sábado, 2 de fevereiro de 2013

Bodas do 'boom'







Tenho me perguntado muitas vezes:
escreveria ainda se me dissessem,
hoje, que amanhã uma catástrofe
cósmica destruirá o universo,
de modo que ninguém poderá 
ler aquilo que hoje escrevo?
(Umberto Eco)





Foi no início da década de 1960 que leitores do mundo inteiro tiveram as primeiras notícias sobre grandes escritores de países da América Latina. Surgiam nomes como os argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, o colombiano Gabriel García Márquez, os peruanos Carlos Castaneda e Mario Vargas Llosa, os cubanos José Lezama Lima e Guillermo Cabrera Infante, os mexicanos Juan Rulfo e Octavio Paz, os chilenos Pablo Neruda e Violeta Parra, o paraguaio Augusto Roa Bastos, os uruguaios Mario Benedetti e Juan Carlos Onetti ou os brasileiros João Guimarães Rosa, Jorge Amado e Clarice Lispector, entre outros.

A novidade: a literatura que estes autores apresentavam a leitores da Europa, dos Estados Unidos e de outros países era diferente e imprevisível. Mas, ao mesmo tempo, trazia semelhanças com clássicos da Literatura Universal, com recursos do fantástico e do mundo das fábulas a conduzir narrativas primorosas sobre a vida real nos trópicos, na periferia do capitalismo, nos confins da América Central e da América do Sul, com seus impasses rurais e urbanos de toda ordem.

O inumano, a metalinguagem e seres do mundo da imaginação invadiam poemas, contos e romances de crítica à realidade social – daí a definição que abarcaria grandes autores e obras da América Latina daquele momento: o “boom” do Realismo Mágico ou Realismo Fantástico. Sobre todos, há pelo menos um consenso: Borges, que foi um dos patronos e antecessores do grupo. Com seus textos híbridos entre ensaio e ficção, em que o assunto é quase sempre a própria literatura, reunidos em livros como “Ficciones” (1944) e “El Aleph” (1949), Borges é o primeiro nome do “boom” a alcançar tanto o leitor médio quanto a crítica acadêmica do Primeiro Mundo (veja mais em "Semióticas: Outros Borges").





Gigantes no "boom" do Realismo Mágico:
no alto, Cortázar em Paris, em 1964,
no quarto de trabalho e às margens do
Rio Sena, fotografado por Pierre Boulat.
Acima, Borges em Buenos Aires e
em Nova York (abaixo), em 1969,
fotografado por Diane Arbus



Mais de uma década depois das primeiras edições de seus livros em espanhol, Borges é finalmente publicado em francês, em inglês, em italiano. Sua literatura, encadeada em textos breves e da maior complexidade, “obra aberta”, como definiria com propriedade Umberto Eco, cativa de tal forma os principais expoentes do Estruturalismo a ponto de Michel Foucault declarar, em 1966, no prefácio de “As Palavras e as Coisas”:

Este livro nasceu de um texto de Borges. Do riso que, com sua leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento – do nosso: daquele que tem nossa idade e nossa geografia, abalando todas as superfícies ordenadas e todos os planos que tornam sensata para nós a profusão dos seres, fazendo vacilar e inquietando, por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro”.



Meio século de história



Borges é consenso, mas há muitas controvérsias sobre as origens e motivações do “boom”. Sabe-se que o termo, para se referir à literatura latino-americana, foi usado pela primeira vez por um escritor e jornalista chileno, Luis Harss. No mesmo ano em que Foucault publicava na França “As Palavras e as Coisas”, Harss lançava no Chile seu livro “Los Nuestros”, em que investiga o fenômeno da repercussão internacional, algo sem precedentes na literatura da América Latina.







Harss propõe um marco inaugural: várias foram as publicações que prepararam o terreno, incluindo as primeiras edições de Borges na França, na segunda metade da década de 1950, além de títulos importantes de outros autores nos anos seguintes, mas ele situa em 1963 o primeiro grande momento do “boom” latino-americano, com a publicação simultânea em espanhol, francês e inglês de um livro ímpar: “Rayuela” (no Brasil, “O jogo da amarelinha”), de Cortázar. Pelas coordenadas traçadas por Harss, o “boom” completa, em 2013, 50 anos de história.

Do Terceiro Mundo para o Velho Mundo: a partir de uma reflexão sobre a situação política e social da América Latina, autores em países diferentes, e que sequer se conheciam, transformaram em literatura da melhor qualidade, na mesma época, os absurdos e o insólito da vida cotidiana. Povoada de tradições exóticas e de cenários desconhecidos, repleta de apelos ao sobrenatural, a literatura da América Latina pela primeira vez ganharia projeção internacional, passando a exercer considerável influência sobre a obra de importantes pensadores e ficcionistas até nossos dias, incluindo, entre muitos outros, Italo Calvino, José Saramago, Susan Sontag, Umberto Eco, Homi Bhabha, Salman Rushdie, Roberto Bolaño...





Viagem a Paris: três expoentes
do “boom” e suas esposas, em
foto de 1969 – a partir da direita,
Mario Vargas Llosa e Patricia; 
José Donoso e Pilar; Mercedes
e Gabriel Garcia Márquez.
Abaixo, García Márquez com
Jorge Amado em Salvador, na
Bahia, na década de 1970, em
fotografia de Zélia Gattai, esposa
de Jorge Amado; García Márquez
em Barcelona, em fotografia de
1970, e no México, fotografado
em 2009 por Daniel Mordzinski,
quando declarou em entrevista ao
El País que havia se aposentado
e que não pretendia mais escrever



 


Contudo, do lado de dentro das fronteiras de cada país do continente latino-americano, o contexto político daquele momento histórico era explosivo e dos mais sombrios. A resposta à Revolução Cubana em 1959 foram, nos anos seguintes, os regimes de exceção e as ditaduras militares, instaladas simultaneamente na maior parte dos países da região com apoio dos Estados Unidos. Esta nova realidade, que despertou uma mistura de sentimentos de utopia e desejo de justiça, também gerou alegorias transformadas em obras-primas da Literatura Universal.



Da América Latina à Europa



O estudo publicado em 1966 por Luis Harss já apontava para as semelhanças e diferenças – tanto entre obras e autores incluídos no “boom” do Realismo Mágico, quanto entre este movimento e as vanguardas modernistas nas primeiras décadas do século 20. Se é inquestionável que o “boom” produziu obras-primas que permanecem há mais de meio século como influência e referência, também é certo que ele nunca teve qualquer padrão estético coeso. Em outras palavras, parodiando aquele célebre aforismo de Guimarães Rosa sobre Minas: no “boom”, são vários.







Em sua grande maioria, os autores do “boom” sempre estiveram comprometidos com apoio aos movimentos populares de resistência à censura e à repressão instaladas pelas ditaduras militares em seus países de origem. Alguns deles foram exilados e outros, como Cortázar, chegaram a empreender jornadas internacionais pela Anistia e pelos Direitos Humanos, mas nenhum deles chegou a apresentar algum manifesto ou programa de ação – prática frequente da militância entre as vanguardas da arte no começo do século 20.

Pelo contrário. Não houve nenhum “alinhamento”, nenhuma “meta programática”. Tanta variedade e liberdade acabou fornecendo fôlego às críticas: os detratores do “boom” existem, ainda que sem grande influência ou ressonância, e costumam se apegar ao argumento de que o grupo não tinha coesão e que tudo não passou de marketing editorial. Mas talvez tal argumento seja mesmo um equívoco: afinal, as obras-primas lançadas naquele período são um contraponto inquestionável.

A diversidade de autores e obras nomeados com o rótulo de Realismo Mágico é evidente. Basta lembrar que um dos destaques incluídos no “boom” foi o cânone maior da literatura do Brasil, Machado de Assis (1839–1908), um mestre do século 19, traduzido e publicado nos Estados Unidos e na Europa na mesma época e no mesmo pacote editorial que reunia, entre outros “estreantes”, Borges, Cortázar, Juan Rulfo, Alejo Carpentier, Vargas Llosa, García Márquez (veja mais em "Semióticas: O Bruxo e a crítica internacional").






Machado de Assis: cânone brasileiro
do século 19 surge em destaque no
"boom" do Realismo Fantástico 





Contracultura, o contexto libertário



Também há controvérsias quanto ao tempo de duração do “boom”, mas oficialmente a historiografia destaca o período que vai de 1963, com a publicação de “Rayuela”, a 1982, ano em se concede o Prêmio Nobel de Literatura a García Márquez. Não por acaso, é também no ano de 1982 que muitos países da América Latina começam o retorno a regimes democráticos, depois dos tempos sombrios de ditaduras militares. Mas este período também não deixa de ser uma demarcação aleatória, sujeita a variáveis – há quem defenda a demarcação inicial em 1962, ano da publicação de “Historias de cronopios y de famas”, de Cortázar, ou em 1959, ano da Revolução Cubana...

O questionamento faz todo sentido, ainda mais que os nomes principais do “boom” haviam publicado muito antes de 1963 e continuaram a produzir e publicar até muito depois do ano de 1982. Borges, decano do grupo, morreria em 1986 e, em 2010, outro baluarte do “boom”, Vargas Llosa, também seria destacado como o Prêmio Nobel de Literatura.




Duas obras de Borges adaptadas
com sucesso para o cinema: acima,
cena de A Estratégia da Aranha,
de 1970, com direção de Bernardo
Bertolucci. No alto, cartaz de A Intrusa,
co-produção entre Brasil e Argentina,
de 1979, dirigida por Carlos Hugo
Christensen. Abaixo, cena de Blow Up,
versão de 1967 de Michelangelo Antonioni
 para o Cortázar de Las Babas del Diablo




A descoberta da literatura da América Latina por leitores do Primeiro Mundo vem no contexto libertário da Contracultura – tempos da Guerra Fria, da novidade da TV e da dominação cultural norte-americana avançando pelos cinco continentes. É também a época em que ganham força protestos da juventude, o recém-criado rock'n'roll, o movimento estudantil, mobilizações pelos direitos civis, as passeatas pacifistas, as rupturas lançadas na literatura e no comportamento pela geração beatnik – por sua vez mentores e avatares da experiência em sociedades alternativas, viagens esotéricas de autoconhecimento, religiões orientais, rituais de shamanismo, alucinógenos...

Neste cenário, o “boom” da literatura latino-americana encontra terreno fértil. Rapidamente assimilado, desatou a imaginação de leitores e de outros autores, convocou o humor e a ironia em situações das mais alegóricas e criou novas formas narrativas que foram absorvidas pela Literatura Universal. Não é um legado pequeno, ainda que seja possível estabelecer toda uma rede de filiações dos escritores do “boom” a certas obras e autores como James Joyce, William Faulkner, Franz Kafka – com reflexos que transparecem como influência ou referência direta em “Rayuela”, em “Pedro Páramo”, em “Cien Años de Soledad” e em boa parte do que o Realismo Mágico produziu.


 

As narrativas do trio Faulkner-Joyce-Kafka são fundamentais à literatura do “boom”, mas há outras obras que prevalecem como referência direta, entre elas "The Grapes of Wrath" (1939), de John Steinbeck. Virginia Woolf também ganha destaque como forte influência para alguns, caso de García Márquez, Cortázar e Clarice Lispector, assim como os escritos experimentais lançados por Guillaume Apollinaire e todo o Modernismo dos surrealistas franceses. Porém, nem tudo é século 20.

Paira sobre todos, inevitável, a sombra de Edgar Allan Poe, além das clássicas novelas de ficção científica, enquanto Borges e Guimarães Rosa também rendem tributo a Machado de Assis, mestre nas artimanhas do fantástico e nas alegorias do jogo narrativo. Na lista de mentores e precursores em evidência ainda há Goethe, Byron, Baudelaire, Rimbaud, Flaubert, Swift, Shakespeare, Rabelais, o romance medieval de Cervantes, os contos árabes de Sherazade, a mitologia pagã da Antiguidade, a Torá e os evangelhos da Bíblia, entre muitos outros títulos enumerados nas estantes da Biblioteca. Sobre toda esta rede quase infinita de influências e precursores, Borges, o visionário, guardou um comentário definitivo: os livros sempre falam entre si e isso não depende dos autores se conhecerem.


por José Antônio Orlando. 



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No alto, "Música de banda" (1960),
fotografia de Juan Rulfo. Acima,
ilustração na capa da primeira edição
de “Cien años de soledad”, de
Gabriel García Márquez, publicada
em 1967 por Editorial Sudamericana

11 comentários:

  1. Fazem parte de minha formação, não consigo me imaginar sem seus livros na adolescência. Mais um post de primeiríssima qualidade. Gracias!

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  2. Luis Paulo Figueiredo16 de fevereiro de 2013 19:48

    Muito bom mesmo! Fiquei com uma vontade terrível de ler livros do Borges e do Cortázar. García Márquez já é dos meus favoritos e pelo que você comentou, acho que vou me apaixonar, com certez. Fico sempre muito impressionado com o fôlego de seus belos textos, José Antônio Orlando, e com estas imagens que são tudo, tudo de bom. Você não tem ideia de quanto eu aprendo a cada visita que faço a este Semióticas. Quem dera todas as aulas fossem assim tão lindas e deliciosas... Agradeço muito. Boa sorte!

    Luis Paulo Figueiredo

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  3. Marisa Magalhães14 de maio de 2013 10:04

    Visitei esta página muitas vezes desde a primeira, no carnaval. Também visitei algumas outras, até pensei em deixar mensagem. Mas preciso dizer que nesta aqui, sobre os autores latino-americanos, você disse tudo o que eu também gostaria de ter escrito porque concordo com tudo. Sei também que você já encontrou muitos elogios e parabéns nas mensagens de seus leitores. Mesmo assim agradeço de coração. Muito. Boa sorte.
    Marisa Magalhães

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  4. Maria Helena Bartoli19 de julho de 2013 11:32

    Fantástico. Viajei e aprendi coisas importantes que nunca soube sobre os mestres do "boom". Agradeço demais. Este Semióticas é show total!

    Maria Helena Bartoli

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  5. Marcos Antonio Oliveira28 de outubro de 2013 09:40

    Meu comentário é apenas para registrar mais um elogio. Parabéns. Seu blog Semióticas é o melhor que já encontrei. Excelente em tudo. Sou fã. (Marcos Antonio Oliveira)

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  6. Uau, José! Que bela matéria sobre a Literatura da América Latina! Sou fã deste Semióticas. É o melhor de todos os blogs que conheço. Muito obrigado por compartilhar!

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  7. Heloisa Maria Gomides26 de agosto de 2014 16:09

    Por estas e outras é que este Semióticas me representa. Sou fã. Beijos, professor. Saudadas de você.

    Heloísa Maria Gomides

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  8. Parabéns pelo alto nível e pelo cuidado com a beleza da edição dos textos e das imagens. É o melhor blog que já visitei. Ganhou mais uma fã. Show! Aline Ferreira

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  9. Raphaella Nobre

    Só hoje descobri esta sua reportagem emocionante sobre o "boom" da literatura latino-americana dos anos 60 e 70. Amei demais. E como se não bastasse segui as sugestões indicadas no final do texto com "Poderá também gostar de" e encontrei outras duas matérias tão sensacionais quanto esta, que são "Outros Borges" e "Cortázar faz 100 anos". Que prazer, que alegria! Enviei uma mensagem para seu e-mail semioticas@hotmail.com solicitando autorização para publicação. Aguardo sua resposta. Parabéns por este blog maravilhoso.

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  10. Que bela matéria sobre os autores sul americanos, meus preferidos. Como sempre, aprendendo com você. Parabéns!
    Seguidora assídua.

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