sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Picasso em preto e branco





Há pessoas que transformam o sol
numa simples mancha amarela, mas
também há aquelas que fazem de uma
simples mancha amarela o próprio sol...

Pablo Picasso (1881-1973)



Sobre Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, o homem que provocou algumas das grandes revoluções na História da Arte no século 20, muito já foi dito e quase tudo já foi mostrado. Quase tudo. Uma das nuances mais expressivas do artista espanhol permanecia pouco conhecida do público e nunca havia sido reunida: coube ao Museu Guggenheim de Nova York, com curadoria a cargo de Carmen Giménez, a honra de pela primeira vez reunir uma centena de obras de Picasso em que a ausência de cor – ou antes a presença de variações monocromáticas do preto ao branco, incluindo matizes do cinza – é investigada em todas as suas possibilidades.

Picasso black and white”, uma das mais ambiciosas mostras de trabalhos do mestre na última década, reúne 118 obras que só pela característica monocromática já formam uma série especialíssima entre os milhares de trabalhos que Picasso produziu. Na maioria são pinturas, mas há também esculturas, gravuras, litografias, aquarelas e desenhos. Uma dúzia das peças faz parte parte do acervo do museu. As demais pertencem a 30 museus e coleções particulares em diversos países, incluindo os três grandes museus dedicados exclusivamente a Picasso, em Barcelona, em Málaga e em Paris, motivo pelo qual as negociações demoraram algumas décadas.





Três imagens de Pablo Picasso:
no alto, fotografado em 1957, em
close e dançando no seu ateliê, no
Sul da França, por David Douglas
Duncan. Acima, o jovem Picasso
aos 22 anos, em 1904, em
Montmartre, Paris


A exposição, que na abertura foi apontada pelo jornal “The Guardian” como o principal acontecimento das artes plásticas em 2012, fica aberta ao público em Nova York até o final de janeiro, mas também recebe visitantes on-line através do site do Museu Guggenheim (clique aqui). No catálogo de “Picasso black and white”, a curadora Carmen Giménez reconhece que teve dúvidas sobre o ineditismo da proposta: desde a ideia inicial, pensou que reunir trabalhos monocromáticos de um dos artistas mais geniais de todos os tempos era um projeto fascinante demais para ninguém ter tentado antes.

As dificuldades que a curadora confessa ter encontrado para reunir as obras específicas a fizeram entender que muitos antes dela, muito provavelmente, tentaram, mas não conseguiram reunir tantas obras de Picasso. "O uso do preto e branco em Picasso merece consideração à parte. Seus trabalhos em preto e branco aparecem em todas as décadas desde 1904, mas nunca teve um período só de negro ou só branco, à exceção dos desenhos e gravuras de seus três últimos anos de vida”, explica Carmen Giménez.





Obras-primas na exposição "Picasso
black and white": no alto,
"La planchadora", óleo sobre
tela de 1904. Acima, "Hombre,
mujer y niño", de 1906


O mais essencial


Podemos perceber que suas numerosas obras em preto e branco surgem em estudos diferentes, intercalados em séries diferentes, o que torna impossível classificá-los todos sob a mesma intenção técnica ou direcionados a um mesmo simbolismo ", completa a curadora, enumerando algumas das séries ou fases em que o preto e branco prevalecem nos questionamentos e invenções da arte de Picasso, todas com alguma peça ou estudo incluído na exposição.

Estão em “Picasso black and white” obras do período Azul, dos primeiros anos do século 20, as colagens e naturezas-mortas com letras e números por volta de 1912, o surrealismo e os elementos geométricos da década de 1920, as formas redondas a partir da década de 1930, a angústia da guerra traduzida no grande painel “Guernica” (1937), o erotismo extremado das gravuras e dos retratos de mulher, as litografias sobre as metamorfoses de um touro, as minotauromaquias, as séries de denúncia sobre o massacre militar na Guerra da Coreia em 1951, os estudos sobre interiores de inspiração espanhola, os últimos desenhos no ateliê em Mougins e outras dezenas de peças selecionadas em um acervo de milhares de obras-primas.






Obras-primas de Picasso: a partir
do alto, "El acordeonista" (1911),
óleo sobre tela em justaposição cubista;
"Hombre fumando una pipa", aquarela
de 1923; e “Atelier de la Modiste”
pintura em óleo sobre tela de 1926





Carmen Giménez também cita a definição célebre de Frank Lloyd Wright, autor do impressionante projeto arquitetônico do museu, que se referiu às formas circulares do prédio e do trajeto que aguarda o visitante como um “convite para entrar no mais essencial do espírito de seu próprio interior”. Separadas da sedução das cores, tão marcantes nas fases e estilos sucessivos de Picasso, as obras monocromáticas reunidas no Guggenheim se aproximam do “espírito interior” de que falava Lloyd Wright – defende a curadora.

Despojado das cores que conduzem o olhar, Picasso explora a percepção de outras formas e estruturas. A força que emana destas obras, que não estão entre as mais conhecidas do pintor, atravessa o filtro de gradações monocromáticas e revela novos sentidos que são um convite ao mais essencial de que falava Lloyd Wright”, explica Giménez. O efeito, completa a curadora, é como se o visitante tivesse colocado óculos de cinema 3D para observar as chaves do enigma. O enigma em questão é a evolução revolucionária da arte de Picasso através da passagem do tempo. 






A face das amantes segundo
o artista genial: no alto,
"Marie-Thérèse" (1931). Acima,
"Buste de femme (Dora Maar) 3",
de 1938. Abaixo, "Mujer sentada
en un sillón (Dora)", de 1938





Retrato das paixões


O visitante recebe as boas-vindas quando encontra no saguão de entrada duas impressionantes esculturas em bronze em tamanho natural que pertencem ao Museu Reina Sofia, da Espanha: “Mujer com vaso” (1933) e “Mujer com los brazos abiertos” (1961). É a senha para uma centena de obras-primas, produzidas no período cronológico que se estende de 1904 até 1971, data dos estudos eróticos das séries “Tres figuras” e “Buste de femme”, que inclui os últimos desenhos e rascunhos inacabados do mestre.

Além da última série, produzida com o artista enfrentando problemas de saúde e visão cada vez mais debilitada, no ateliê às margens do Mediterrâneo, no sul da França, há várias outras telas conhecidas de Picasso com o título “Buste de femme”, dedicadas a retratar algumas de suas paixões. Uma das mais célebres está presente na mostra do Guggenheim: "Buste de femme (Dora Maar) 3", óleo sobre tela datado de 1938.









No alto, Picasso em 1937, fotografado por
Dora Maar enquanto finalizava "Guernica",
sua obra máxima, em exposição permanente
no Museu Reina Sofia, em Madri. Acima, um
dos estudos para "Cabeza de caballo",
uma referência direta a "Guernica"
apresentada na exposição do Guggenheim


Na cronologia da obra, o recorte proposto pela exposição alcança desde os últimos trabalhos até um dos períodos iniciais, conhecido como fase azul, quando Picasso pintou a solidão, a morte e o abandono. Foi quando o jovem artista passou dos primeiros estudos de arte em Madri à mudança para Paris. Tempos difíceis, mas também época em que conheceu um seleto grupo de amigos, também artistas e escritores, nos bairros de Montmartre e Montparnasse.

O início da Abstração e da própria Arte Moderna tem como endereço os ateliês e bares de Montmartre e Montparnasse, em Paris, nas primeiras décadas do século 20. Ali surgiram amizades intensas, que atravessariam décadas e que sinalizaram coordenadas importantes para a arte e a cultura no último século. É onde se encontram Braque, Pablo Picasso, André Breton, Isadora Duncan, Guillaume Apollinaire, Gertrude Stein, Ezra Pound, Paul Valéry, Erik Satie, James Joyce, Antonin Artaud, Anais Nïn, Coco Chanel, Luis Buñuel, Salvador Dalí, Federico Garcia Lorca, Max Ernst, Marcel Duchamp, Man Ray e alguns outros nomes de referência quando o assunto é Cubismo, Fauvismo, Expressionismo, Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo e suas variantes abstratas e figurativas.

Entre tantas obras-primas, um dos trunfos da exposição é “Las damas de honor” (1957), a maior das 44 variações produzidas por Picasso para “Las Meninas” (1656), de Diego Velázquez, que Picasso pintou durante uma temporada na California. Tela que evidencia o respeito profundo do artista pelo grande nome da tradição da pintura espanhola, a austeridade cinzenta de “Las damas de honor” é quase uma demonstração didática das concepções da arte moderna em comparação com a maestria figurativa de Velázquez, definido por Picasso como “o pintor dos pintores”.





O artista sensual e suas formas
amorosas e eróticas: no alto,
Desnudo reclinado, de 1942.
Acima, El beso, pintura de 1969


Depois da temporada de estreia no Guggenheim, a exposição “Picasso black and white” tem uma extensa agenda itinerante que vai percorrer cidades dos Estados Unidos e capitais da Europa. O primeiro ponto depois de Nova York será o Museu de Belas Artes de Houston, em fevereiro, que recentemente apresentou um aquecimento para a mostra "Black and white" ao reunir uma exposição com reproduções de retratos de Picasso feitos por alguns dos grandes fotógrafos do último século.


Contraponto fabuloso

 
Fotografia e cinema, aliás, fornecem um contraponto fabuloso para analisar a obra do autor de “Guernica”: as formas modernas da fotografia e do cinema, que ganharam o estatuto de arte no decorrer do Novecentos, passaram a primeira metade do século 20 restritos ao preto e branco – ou antes às matizes do preto, do branco e cinza, que os grandes mestres identificam como o maior dos desafios da representação pictórica.




Picasso e sua releitura moderna para uma
obra-prima de Velázquez: "Las damas de
honor", de 1957. Abaixo, "Toros", aquarela
de 1968, e "La cocina", de 1948, tela que
representa uma estranha complexidade que
surge dos elementos mais simples

Mesmo que seja impossível separar a fulgurância da cor da arte de Picasso, patente em sua alegria sensual de momentos que mudaram os rumos da História (como a “bomba” estética lançada em 1907 com “Demoiselles D'Avignon”, que definiria os rumos das vanguardas do modernismo, ou ainda o grito de protesto com "Guernica" e tantos outros trabalhos personalíssimos), a mostra “Picasso black and white” lança luzes sobre a trajetória e os avanços da arte no último século, através de um olhar generoso e sem precedentes sobre um de seus principais artífices.

Depois de encontrar tantas obras-primas impressionantes em seus traços monocromáticos, resta concluir que o gênio de Picasso muitas vezes relegou o colorido a um segundo plano. Contudo, observando melhor a grande arte que ele produziu e revolucionou, durante quase um século, tanto a cor como a ausência de cor parecem ser o que há de menos importante.


por José Antônio Orlando.


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16 comentários:

  1. José, que ensaio mais maravilhoso, meu querido. Um curso completo sobre Picasso e a Arte Moderna, lindo na edição de imagens e um encanto de texto. Semióticas sempre se superando, quando a gente pensa que tal página é a melhor de todas, eis que você aparece e vai além. É por isso que sou fã do seu trabalho e leitora de carteirinha deste site. Parabéns de novo!

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  2. Huuuummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm Sem palavras/No words/Rola uma ponta de inveja do seu talento/

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  3. Arlindo César do Nascimento6 de dezembro de 2012 16:44

    Lendo seu texto tive a nítida sensação de estar visitando ao vivo a exposição no Guggemhein. Seu texto é delicioso e esta seleção de imagens... Um adjetivo que cabe como uma luva para este site chamado Semióticas: irresistível. Acabo de virar fã de carteirinha. Parabéns, moço!

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  4. Muito muito bom ---viajei em tudo, nas obras , nas cores , no tempo e no texto----------

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  5. Nossa... Que coisa mais doida que é seu blog, professor. Tudo certinho e bonito, surpresa atrás de surpresa. Bacana demais. Ganhou mais um leitor de carteirinha. Adorei.

    Ivan Salles.

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  6. Sim, você é muito bom e a exposição deve ser de cair o beiço! rsrs Abraço!

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  7. Estava encantada com seus posts na página Semióticas do Facebook. Quando finalmente cheguei a este blog, o encanto virou paixão. Amo você com força, Semióticas! Mil beijos!

    Carla Alves

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  8. Cor e p/b respondem por uma visão do todo em Picasso: desenho, grafismo e pintura. linhas que não se interrompem. é moderno por excelência, sem fazer do fragmento sua arte, esse legado ficou para os pósteros, é coisa mais nossa. é dureza tentar dizer das obras apenas por um aspecto, não é? a leveza do desenho da pomba não dispensa a cor no uso da água forte. adoro a tauromaquia, um belo trabalho do Semióticas ao trazê-la para nós. minha paixão são as linhas, especialmente as dos monstros coloridos, de repente se esgarçam...Guernica, linhas leves para o horror. muito punk. obrigada, gosto muito de Semióticas.

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  9. Luzia do Carmo de Godoye29 de março de 2013 08:25

    Queria deixar registrado aqui umas poucas palavras: fiquei emocionada porque consegui entender muito de Picasso, que antes eu sempre achei estranho e agora depois desta página de Semióticas algo mudou para sempre aos meus olhos. E porque todas as páginas daqui que visitei depois me deixaram arrepiada, cada uma a seu modo, mas todas brilhantes e lindas. Só posso agradecer muito.

    Luzia do Carmo de Godoye

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  10. Cláudia Alcântara18 de agosto de 2014 18:53

    Estou emocionada com seu blog Semióticas e com esta página sobre Picasso mais ainda. Saudades de suas aulas incríveis, professor. Mil beijos. Seu blog acaba de entrar na minha lista de favoritos. Ganhou mais uma fã de carteirinha.
    Cláudia Alcântara

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  11. Maravilhoso. Acho que é o melhor estudo que já encontrei sobre a Arte de Picasso. E olha que venho pesquisando a obra dele há anos. Parabéns demais. Virei fã deste Semióticas.
    Regina Mendes

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  12. Maravilhoso. Apenas isso. Só posso agradecer pela aula de sabedoria e beleza.

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  13. Uau!! Muito muito bom!! Fiquei impressionada, descobri muita coisa!!!!

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  14. João Paulo Figueiredo29 de outubro de 2016 19:13

    Show! Por estas e outras é que este blog Semióticas é uma das melhores páginas da internet. Parabéns, José. Seu trabalho é sensacional. Também agradeço de coração por você compartilhar beleza e sabedoria.

    João Paulo Figueiredo

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