Sempre!

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  16. Preciso dizer que, quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então...

    querida Chris, a frase acima, do "Alice", vale para o que você comentou. e ohhh, que maravilha de elogio... tomara que eu seja merecedor... concordo com você que tem alguns capítulos de arte e literatura que ultrapassam o tempo e o que se espera, à primeira vista. "alice" é um destes capítulos, com sua poesia de invenção e descobertas quase infinitas. é o que faz falta em nossa época: utopia para criar um mundo melhor. o livro e muitas frases do livro do Lewis Carroll traduzem essa utopia à perfeição, do tipo: "A única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível" beijos, Chris Lanza. aguardo novas visitas e comentários...

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  17. Penso que: todo gênio é tachado de louco e incompreendido. Ser processado por escrever algo que os outros não compreendem? ahahahaha. Então: esse não era seu público-alvo.

    Como sempre, uma excelente leitura. Obrigada.

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  18. Professor,

    Fantástico o texto! O blog está excelente! Bom demais poder acompanhar os seus textos por aqui!
    Forte abraço,

    Edu Junqueira

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  19. Parabéns pelo blog, amigo. Um espaço muito bem compartimentado para a sua literatura.
    A nossa literatura. A literatura universal. Era o que esperar de um talento como o seu.
    Sucesso!
    Leida Reis

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  20. Professor, sempre apresentando ótimos textos e intrigantes imagens para nós apreciadores deste fantástico blog.
    Muitos adjetivos, mas tenha certeza que são todos indispensáveis para descrever o que vejo por aqui!

    Um grande abraço,
    Joyce

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  21. Outra edição belíssima é da Cosac Naify, ilustrada pelo Luiz Zerbini.

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  22. Silvana de Almeida10 de março de 2012 09:57

    Lendo essa página maravilhosa de seu blog genial lembrei de uma das milhares de frases incríveis que Lewis Carroll registrou na viagem de Alice ao País das Maravilhas. Uma frase que com certeza você conhece, José, mas que, acredito, merece figurar nesta beleza que é "Alice vai ao futuro":

    Cuide do sentido e as imagens e os sons das palavras cuidarão de si mesmos...

    Não é genial? Um beijo e boa sorte, mestre. E que os Céus retribuam sua generosidade sem tamanho!...

    Silvana de Almeida

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  23. Professor José Antônio Orlando, como vai?
    Faz pouco tempo que visito seu blog, o conheci pelo Facebook.
    Quando vi um link para esse post sobre Alice, imediatamente acessei para ler, sou fã de Alice!
    Gostei muito do texto, das explicações e da perspectiva histórica.
    Humildemente gostaria de compartilhar um artigo que escrevi em parceria com dois outros pesquisadores e foi apresentado no Intercom. O artigo trata sobre a Alice de Tim Burton, muito contemporânea, quase que "traduzindo" os dilemas hipermodernos. Link: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2010/resumos/R5-2301-1.pdf
    Parabéns pela qualidade dos textos e obrigada por compartilhar seu conhecimento.

    Andrea Meneghel

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  24. José, já visitei seu site outras vezes e sempre gostei muito do que encontrei, os textos perfeitos, muito inteligentes e a edição de fotos muito linda. Mas só agora cheguei nesta página sobre Alice e fiquei fascinada. A página é tão boa, mas tão boa, que até os comentários dos leitores são encantadores e acrescentam informes deliciosos em muitas direções.
    Parabéns, de novo, desta sua leitora devotada e encantada com seu trabalho de mestre.

    Denise Andrade

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  25. Alice é uma história fantástica, que dá margem a tão diversificadas adaptações cinematográficas e projetos gráficos incríveis de reedições comemorativas. E eu adoro observar as diferentes interpretações gráficas feitas ao longo do tempo!

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  26. Maria Paula Vivacqua9 de maio de 2012 16:57

    Estou arrepiada. Acho que nem quando li pela primeira vez o livro do Lewis Carroll fiquei tão impressionada com a história e com tudo o que ela sugere. Só mesmo você, professor, para revelar estes lances mirabolantes e simbólicos por traz da grande literatura que é "Alice". Seu blog é o máximo. Beijos!
    Maria Paula Vivacqua

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  27. Lisandra de Paiva27 de junho de 2012 13:56

    Amei seu blog e estou completamente encantada com esta página sobre Alice. Nunca vi a literatura e a personalidade do autor Lewis Carroll ser tratada com tanta dignidade e sabedoria. Amei.

    Lisandra de Paiva

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  28. Excelente o texto de José Antônio Orlando! Qual o melhor adjetivo? Fantástico!

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  29. Parabéns por esta maravilha de blog, meu querido José Antônio Orlando. Poucas vezes encontrei textos tão refinados e imagens tão inspiradas. Só estes dois ensaios sobre Alice ("Alice vai ao futuro" e "Alice volta ao futuro") já mereciam todo destaque e elogios. Mas você vai além e apresenta outros estudos cada um melhor que o outro. Parabéns, parabéns! Virei sua fã e hóspede de visitas diárias a este Semióticas...

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  30. Tenho um projeto maravilhoso que quero desenvolver sobre Alice e um famoso pintor. Meu objetivo é fazer um mestrado. Se o senhor se interessar, meu nome é Pedro Gagliardi, tenho 25 anos e moro em POA. Meu e-mail é pegagliardi@gmail.com.

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  31. Emília Moretzon2 de abril de 2014 09:01

    Bom dia, José. Amo seu blog com força! Parabéns!

    Emília Moretzon

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  32. Encho a boca de prazer para dizer: Suprema honra te ler!

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  33. Estou encantada. Acho que eu também enlouqueci, igual à Lebre de Março, quando descobri este seu blog Semióticas. Parabéns, José Antônio Orlando. Que espetáculo que é o seu trabalho!!! Rafaela Barrozo

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  34. Maria de Fátima Gontijo11 de julho de 2015 10:07

    Que blog mais super-lindo e que aula maravilhosa sobre minha amada Alice! Virei fã nesta primeira visita e vou ter que voltar todos os dias, porque já vi que tem aqui outras matérias que parecem saídas de um sonho bom. Agradeço demais. Parabéns, José. Amei.

    Maria de Fátima Gontijo

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  35. "Alice" será uma leitura indispensável e sempre atual. E os detalhes enriquecedores que você acrescentou, fizeram toda a diferença em seu texto porque deixou a leitura mais saborosa e surpreendente.
    A magia da literatura - assim como nas artes em geral- abre as portas para um olhar mais humano diante da vida e de outro ser humano.
    Para mim, os comentários todos são tão importantes quanto seus textos. Leio tudo. Quando releio cada texto, releio tudo novamente.
    Em seus textos há comentários muito relevantes e bacanas; mas, ouso dizer que, neste de "Alice", eles atingiram um grau de excelência extraordinário. Mas isso é fruto e reflexo de sua dedicação e pesquisa ao dar corpo a seus textos, sempre em altíssimo nível.
    Que você tenha muita inspiração para continuar escrevendo textos sublimes e impecáveis. E a nós, seus leitores(as), saboreá-los todos com muito gosto.
    Vida longa para seu blog Semióticas incrível.
    Beijo, querido José Antônio Orlando.

    Edi Lopes

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  36. Alice é uma personagem complexa que surpreende sempre. Gostaria de ver e ler com cuidado as passagens com os trocadilhos em inglês. Abraço a todos e bons ventos em 2017.

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