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20 de fevereiro de 2016

Umberto Eco e Mafalda








A condição mínima para uma interpretação
é substituir um signo por outro signo que,
sob certo ponto de vista, possa ser julgado
equivalente – sejam eles pertencentes
a um mesmo sistema semiótico ou
a sistemas semióticos diferentes.

Umberto Eco, “O Código do Mundo”
(Il Codice del Mondo, 1987)




O italiano Umberto Eco (1932-2016), mestre da Semiótica e um dos principais pensadores e escritores de nossa época, foi também um dos pioneiros a destacar o valor e a importância da Mafalda, a garotinha contestadora inventada pelo cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón, mais conhecido como Quino. Com o crescente sucesso de público da pequena Mafalda em seu país de origem, desde 1964, as tirinhas não demoraram a ser reunidas em livros que logo cruzaram as fronteiras da Argentina e passaram a ser conhecidos no Brasil e em outros países da América Latina e também de outros continentes.

Na Europa, Mafalda desembarcou primeiro na Itália, por influência direta de Umberto Eco. Os direitos de publicação foram comprados pela Casa Editrice Valentino Bompiani, que também editava os livros de Eco desde 1962, quando foi publicado seu primeiro grande sucesso editoral, “A Obra Aberta” – o quarto livro que publicou, depois de “O Problema Estético em Santo Tomás de Aquino” (“Il Problema Estetico in San Tommaso”, Torino: Edizioni di Filosofia, 1956), “Filosofia na Liberdade” (“Filosofia in Libertà”, Torino: Edizioni Taylor, 1958) e “Arte e Beleza na Estética Medieval” (“Sviluppo dell'Estetica Medievale”, Milano: Edizioni Marzorati, 1959).

Eco permaneceu publicando seus livros pela Bompiani até 2015, quando foi lançado seu último romance, “Número Zero” – uma crítica feroz ao mau jornalismo e à manipulação de notícias apresentada através de um jornal fictício criado para mentir, distorcer, caluniar e chantagear autoridades e pessoas comuns. Na editora Bompiani, Eco publicou cerca de 50 livros de ensaios e estudos teóricos que são considerados obras de referência, três livros de literatura infanto-juvenil e sete romances. Contudo, depois da publicação de “Número Zero”, a Bompiani foi comprada pelo grupo Mondadori, controlado pela família Berlusconi. Em protesto, Eco e outros grandes nomes da literatura italiana tomaram a decisão de romper com a Bompiani e criaram uma nova editora, a La Nave di Teseo, batizada em homenagem ao mítico rei de Atenas na Antiguidade.

O primeiro livro da nova editora será também a primeira publicação póstuma de Eco, que morreu ontem, aos 84 anos, vítima de câncer:
Pape Satàn Aleppe”, que pode ser traduzido como o Papa é adversário de Satanás com o subtítulo Crônicas de uma sociedade líquida será lançado nos próximos dias, na Itália, reunindo uma coletânea de artigos que Eco publicou na revista semanal italiana L'Espresso. O enigmático título do novo livro retoma as palavras que abrem o primeiro verso do Canto VII do Inferno, da Divina Comédia, de Dante Alighieri, poeta da Idade Média e forte referência para o autor de O Nome da Rosa.  












Retratos do mestre Umberto Eco:
no alto, em sua casa em Milão, Itália, em
2013, fotografado por Andrea Frazzetta;
acima, com a trombeta que aprendeu a
tocar quando era menino, fotografado
em março de 2015, por Oliver Zehner;
aos 22 anos, em 1954, quando defendeu
sua tese sobre Santo Tomás de Aquino
na Universidade de Turim; e na infância,
em Alexandria, Itália, sua cidade natal.
Abaixo, fotografado por Annie Leibovitz
na Universidade de Bologna, em 1980, na
época do lançamento de seu primeiro
romance, O Nome da Rosa; em 1985,
no antigo mosteiro de Kloster Eberbach,
na Alemanha, durante as filmagens de
"O Nome da Rosa", com os atores
F. Murray Abraham, Michael Lonsdale,
Sean Connery e o diretor Jean-Jacques
Annaud; a capa do primeiro livro póstumo,
intitulado Pape Satàn Aleppe; e Eco
durante a última entrevista, em 19 de
dezembro de 2015, em sua casa, em Milão,
fotografado pelo jornalista português do
"Diário de Notícias", João Céu e Silva

 











A primeira edição de Mafalda em livro, no continente europeu, foi publicada pela Bompiani em 1969 com uma tarja indicando que se tratava de “história em quadrinhos para adultos”. A edição também incluiu um texto de apresentação de Umberto Eco, “Mafalda ou a recusa”, que chamou imediatamente a atenção de pesquisadores acadêmicos para a personagem criada por Quino. Não demorou muito para Mafalda também conquistar França, Espanha, Portugal e outros países, ganhando a simpatia de leitores de todas as idades e dos intelectuais ligados aos movimentos sociais e aos partidos políticos de Esquerda. Detalhe da maior importância: nos Estados Unidos, Mafalda continua ainda hoje inédita e desconhecida do grande público.
 
Mafalda leu, provavelmente, o Che Guevara” – destaca Eco no breve ensaio publicado como apresentação às tirinhas reunidas no livro de 1969, “Mafalda, La Contestataria”, comparando Mafalda com o norte-americano Charlie Brown, criação de Charles Schulz (1922-2000), e com a geração de jovens contestadores que marcou a explosiva década de 1960. Mafalda voltaria à pauta de vários outros ensaios que Eco publicou em jornais, revistas e livros, mas este primeiro ensaio que ele dedicou à personagem tem o mérito de ter sido uma carta de apresentação da garotinha zangada e inconformista para milhões de leitores – entre os quais estou incluído.







.


Estive uma única vez com o mestre Umberto Eco. Foi na década de 1990, durante uma visita do professor da Universidade de Bologna ao Campus da UFMG, em Belo Horizonte. Deveria ter sido uma entrevista, conforme estava marcado previamente com o cerimonial, mas um atraso levou ao cancelamento de vários compromissos agendados para aquele dia. Restou apenas a alegria de um breve encontro e da conversa rápida e emocionada que tive com o mestre, interrompidos a cada minuto pela intérprete que o acompanhava e pelos assessores do cerimonial, enquanto caminhávamos de um prédio a outro, a caminho do auditório da reitoria, onde Eco apresentaria uma conferência.

Lembro que fiquei até altas horas, na noite anterior, fazendo e refazendo o roteiro para a entrevista, folheando livros e ensaiando repetidas vezes a pronúncia de algumas frases com meu italiano mínimo e instrumental. A decepção pelo imprevisto do cancelamento da entrevista foi logo substituída pela expectativa da conversa informal na curta caminhada, com o mestre cordial e bem-humorado elogiando a música e a literatura do Brasil – especialmente os clássicos da Bossa Nova e, por recomendação de seus amigos brasileiros de longa data Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, os escritos de Oswald de Andrade, que naquela época ele estava descobrindo, “felicíssimo”, segundo comentou.

Ele também fez elogios ao português falado pelos brasileiros, em comparação ao de Portugal, e à força criativa da cultura popular que havia encontrado de norte a sul do Brasil, nas várias viagens que fez, a passeio, e nas cidades em que esteve para compromissos acadêmicos e palestras. Já estávamos no auditório da reitoria quando arrisquei uma última pergunta sobre as suas incursões nos rituais do Candomblé em Salvador, na Bahia, que o deixaram encantado nas visitas anteriores ao Brasil, mas não houve tempo para a resposta. Em homenagem a Umberto Eco, mestre dos mestres, transcrevo a seguir o ensaio que ele dedicou a Mafalda em 1969. Fiz a tradução a partir do original em italiano que foi publicado no livro “Mafalda, La Contestataria”. 
 

 


 

Mafalda ou a recusa



Mafalda não é apenas uma nova personagem dos quadrinhos: é a personagem dos anos 1960. Se para a definir se utilizou o adjetivo “contestadora” não foi para a alinhar a qualquer preço na moda do anticonformismo. Mafalda é, de fato, zangada – e recusa o mundo tal como ele é.

Para compreender Mafalda é necessário estabelecer um paralelo com outro grande personagem: Charlie Brown. Ele é norte-americano, Mafalda é sul-americana (o seu autor, Quino, é argentino). Charlie Brown pertence a um país próspero, a uma sociedade opulenta na qual procura desesperadamente integrar-se mendigando solidariedade e felicidade. Mafalda pertence a um país cheio de contrastes sociais que, no entanto, quer fazer dela integrada e feliz, coisa que Mafalda recusa, afastando todas as tentativas. 










 
Charlie Brown vive no seu universo infantil de onde, rigorosamente, os adultos estão excluídos (apesar de as crianças aspirarem a comportar-se como adultos), enquanto Mafalda vive em contínua contradição com o mundo adulto, que não estima nem respeita, antes pelo contrário, ridiculariza e rejeita, reivindicando o seu direito a permanecer uma menina que não quer assumir o mesmo universo adulto dos pais. Charlie Brown leu, evidentemente, os “revisionistas” de Freud e busca uma harmonia perdida. Mafalda leu, provavelmente, o Che Guevara.

Na verdade, Mafalda tem ideias confusas sobre política, não consegue perceber o que se passa na Guerra do Vietnã, não sabe por que existem pobres, desconfia dos governos, desconfia dos chineses. Mas de uma coisa ela tem certeza: não está satisfeita.








Ao redor de Mafalda, há um pequeno grupo de personagens mais “unidimensionais”: Manolito, o menino plenamente integrado num capitalismo de bairro, que tem a certeza absoluta de que, no mundo, o valor essencial é o dinheiro; Filipe, o sonhador tranquilo; Susaninha, a doente de amor maternal, perdida nos seus sonhos pequeno-burgueses. E, depois, os pais de Mafalda, resignados, que aceitaram a rotina diária (com o recurso ao paliativo farmacêutico de algum medicamento) e, além disso, vencidos pelo tremendo destino que fez deles os guardiões da Contestadora...

O universo de Mafalda não é apenas o de uma América Latina urbana e evoluída; é também, de um modo geral e em muitos aspectos, um universo latino, e isso faz com que ela surja mais compreensível para nós do que muitos personagens dos quadrinhos norte-americanos. Enfim: Mafalda é, em todas as situações, “um herói do nosso tempo” – e isto não parece uma qualificação exagerada para a pequena personagem de papel e tinta que Quino propõe.








Ninguém nega que histórias em quadrinhos sejam (quando atingem um certo nível de qualidade) questionadoras de hábitos e de costumes – e Mafalda reflete as tendências de uma juventude inquieta que assumem, aqui, o aspecto de uma dissidência infantil, de um esquema psicológico de reação aos meios de comunicação de massa, de uma urticária moral provocada pela lógica dos blocos, de asma intelectual provocada pelo cogumelo atômico. Já que os nossos filhos se vão tornar – por escolha nossa – outras tantas Mafaldas, será prudente tratarmos Mafalda com o respeito que merece um personagem real. (Umberto Eco)



Traduzido e editado por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Umberto Eco e Mafalda. In: ______. Blog Semióticas, 20 de fevereiro de 2016. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2016/02/umberto-eco-e-mafalda.html (acessado em .../.../...). 


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Na biblioteca do Mestre dos Mestres:
um passeio com Umberto Eco na biblioteca
de sua casa em Milão, Itália, em fotografias
de setembro de 2007 por Leonardo Cendamo





14 de novembro de 2014

Segredos de Mafalda








Nós podemos realizar coisas agradáveis,
inteligentes, que façam refletir os adultos
e também as crianças. É preciso respeitar
as crianças. Os adultos falam com elas
como se fossem todas retardadas...

–– Quino, criador de Mafalda   

 




Mafalda, muito esperta e questionadora, conquista a maioria à primeira vista: tem paixão pela primavera e pelos Beatles e horror a sopa, a moscas e a guerras. Com seu humor pitoresco e observações tão breves quanto surpreendentes sobre o mundo, as pessoas, as coisas, que permanecem atualíssimas, Mafalda completa 50 anos em plena popularidade muito além das fronteiras da Argentina, sua terra natal.

Oficialmente, ela é traduzida em várias línguas e publicada em mais de 30 países – mas, curiosamente, ainda permanece inédita nos Estados Unidos. No Brasil, tem tanto prestígio que disputa, há mais de uma década, com ninguém menos que Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, o título de recordista em citações nas questões do ENEM, o Exame Nacional do Ensino Médio.

Na trajetória de meio século de Mafalda há, também, as lendas, as crises, as idas e vindas, os altos e baixos. Para começar, teve duas datas de nascimento: a princípio, ela foi criada em 1962, para compor um anúncio publicitário de eletrodomésticos, e seu nome tem a ver com as iniciais da marca do produto, mas até sobre a data verdadeira de seu aniversário pairam certas controvérsias. 












No alto, Mafalda e Quino em
setembro de 2014, em Buenos Aires,
fotografados por Natacha Pisarenko
na abertura da exposição El Mundo
Según Mafalda, em comemoração
aos 50 anos da personagem. Acima,
Quino em sessão de autógrafos em
Paris, 2004, e Mafalda com a família
e os amigos: a partir da esquerda,
Felipe, Manolito, Susanita, Liberdade,
Mamãe (Raquel), Papai (Pelicarpo),
Guilherme (seu irmão caçula, também
chamado de Guille ou Gui) e Miguelito





Seu criador, o argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón, mais conhecido como Quino, desenhou, em 15 de março de 1962, as primeiras charges e algumas tiras de histórias em quadrinhos sobre Mafalda para uma agência publicitária. A personagem deveria ser publicada em anúncios da empresa de eletrodomésticos Mansfield no jornal “Clarín”. Mas, por ironia do destino, a empresa acabou recusando os desenhos, o “Clarín” rompeu o contrato e Quino, contrariado, decidiu arquivar suas tiras.



Mafalda pelo mundo inteiro



Em 1964, a ideia das tiras e charges da "enfant terrible" é retomada por Quino, que consegue finalmente publicar sua criação no semanário da Argentina "Primera Plana". A primeira vez da Mafalda impressa aconteceu em 29 de setembro daquele ano. A popularidade da personagem, no entanto, só passaria a crescer no ano seguinte, quando os desenhos chegam ao jornal diário "El Mundo". De novo, vem a ironia do destino nos caminhos de Mafalda: o jornal foi à falência em dezembro de 1967. 









Acima, a evolução dos traços da
personagem desde 1964 e Mafalda e
Quino em maio de 2014, fotografados
para a agência EFE. Abaixo, o retrato de
Mafalda em tempos de autoritarismo
e ditadura militar em sua terra natal,
Argentina, com os cidadãos proibidos
em sua liberdade de falar, de ouvir,
de ver, e Mafalda no Brasil, nas capas
da revista Patota, publicada na década
de 1970 pela Editora Artenova, e nas
primeiras versões em livro, em 1982,
publicadas pela Global Editora




.


Mafalda retornaria firme e forte seis meses depois, em outro jornal, o “Siete Días Illustrados”. Com o crescente sucesso de público da pequena Mafalda em seu país de origem, as tirinhas não demoraram a ser reunidas em livros que logo cruzaram as fronteiras da Argentina e passaram a ser conhecidos em outros países da América Latina e também na Europa, onde tanto as tirinhas quanto os livros de Mafalda foram sucesso imediato na Itália, França, Espanha, Grécia, Portugal e outros países.

Na Europa, Mafalda desde o início foi publicada com a tarja indicando que se tratava de “história em quadrinhos para adultos” – e não demorou a conquistar a simpatia dos intelectuais ligados aos movimentos sociais e aos partidos de Esquerda. Um dos primeiros a saudar a personagem foi o italiano Umberto Eco, mestre da Semiótica, que dedicou à criação de Quino um célebre ensaio, publicado pela primeira vez em 1969, em que destacava: “Mafalda leu, provavelmente, o Che Guevara...”






Mafalda em terras brasileiras



No Brasil, Mafalda apareceu primeiro sem periodicidade, como presença ocasional em charges reproduzidas no final da década de 1960 nas páginas do lendário “Pasquim”. Em 1972, também no “Pasquim”, foi saudada por Ziraldo: “Mafalda é uma personagem criada na América Latina que logrou obter uma fama universal; acho incrível que uma menina da classe média da Argentina tenha podido ter sucesso na Finlândia”.

A estreia oficial, sob contrato, aconteceria por aqui somente em 1972, nas páginas de uma revista infantil chamada “Patota”, publicada pela Editora Artenova em 27 edições mensais, entre 1972 e 1975, em coletâneas que incluíam outros personagens de autores na maioria norte-americanos, entre eles o guerreiro viking trapalhão Hagar, o Horrível (criado por Dik Browne), a dupla Frank e Ernest (de Bob Thaves), Snoopy e a turma do Charlie Brown (de Charles Schulz), além da presença ocasional de personagens brasileiros como o psiquiatra Doutor Fraud, criado por Renato Canini. Nos anos seguintes, Mafalda apareceria ocasionalmente em outros jornais e revistas brasileiros, por conta da comercialização de séries limitadas de charges e tirinhas, também por intermédio da Editora Artenova.




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Em 1982, a presença de Mafalda no Brasil ganharia um capítulo importante: com os direitos de publicação transferidos da Artenova para a Global Editora, os cartuns originais de Quino passaram a contar com uma parceria especialíssima na tradução e adaptação por um dos grandes nomes do humor e do cartum brasileiro, Henrique de Souza Filho, o Henfil (1944-1988), célebre por seu trabalho de resistência à ditadura militar e de apoio aos movimentos sociais com a Graúna, os Fradinhos, a Mãe e outras criações geniais que marcaram época.

A aventura de Mafalda em tradução de Mouzar Benedito e edição final de Henfil foi publicada em cinco livretos pela Global Editora, em preto e branco, exceto na capa, com formato de brochura horizontal em dimensões de em 14cm por 21cm. Os livretos, que alcançaram uma surpreendente vendagem de 30 mil exemplares na primeira edição, tiveram cinco números consecutivos, de fevereiro a julho de 1982, com 76 páginas e duas tirinhas por página. Em 1988, a trajetória de Mafalda em terras brasileiras passaria por outra transferência de editora e de tradução, desta vez com versões para o português por Monica Stahel para a Martins Fontes. A nova editora reeditou, em formato de livretos, todos os cartuns, até 1991, quando toda a saga da personagem lendária de Quino foi finalmente reunida no livro de capa dura “Toda Mafalda”.







Acima, Quino em Buenos Aires, em
visita à exposição El Mundo Según
Mafalda, e na prancheta de trabalho,
em autorretrato dos anos 1970. Abaixo,
uma seleção das tirinhas da Mafalda,
em versão nacional; e Quino em Buenos
Aires, na praça batizada em homenagem
a Mafalda e na abertura da exposição
El Mundo Según Mafalda 




  
 
As versões de Quino



Mesmo com todo sucesso na Argentina e em outros países, Quino, o criador, decidiu acabar com a publicação das histórias da Mafalda em 1973. Desde então, Quino ainda voltaria a desenhar Mafalda algumas poucas vezes, principalmente para promover campanhas sobre os Direitos Humanos – como aconteceu em 1976, quando Quino aceitou o convite para fazer um pôster para a UNICEF ilustrando a Declaração Universal dos Direitos da Criança.

Filho de imigrantes espanhóis, Quino nasceu em Mendoza, Argentina, em 1932, e mantém uma rotina discreta em Madri, Espanha, onde mora há duas décadas. Sempre avesso à curiosidade dos fãs de Mafalda e aos convites para participar de programas de TV, Quino abriu uma exceção no começo deste ano, quando foi anunciado vencedor do prestigiado Prêmio Príncipe das Astúrias, na Espanha, e concedeu uma longa entrevista à agência de notícias EFE.










Na entrevista, Quino afirmou que permanece marxista e pessimista em relação à política, lembrou as situações que levaram à criação e ao sucesso de Mafalda, reconheceu que, para ele, a célebre e insolente garotinha é um "mais um desenho" e se autodefiniu como um carpinteiro que projetou um "móvel lindo".

"Eu sou como um carpinteiro que fabrica um móvel, e Mafalda é um móvel que fez sucesso, lindo, mas para mim continua sendo um móvel, e faço isto por amor à madeira em que trabalho", minimizou Quino, explicando que há décadas sofre de um problema de visão que o faz viver em um "mundo um pouco desfocado". Para surpresa do entrevistador, Quino também declarou que Mafalda não foi sua "melhor aliada" para dizer "o que queria e quando queria".













O futuro de Mafalda



"Meu melhor aliado fui eu mesmo, porque deixei de dizer muitas coisas que gostaria e não se podia dizer. Desde que cheguei a Buenos Aires com minha pastinha (em 1954), me disseram que não podia fazer desenhos sobre militares, sobre a igreja, o divórcio, a moral. Então me acostumei a desenhar as coisas que me permitiam", lembrou. Quino também reconheceu que a primeira encomenda para criar Mafalda pedia algo no estilo de Charlie Brown e a turma de Peanuts, a mais famosa criação de Charles Schulz (1922–2000).

"Copiei as cenas de minha rotina e de minha casa, e as pessoas gostaram, porque poucos desenhistas faziam isso. Charlie Brown me agrada muito, mas me parece um horror que não haja adultos. Em meu trabalho, apelava para as notícias do dia, e escrevia sobre o que saía nos jornais; o mundo era assim. Eu não disse, 'vou a fazer uma menina contestadora'; não, saiu assim".











Quino também declarou à agência EFE que está consciente sobre o sucesso de Mafalda, que continua sendo uma personagem querida no mundo todo, por leitores de todas as idades. Contudo, na conclusão da entrevista faz questão de dizer que não tem nenhuma ilusão sobre o que poderá acontecer com Mafalda no futuro.

"Não acredito que Mafalda ultrapasse as fronteiras da História e se transforme em algo parecido com a música de Mozart”, destacou Quino. “Haverá no futuro outras temáticas muito mais importantes que as coisas que Mafalda disse há tanto tempo. Além disso, aparecerão muitos outros suportes de mídia que ainda não se conhece, outras muitas personagens, talvez mais interessantes. Hoje, olhando para o passado, penso que ou o mundo não evoluiu ou então a Mafalda é que sempre foi muito evoluída".


por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Segredos de Mafalda. In: ______. Blog Semióticas, 14 de novembro de 2014. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2014/11/segredos-de-mafalda_14.html (acessado em .../.../...). 



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1 de março de 2013

Arte e videogame










A recepção na diversão, cada vez mais
perceptível em todos os domínios da arte,
e que é sintoma das mais profundas alterações
na percepção, tem no cinema o seu verdadeiro
instrumento de exercício. O público
é um examinador, mas distraído.

(Walter Benjamin, 1936)   




Reza a lenda que uma nova forma de arte só está sacralizada quando ganha o status de aquisição no acervo dos grandes museus pelo mundo afora. Foi assim no último século, com as sucessivas revoluções das Vanguardas do Modernismo, ao norte e ao sul do Equador, de Picasso e Kandinski a Tarsila do Amaral e Cândido Portinari, entre outros mestres, incluindo a ironia iconoclasta das instalações da Pop Art nas últimas décadas, com a incorporação de anúncios publicitários, grafites, vídeos e suportes híbridos, instáveis, passíveis de intervenções do público na sua composição.

Agora é a vez dos jogos eletrônicos ocuparem os domínios antes reservados aos grandes da História da Arte. Para espanto dos mais conservadores, a arte dos videogames passará a ter alguns de seus maiores sucessos comerciais alinhados no mesmo espaço sagrado que abriga obras-primas de Leonardo da Vinci, Vincent Van Gogh, Claude Monet, Frida Kahlo. Exemplares originais de Tetris, Pac-Man, Snake (em versão original, pré-Nokia), The Sims, SimCity 2000, Katamari Damacy e outros jogos eletrônicos, que há tempos vêm conquistando corações e mentes de adolescentes de todas as idades, chegaram ao acervo do cultuado Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), com a exposição “Applied Design” (Design aplicado), que estará aberta ao público de dois de março a 31 de janeiro de 2014 (veja o link para visita on-line à exposição no final deste artigo).












Videogames chegam ao acervo
do MoMA, o Museu de Arte
Moderna de Nova York: no alto,
Pac-Man (Japão, Namco Bandai
Games, 1981), criação de Toru
Iwatani. Acima, em fundo azul,
Another World (França, 1967),
de Éric Chahi; e a tela cinza de
Tetris  (Rússia, 1955), criação
de Alexei Pajitonov. Abaixo,
uma das telas de Pac-Man










Na apresentação da mostra – que também comemora os 60 anos do mais antigo videogame, o OXO, um jogo-da-velha eletrônico adaptado por Alexander Douglas a partir da tecnologia dos equipamentos de radar – Paola Antonelli, curadora-sênior do MoMA para Arquitetura e Design, destaca as questões de meio ambiente e sustentabilidade como o grande desafio da arte e do design no tempo em que vivemos – e defende que talvez a informação mais importante sobre qualquer produto em nossa época seja sua origem e o material do qual ele é feito. Da mesma forma que aprendemos a reconhecer a madeira que foi usada para construir um banco, explica Antonelli, nossa época apresenta a necessidade de mudanças que são grandes desafios de aprendizado para nossa percepção sobre a sustentabilidade dos objetos e dos ambientes.



Funções do Design



Ainda há pessoas que pensam que a função do Design é apenas fazer coisas bonitas, pessoas bonitas e lugares bonitos”, alerta a curadora. “Na verdade, o Design se espalhou no último século para quase todos os domínios da atividade humana, da ciência à educação, da política à formulação de políticas, e tudo isso por uma razão simples: uma das tarefas mais fundamentais do Design é ajudar as pessoas a responderem às mudanças. O designer pode optar por um leque quase infinito de atuações e interações, interfaces, mas tem que ter seu foco na palavra sustentabilidade”.













Videogames no acervo do MoMA:
a partir do alto, Myst (EUA, Cyan
Worlds, 1987), criação de Rand Miller
e Robyn Miller; Vib-Ribbon (Japão,
Sony, 1997), de Masaya Matsuura;
Katamari Damacy (Japão, Namco
Bandai, 2003), de Keita Takahashi;
The Sims (EUA, Electronic Arts,
2000). Abaixo, Snake/Worm 
(EUA, Peter Trefonas, 1978)







Antonelli explica que o mundo dos videogames é apenas um das séries abordadas na exposição do MoMA, junto a várias outras que abordam tanto as inovações como algumas das peças que se tornaram verdadeiros clássicos em vários setores da vida cotidiana. “O mundo dos videogames é uma das possibilidades que o Design proporciona, seja na internet, seja em oficinas e ateliês, seja dimensionando o 5D, seja na bioengenharia, na solução de cenários críticos e, sim, até mesmo na criação de móveis e utensílios domésticos. Mas o videogame é apenas uma entre muitas e muitas outras possibilidades".

Vários exemplos da vitalidade e da diversidade do Design contemporâneo serão apresentados na mostra de forma pioneira, tanto pelo ineditismo do tema quanto pelas estratégias de apresentação das obras e de interação com o público. E não faltam objetos e funções inusitadas, entre eles criações notáveis. "Destaco especialmente duas obras de designers que vêm da cultura árabe e que têm um forte apelo humanitário", completa Antonelli. “Não há como não ficar em estado de completa surpresa quando descobrimos que aquela forma quase incompreensível é um detonador de minas, criado pelo jovem afegão Massoud Hassani, ou aquela outra, que lembra uma antiga embarcação, feita para transformar areia do deserto em vidro usando apenas a energia do sol”.









Mostra de design e videogames
no MoMA: a partir do alto, Mine
Kafon Wind-Powered Deminer
(1983), detonador de minas movido
pelo vento, construído em plástico
biodegradável e bambu, criação de
Massoud Hassani, designer alemão
nascido no Afeganistão; Basic House,
a casa básica criada em 1999 pelo
designer espanhol Martín Ruiz de
Azúa; e Wind Map, software que
permite mapeamento completo de
ventos e correntes marítimas, criação
da designer brasileira Fernanda
Bertini Viégas em parceria com o
norte-americano Martin Wattenberg.
Abaixo: 1) uma tela de flOW, criado
como videogame independente em
2006 pelo chinês Jenova Chen e
retrabalhado por ele em 2007 para
a plataforma PlayStation Portable;
2) a instalação de SimCity 2000
com telas interativas em alta definição;
e mais três videogames recentes
incluídos na mostra Applied Design
e no acervo do museu: Dwarf Fortress
(EUA, 2003), criação de Tarn Adams
e Zach Adams; EVE Online (Islândia,
CCP Games, 2003) e Portal (EUA,
Valve Industries, 2007)




 .






Mestres da eletrônica e historiadores



Ainda que a seleção de obras inclua tanta diversidade e aplicabilidade, para a maior parte do público por certo não há como ficar indiferente à coleção de videogames em exibição. Para empreender o evento inédito e ambicioso, que com a coleção de videogames dá início a um novo ramo do acervo do MoMA, a curadoria contou com uma extensa lista de consultores – incluindo mestres e pesquisadores ligados às universidades, especialistas da indústria de eletrônicos e historiadores, além da equipe de Arquitetura e Design do MoMA, sob a coordenação de Paola Antonelli.

Cada obra em exposição, tanto as peças utilitárias como as séries de videogames, é apresentada em seu formato original, incluindo projeções em painéis de alta definição, semelhantes às instalações de videoarte, mas com todos os acessórios necessários ao manuseio do objeto ou ao jogo, todos conectados, para que o público possa interagir. Sucesso de público garantido, a priori, mas não faltarão críticas pessimistas, apontando que videogames são mero passatempo, um objeto de diversão e não uma obra de arte.

Como antídoto ao pessimismo apocalíptico, vale lembrar as lições do visionário alemão Walter Benjamin (1892-1940), um dos primeiros a ressaltar as alterações na percepção humana que cada época produz e projeta, pela atenção ou pela distração, em seu célebre ensaio de 1936, "A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica". Sinal dos tempos: como é previsível que legiões de adolescentes sejam atraídas pelo evento, incomum para a programação de um museu tradicional, a curadoria treinou equipes de monitores que estarão de plantão para orientar sobre o funcionamento de cada game, a linguagem de programação utilizada e suas respectivas inovações ou qualidades estéticas em destaque, em plataformas on-line e off-line que enumeram dos antigos fliperamas a computadores, celulares, dispositivos móveis em geral e consoles em formatos diversos. Cada um deles trazendo em si mesmo as recordações de outras épocas, quando o futuro parecia um lugar muito, muito distante.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Arte e videogame. In: ______. Blog Semióticas, de março de 2013. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2013/03/arte-e-videogame.html (acessado em .../.../...).



Para uma visita on-line à exposição “Applied Design”,  clique aqui. 




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14 videogames adquiridos
pelo acervo do MoMA:


• Pac-Man
• Tetris
• Another World
• Myst
• SimCity 2000
• vib-ribbon
• The Sims
• Katamari Damacy
• EVE Online
• Dwarf Fortress
• Portal
• flOW
• Passage
• Canabalt 
  









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