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25 de junho de 2015

Arte e tecnologia










O artista não tem outro dever
senão o de satisfazer ou exprimir
seu próprio sentir, mas isso não
teria qualquer interesse se fosse
o sentir comum. O artista tem
o dever de ser uma exceção.

Giulio Carlo Argan (1909-1992)



Quais são as obras-primas mais originais e criativas da História da Arte? A resposta correta, que envolve questões de extrema complexidade, poderia ser apresentada sem incorrer em desvios provocados por preconceitos e por diferenças relacionadas a gostos pessoais? Um experimento do departamento de Ciências da Computação da Rutgers University of New Jersey (EUA) arriscou responder a estas duas perguntas e mereceu um destaque incomum para assuntos científicos nos principais veículos da imprensa internacional na semana que passou.

Do inglês “The Guardian” ao espanhol “El País”, do japonês “Asahi Shimbun” ao norte-americano “The New York Times”, entre outros baluartes do jornalismo em vários países, extensas reportagens apresentaram o mais novo experimento cibernético e seus resultados – que lembram aqueles enredos fantásticos dos clássicos da ficção científica. A partir do nome do autor da obra, da data e de seu contexto dentro da História da Arte, a equipe acadêmica da Rutgers University, coordenada pelo professor Ahmed Elgammal, desenvolveu um algoritmo (programa de sequências lógicas e finitas de instruções para executar uma tarefa) de computador capaz de quantificar e avaliar a criatividade de uma obra de arte.

O resultado, por certo surpreendente, revela novos parâmetros e avanços do que se convencionou denominar como A.I. – Artificial Inteligence. O experimento inédito, coordenado por Elgammal, investe em desdobramentos dos estudos do pioneiro da Semiótica, Charles Sanders Peirce (1839-1914), para criar, em ambiente tecnológico, uma extensa rede de conexões entre artistas, quadros, estilos e épocas diferentes – apresentando como resultado análises quantitativas e juízos de valor estabelecidos pelos cálculos de uma Inteligência Artificial.






Arte e Tecnologia: no alto, El Cristo
Crucificado, pintura de 1780 do espanhol
Francisco de Goya, classificada em
primeiro lugar entre as obras mais originais
e criativas da História da Arte pelo
experimento com algoritmos em computador
na Rutgers University. Acima, Bananas
and Grapefruits n° 1, pintura em óleo
sobre tela de 1972 do norte-americano
Roy Lichtenstein, apontada em segundo
lugar; e um dos gráficos demonstrativos 
do experimento, tendo no eixo horizontal
o ano de criação da obra e, no eixo vertical,
a escala de pontuação alcançada para os
critérios de originalidade e de criatividade

 



 Filósofo e matemático, totalmente incompreendido em seu tempo, Peirce, o primeiro entre os teóricos da Semiótica, dedicou a vida às investigações sobre o pensamento, a informação e a criação, em proposições que fundamentam ainda hoje a Cibernética e as Ciências Cognitivas, além das pesquisas sobre Filosofia da Linguagem nas mais diversas áreas do conhecimento. A complexidade das teorias de Peirce sobre os signos e seu “objeto dinâmico” foi retomada pela equipe de Elgammal para alcançar resultados que aproximam Arte e Ciência em novas e inquietantes interfaces.



Filosofia e Criatividade



O novo experimento colocou em prática uma análise que parece impossível para a escala de compreensão humana: um estudo comparado em mais de 2.600 aspectos de análise sobre mais de 60 mil obras de arte, incluindo das informações sobre estilo às questões de matizes de cores, de traços e de perspectivas. Os autores do estudo (veja o link para acessar a íntegra do relatório sobre o experimento no final deste artigo) usaram a definição de criatividade proposta por Elliot Samuel Paul e Scott Barry Kaufman (em “The Philosophy of Creativity”, tese publicada em maio de 2014) como “algo que seja original, diferente do que foi feito até o momento, e que tenha influência marcante sobre as obras posteriores”.


 




Arte e Tecnologia: entre as obras-primas
em destaque nos quesitos originalidade
e criatividade, segundo o “Experimento
Máquina do Tempo”, estão, a partir do alto,
 Skrik (O Grito), de 1895, do norueguês
Edvard Munch; e Les demoiselles
d'Avignon (As Senhoritas de Avignon),
pintura de 1907 do espanhol Pablo Picasso.
Abaixo, a Madonna Dreyfus (Madonna
della Melagrana), obra de 1469 do
italiano Leonardo da Vinci; e Gezicht
op Delft (Vista de Delft), pintura de 1661
do mestre holandês Johannes Vermeer











Usamos uma definição precisa de criatividade, aquela que enfatiza a originalidade do produto e seu valor influente”, justifica no relatório final Ahmed Elgammal, coautor do algoritmo, em parceria com Babak Saleh, também professor do departamento de Ciências da Computação da Rutgers University. Segundo Elgammal, a estrutura computacional proposta teve por base a construção de uma rede específica em múltiplas conexões com o objetivo de levar a Inteligência Artifical a inferir sobre a originalidade e a influência de cada uma das mais de 60 mil obras de arte analisadas.

Uma vez codificadas as imagens de cada obra de arte”, completa Elgammal, “o algoritmo passou a medir a originalidade, calculando quanto há de diferenças em relação a seus antecessores no tempo”. A partir da base de dados dos sites Artchive e Wikiart, Elgammal e equipe estabeleceram sua amostragem de análise entre mais de 60 mil imagens produzidas por artistas no período histórico que vai da Baixa Idade Média (século 15) até o ano de 2010. O nome escolhido pela equipe para denominar o projeto não poderia ser mais alegórico e instigante: "Time Machine Experiment" (Experimento Máquina do Tempo).



Cânones da História da Arte



O relatório final da equipe do departamento de Ciências da Computação da Rutgers University, que será apresentado durante o simpósio internacional Computational Creativity (ICCC), de 29 de junho a 29 de julho em Park City, Utah (EUA), quantifica entre as mais originais e criativas obras-primas da História da Arte uma seleção de obras-primas que atualmente está distribuída entre os mais importantes acervos dos grandes museus e dos mais privilegiados colecionadores.


 

Arte e Tecnologia: acima, Corridor
in Saint-Paul Hospital, pintura
de 1889 do holandês Vincent van
Gogh. Abaixo, uma das pinturas da
série Composition blanc, rouge
et jaune, obra de 1936 de outro
holandês, Piet Mondrian





Em primeiro lugar, na lista de obras-primas classificadas pelo experimento, figura “El Cristo Crucificado” (1780), pintura do espanhol Francisco de Goya, seguida, pela ordem estabelecida pelos cálculos do algoritmo, por “Bananas and Grapefruits nº 1” (1972), do norte-americano Roy Lichtenstein; pela série de quatro pinturas em óleo sobre tela denominada “Skrik” (O Grito), concluída por volta de 1895 pelo norueguês Edvard Munch; e por “Les demoiselles d'Avignon” (As Senhoritas de Avignon)”, pintura de 1907 do espanhol Pablo Picasso.

Além das quatro primeiras colocações, outros gigantes da Arte desde a Idade Média também aparecem entre os mais originais e criativos – entre eles Leonardo da Vinci, Michelangelo, Albrecht Dürer, Diego Velázquez, Claude Monet, Vincent Van Gogh, Auguste Rodin, Kazimir Malevich, Salvador Dalí e Piet Mondrian. Não por acaso, o ranking da classificação das obras através do algoritmo confirma os cânones apontados por célebres estudos de História da Arte, entre eles os compêndios de Ernst Hans Josef Gombrich ou de Giulio Carlo Argan – unânimes em apontar obras e artistas também citados pelo experimento de Elgammal entre os mais criativos dos últimos séculos, seja pela originalidade em seu tempo ou pela grande influência em períodos posteriores.



Arte e tecnologia: Acima, gráfico
demonstrativo do experimento
da Rutgers University (no eixo horizontal,
o ano de criação da obra; no eixo vertical,
a escala de pontuação alcançada em
originalidade e criatividade). Abaixo,
duas obras-primas radicais do russo
Kasimir Malevich, destaque pela
originalidade e criatividade: Boy with
a Knapsack (Garoto com mochila),
pintura de 1915, e White on White 
(Quadrado branco sobre fundo
branco), de 1918






 












Na conclusão sobre o experimento com arte e algoritmos, o relatório assinado por Elgammal enumera os avanços alcançados no que se refere às Ciências da Computação e prevê as possibilidades de utilização do mesmo sistema em outras formas de criação e representação, tais como algoritmos de busca, de ordenação e de análises em campos diversos como a geometria, a criptografia e também a interpretação de textos.

Os resultados (do Experimento Máquina do Tempo) podem ter desdobramentos em vários conceitos aplicados tanto à arte como à ciência para alcançar as questões multidimensionais da vida cotidiana”, aponta o professor Ahmed Elgammal em sua conclusão. Em outras palavras, como diria o narrador daquele romance emblemático de Philip K. Dick, “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (Sonham os andróides com ovelhas elétricas?), que inspirou o filme “Blade Runner” – é sempre bom lembrar que o futuro está apenas começando.


por José Antônio Orlando.



Como citar:


ORLANDO, José Antônio. Arte e tecnologia. In: ______. Blog Semióticas, 25 de junho de 2015. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2015/06/arte-e-tecnologia.html (acessado em .../.../.../).



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Para comprar o livro "O processo criativo", de Claudio Castelo Filho,  clique aqui.




Para acessar a íntegra do relatório "Quantifying Creativity in Art Networks",
de Ahmed Elgammal e Babak Saleh,  clique aqui.


Para comprar o livro “The Philosophy of Creativity”, de Elliot Samuel Paul

e Scott Barry Kaufman,  clique aqui. 






31 de maio de 2015

Felice Beato e os Samurais










Mais de 500 anos depois das viagens lendárias e das descobertas do mercador Marco Polo, um outro cidadão nascido em Veneza trouxe, para o Mundo Ocidental, revelações impressionantes sobre os povos do Oriente. Nas décadas de 1850 e 1860, o italiano, depois naturalizado inglês, Felice Beato (1825-1909) tornou-se o primeiro a registrar em fotografias as cenas de guerras e também os povos da Ásia, com dedicação especial para Sumurais, Gueixas e outras figuras marcantes da cultura tradicional do Japão.

Além dos retratos etnográficos sobre a cultura japonesa com seu acréscimo de cores pintadas a mão pelo próprio fotógrafo – que tiveram exposições com sucesso impressionante de público em Veneza, Paris, Londres e outras capitais da Europa no final do século 19 – Felice Beato também produziu outras centenas de fotografias panorâmicas de paisagens, de cidades e dos povos que habitavam os territórios da China, Índia, Palestina, Egito e países da África.

Ao título de pioneiro da fotografia e do fotojornalismo, Felice Beato acrescentaria outro mérito: também foi o primeiro fotógrafo de guerra, registrando imagens da Guerra da Crimeia (1853-1856), da Rebelião na Índia contra a ocupação britânica (1957-1958) e da Guerra do Ópio na China (1856-1860), para espanto e comoção de seus contemporâneos europeus, que viviam admirados os primeiros tempos das novidades impressionantes que a fotografia começava a representar.











Felice Beato e os Samurais: no alto,
Samurais no Japão na década de 1860.
Acima, capa do catálogo fotográfico
Japon fin de siècle, que reúne uma
seleção das fotografias do pioneiro
Felice Beato no País do Sol Nascente





.


 




As guerras e o exotismo dos cenários



Contratado pela Coroa Britânica e por outros países da Europa para registrar imagens das tropas militares avançando pelo território inimigo, Felice Beato teve como missão, nas expedições de guerra, a tarefa de fazer registros amenos dos conflitos, sem mostrar muito sangue e sem fazer alarde sobre a tragédia, para exaltar a força e a superioridade dos europeus frente aos povos do Oriente. Contudo, a tarefa, muitas vezes, produziu resultados que impressionam mais pela violência do que pelo exotismo dos cenários.

O que se vê, nas imagens de guerra registradas por Felice Beato que chegaram até nossos dias, muitas delas resgatadas pelo livro publicado em 2014 pela pesquisadora francesa Catherine Pinguet ("Felice Beato, 1832-1909: Aux origines de la photographie de guerre", CNRS Editions) são cenas de violência e destruição, com corpos mutilados e soldados desolados. Em cada imagem, o fotógrafo revela cenários sombrios, repletos de informação sobre as circunstâncias da guerra, seus personagens, suas vestimentas e costumes – com predominância de retratos posados, já que os personagens precisavam ficar parados por muito tempo para o registro perfeito da fotografia, sempre dificultado por filmes pouco sensíveis e lentes improvisadas.











Felice Beato e as fotografias de guerra
em 1860: no alto, o exército britânico no
forte de Pei-Tang, na China, durante a
Guerra do Ópio. Acima, o cenário de
destruição com corpos espalhados após
o fim da batalha, no Forte de Taku.
Abaixo, o templo budista de Shiba,
em Tóquio, 1860, e uma embarcação 
transportando gueixas em Yokohama,
no Japão, em fotografia de 1865








 





Em 1860, com o fim da Guerra do Ópio, que levou ao confronto as tropas militares da China contra a Grã-Bretanha, Felice Beato interrompe por um breve período sua trajetória de viajante e aventureiro pelas terras do Oriente e retorna à Europa. Em Londres, o fotógrafo pioneiro vai comercializar a maior parte das imagens que havia produzido nas décadas anteriores, incluindo as cópias em papel cartonado e os negativos de vidro.



Imagens sem precedentes



A partir de Londres, o acervo de centenas de imagens sem precedentes produzidas por Felice Beato vai então se dispersar e gerar fortunas para seus compradores – entre eles alguns colecionadores de obras de arte, integrantes da nobreza e comerciantes que começavam a arriscar a sorte no negócio das imagens fotográficas. Depois da temporada em Londres, Felice Beato retornaria para o Japão, fixando residência em Yokohama, onde viveria até 1885, produzindo sua documentação fotográfica e as séries sobre Samurais e Gueixas.






Felice Beato e os Samurais: imagens
exóticas que impressionaram seus
contemporâneos na Europa e ainda
surpreendem, pela técnica apurada das
imagens produzidas com equipamentos
artesanais e pelo acréscimo de pinturas
coloridas feitas a mão pelo fotógrafo



 






Considerado perdido durante mais de um século, o acervo de fotografias do pioneiro Felice Beato foi em parte resgatado, finalmente, com publicações em livros e catálogos fotográficos a partir da década de 1980. Uma nova leva de imagens inéditas produzidas pelo fotógrafo pioneiro acaba de ser apresentada em uma exposição na Inglaterra, a London Photograph Fair 2015, além da publicação do catálogo fotográfico “Japon fin de siècle”. Editado na França pela Casa Arthaud, o catálogo reúne 70 fotografias originais e inéditas de Felice Beato e estudos biográficos a cargo de especialistas em História da Fotografia, entre eles Pierre Loti e Chantal Edel.

A exposição das imagens pioneiras dos Samurais e Gueixas na London Photograph Fair 2015 foi realizada graças à colaboração dos herdeiros de Sir Henry Hering. No final do século 19, Hering era proprietário de um estúdio fotográfico em Londres e comprou as fotografias diretamente do próprio Felice Beato. Na França, a publicação do catálogo “Japon fin de siècle” também contou com o acervo de coleções particulares, cedidas pela primeira vez pelos herdeiros de antigos colecionadores.







As cenas mais antigas do Japão
registradas por Felice Beato: acima e
abaixo, gueixas e cortesãs em Tóquio
fotografadas na década de 1860 e reunidas
no catálogo fotográfico Japon fin de siècle 
 





Parâmetros para o fotojornalismo



Além de apresentar 70 imagens inéditas, “Japon fin de siècle” também reproduz o material que havia sido divulgado pela primeira vez na década de 1980, em outro catálogo fotográfico, Mukashi Mukashi, também editado pela Casa Arthaud, que reuniu pela primeira vez as fotografias originais de Felice Beato sobre os Samurais e Gueixas no Japão do século 19. Um outro portfólio, com 60 fotografias selecionadas de Felice Beato no Japão, foi publicado em 1994, na França, pela coleção Photo Poche do Centre National Photographie: “Felice Beato et l'école de Yokohama”.

O catálogo Photo Poche traz, na verdade, uma compilação das fotografias que antes foram reunidas em Mukashi Mukashi e em dois livros dedicadas exclusivamente ao fotógrafo: Once Upon a Time: Visions of Old Japan (Friendly Press, EUA, 1986), Felice Beato: Viaggio in Giapponne (Federico Motta Editore, Itália, 1991). Nos anos seguintes ao lançamento de Mukashi Mukashi, mais fotografias inéditas de Felice Beato surgiram publicadas em outros três livros ilustrados: Of Battle and Beauty: Felice Beato's Photographs of China (California Academy of Sciences, EUA, 2000), Felice Beato en Chine (Somogy, França, 2005) e Felice Beato: A Photographer on the Eastern Road (Chicago University Press, EUA, 2010). Em 2014, outra biografia ilustrada foi publicada na França: Felice Beato: Aux origines de la photographie de guerre (Ed. Cnrs), de Catherine Pinguet, também reunindo fotografias que foram publicadas nas edições anteriores.     

No novo catálogo, “Japon fin de siècle”, que traz fotos inéditas e uma seleção dos trabalhos mais conhecidos de Felice Beato, um dos ensaios biográficos, assinado por Chantal Edel, revela documentos também inéditos localizados em acervos do Japão e da China que esclarecem dúvidas sobre a trajetória do pioneiro da fotografia. Entre as novidades apresentadas, Chantal Edel confirma a existência de um irmão de Felice, Antonio, também fotógrafo, além de relatar detalhes sobre seu processo de trabalho e as importantes parcerias que estabeleceu em suas aventuras pelo Oriente, e na cobertura de guerras, com outros pioneiros da fotografia, entre eles James Robertson e Roger Fenton, e com Charles Wirgman, fundador e editor do “Japan Punch”, considerado o primeiro jornal japonês.







Felice Beato e as tradições do Japão 
na década de 1860: no alto, trabalhadores
na fabricação de lanternas e luminárias.
Acima, um encontro festivo de
Samurais e Gueixas em Tóquio. Abaixo,
homens em cena no teatro Nô e Kabuki;
e uma jovem mãe carregando seu filho,
fotografia reproduzida na capa do livro
publicado pela italiana Rossella Menegazzo

  
 









Segundo Chantal Edel, a sorte e as circunstâncias históricas levaram Felice Beato a ser contratado em diversos períodos para prestar serviços diplomáticos para a Inglaterra, a Grécia e os Estados Unidos em países da Ásia e da África antes de chegar ao Japão, no primeiro período de abertura daquele país a estrangeiros, por volta de 1860, depois de séculos de completo isolamento. No Japão, o fotógrafo encontra dificuldades e problemas como um grande incêndio em 1866 seu estúdio, instalado em Yokohama, mas consegue preservar ainda centenas de fotografias, sendo que a maior parte delas seriam registros sobre os últimos samurais do Xogunato Tokugawa e de antigas tradições que chegavam ao fim.

Com as experiências acumuladas de viajante e de manuseio dos equipamentos em condições adversas, Felice Beato transforma sua surpresa e curiosidade com a tradição cultural japonesa em documentação sem precedentes, através da fotografia, como destaca Chantal Edel na conclusão de seu estudo biográfico publicado em “Japon fin de siècle”. Muito além do exotismo e do espanto que provocaram em seus contemporâneos e conterrâneos europeus, cenários, paisagens e personagens fotografados em expedições pelo pioneiro Felice Beato foram e ainda são de fundamental importância para estudos sobre a etnografia do Japão e demais países do Oriente nas universidades ocidentais – abrindo caminho para novos pesquisadores e estabelecendo parâmetros para os avanços que a fotografia e o fotojornalismo conquistaram nos séculos seguintes.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Felice Beato e os Samurais. In: ______. Blog Semióticas, 31 de maio de 2015. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2015/05/felice-beato-e-os-samurais.html (acessado em .../.../...). 





 





Felice Beato na Terra do Sol Nascente: no alto, Tóquio em
1868, quando tornou-se a capital do império do Japão. Acima,
Gueixas em Tóquio. Abaixo, a rua principal de Yokohama,
que o fotógrafo pioneiro adotou como residência entre 1862
e 1885, e um dos últimos samurais do Xogunato Tokugawa,
em fotos reproduzidas de negativos em vidro datados de 1865











11 de abril de 2015

Olhar estrangeiro no Candomblé








O que me interessa é o papel que tem o Candomblé
ao conferir dignidade aos descendentes dos escravos.
Aqui eles chegaram a ser gente mesmo, gente
respeitada por suas próprias tradições.


––   Pierre Verger (1902-1996)    





Um acervo surpreendente com cerca de 200 fotografias inéditas que registram o Candomblé da Bahia nas décadas de 1930 e 1940 foi localizado esta semana em Pernambuco. O valor da descoberta impressiona ainda mais depois da revelação da identidade do autor das fotografias – o alemão Thomás Kockmeyer, que era frei da Ordem dos Franciscanos da Igreja Católica e foi ordenado em 1938 no Brasil, onde viveu durante cinco décadas.

Kockmeyer, entusiasta da fotografia, driblou a intolerância racial e religiosa da época e registrou as belas imagens de comunidades negras e seus rituais de Candomblé no Recôncavo Baiano. Fotografias, objetos e outros documentos foram encontrados no Recife, em Pernambuco, pela equipe do Arquivo Provincial Franciscano que desde 2014 trabalha no projeto Resgate Documental da Província Franciscana de Santo Antônio do Nordeste do Brasil.

As 200 fotografias no formato 5 x 7 cm, ao que tudo indica, estavam guardadas há décadas no Recife, no Convento de Santo Antônio, em uma pequena caixa de madeira com os dizeres “Candomblé – Fotografias de Frei Thomás Kockmeyer”. São imagens de grande valor documental que registram os moradores de comunidades negras da região do Recôncavo Baiano, alimentos, indumentárias e rituais religiosos de matriz africana. O projeto Resgate Documental, que tem patrocínio da Petrobras, pretende recuperar arquivos históricos de documentos e objetos relacionados aos quatro séculos da história da Ordem Franciscana da Igreja Católica no Brasil.









Olhar estrangeiro no Candomblé da Bahia:
no alto, uma das fotografias registradas na
década de 1930, no Recôncavo Baiano,
pelo frei franciscano Thomás Kockmeyer
(acima, no retrato publicado no necrológio
da Revista de Santo Antônio, e em
fotografia de 1958 na região de Santarém,
na floresta amazônica, durante uma temporada
de sete meses com Protásio Frikel, um
ex-franciscano que viveu muitos anos
com as tribos Tiriyó). Abaixo, Convento
de Santo Antônio, no Recife, onde foram
descobertas as fotografias de frei Kockmeyer







O trabalho da equipe do projeto Resgate Documental teve início em 2014 por iniciativa do coordenador de Patrimônio da Província Franciscana, frei Roberto Soares. O objetivo do projeto é reunir os acervos de raridades históricas que incluem imagens, manuscritos, cartas, certidões, livros, fotografias, fitas cassetes, discos em vinil, partituras e filmes que retratam a vivência religiosa, social, cultural e administrativa dos franciscanos no Brasil. 



Cenas e personagens anônimos



A pesquisa e coleta do material, que resultou na descoberta das fotografias feitas pelo frei Kockmeyer, acontece em mais de 40 localidades que, desde o início do século 16, abrigam ou abrigaram conventos e igrejas da Ordem Franciscana nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Alagoas, Sergipe, Bahia e Pará. A previsão é que nos próximos meses o acervo esteja restaurado, organizado e aberto ao público para consulta no Recife, no Arquivo Provincial Franciscano, e também através da Internet.
 







Olhar estrangeiro no Candomblé: acima e abaixo,
fotografias do frei Thomás Kockmeyer registradas
nas décadas de 1930 e 1940 no Recôncavo Baiano










As cenas e personagens anônimos fotografados pelo frei Thomás Kockmeyer, além de despertar interesse por seu ineditismo e pela identidade inusitada do fotógrafo, revelam detalhes importantes sobre a religião e os hábitos cotidianos de comunidades negras da Bahia, suas festas, vestimentas, objetos sagrados e movimentação nos rituais. Além dos registros sobre o Candomblé, durante os quase 50 anos em que esteve no Brasil o frei franciscano também se dedicou a pesquisas sobre história e sobre os povos indígenas.

De acordo com o informe publicado pela coordenação do projeto Resgate Documental, também foram localizados documentos e outras fotografias relacionados aos estudos de frei Kockmeyer, incluindo registros de duas expedições de pesquisa de campo que o religioso realizou, em 1950 e em 1958 – quando ele passou uma temporada de sete meses com os índios Tiriyó, no estado do Pará. Frei Thomás Kockmeyer morreu em 1978, aos 65 anos, em um acidente de carro, e foi enterrado em Rio Formoso, cidade do interior de Pernambuco onde ele exercia as funções de vigário.















América Negra



Antes desta descoberta do acervo no Recife, as únicas referências sobre as pesquisas etnográficas e as fotografias do frei Thomás Kockmeyer estavam nos livros publicados pelo sociólogo francês Roger Bastide (1898-1974), que a partir de 1938 fez parte da missão de professores europeus na então recém-criada Universidade de São Paulo (USP). Roger Bastide morou durante 20 anos no Brasil, atuando na USP, no Rio de Janeiro e também em estados do Norte e do Nordeste.

Dedicado a estudos sobre religiosidade e misticismo, Bastide é reconhecido como um dos principais pesquisadores sobre as religiões afro-brasileiras e chegou a se tornar um iniciado no Candomblé. Na década de 1940, conheceu na Bahia o trabalho do frei Kockmeyer sobre o Candomblé e os rituais religiosos de matriz africana, que posteriormente seria descrito e citado como referência na tese de doutorado de Bastide na Universidade de Paris-Sorbonne, “O Candomblé da Bahia – Transe e Possessão no Ritual do Candomblé” (1957), e também em “Brasil, Terra dos Contrastes” (1957), “As Religiões Africanas no Brasil” (1958) e “As Américas Negras” (1967), entre outros livros publicados pelo sociólogo.









Olhar estrangeiro no Candomblé da Bahia:
o sociólogo francês Roger Bastide em visita a
Salvador, fotografado na década de 1940. Abaixo,
Zélia Gattai e Jorge Amado em Salvador, com
Mãe Senhora e os franceses Simone de Beauvoir
e Jean-Paul Sartre, em 1960; e o encontro em
Salvador de Caetano Veloso e Jorge Amado
com o português José Saramago em 1996









O babalaô “Fatumbi”



Além de Roger Bastide, outro francês que conheceu em meados do século 20 as pesquisas e fotografias de frei Thomás Kockmeyer foi Pierre Verger (1902-1996), fotógrafo e antropólogo francês que adotou Salvador como residência a partir da década de 1940. Verger dizia em entrevistas que se apaixonou pela Bahia ao ler “Jubiabá”, romance de Jorge Amado publicado em 1935. Jorge Amado e o artista plástico Carybé, anos depois, fariam parte do grupo dos grandes amigos de Verger em terras brasileiras.

A aproximação com Roger Bastide e Pierre Verger também levaria os amigos Jorge Amado e Carybé a receberem como convidados, em Salvador, outros importantes escritores, artistas e filósofos de outros países – entre eles os franceses Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, o argentino Julio Cortázar, o italiano Umberto Eco, e pelo menos três vencedores do Prêmio Nobel de Literatura: o colombiano Gabriel García Márquez, o chileno Pablo Neruda e o português José Saramago – de passagem pelo Brasil e interessados em conhecer a Bahia, o Candomblé e os cultos de matriz africana dedicados à fé nos orixás.   

Quando passa a morar em Salvador, em 1946, Pierre Verger inicia suas pesquisas sobre a religião e a cultura negra da África e do Brasil, o que o levaria aos primeiros contatos com o trabalho do frei Kockmeyer. Verger, que se tornaria um dos grandes estudiosos dos cultos aos Orixás, recebeu em 1953 o nome ritualístico “Fatumbi” e foi iniciado como babalaô, um adivinho através do jogo de búzios do Ifá, com acesso às sagradas tradições orais da cultura Iorubá.












Três amigos em Salvador, Bahia, fotografados
em meados da década de 1970: Pierre 'Fatumbi'
Verger, Jorge Amado e Carybé – nome artístico
do argentino naturalizado brasileiro Hector Julio
Páride Bernabó (1911-1997), pintor, desenhista,
escultor e historiador que trocou seu país pelo
Brasil em 1949, ao conhecer a Bahia, e que
dedicou-se durante décadas a registros sobre
o Candomblé, entre eles belos desenhos e
aquarelas como Cerimônia para Oxalufã
(acima). Abaixo, Carybé junto com o chileno
Pablo Neruda e Jorge Amado em Salvador,
no começo da década de 1970; Jorge Amado
fotografado por Zélia Gattai com Gabriel García
Márquez em 1974 e com José Saramago em 1985;
Jorge Amado com Dorival CaymmiMãe Menininha
do Gantois em 1980, fotografados por Gildo Lima;
e uma seleção de fotografias de Pierre Verger em
Salvador: 1) o fotógrafo em autorretrato no ano de
1952; 2) a Festa de Iemanjá no Rio Vermelhoem
Salvador, 1947; 3) Dona Maria Bibiana do
Espírito Santo, Mãe do Terreiro Axé Opô Afonjá,
 em 1948; e 4) duas imagens que registram
ritual do Candomblé em 1957

















 



Em 1988, o próprio Pierre Verger transformou a casa em que morava, na Ladeira da Vila América, em Salvador, na sede da Fundação Pierre Verger, que passou a abrigar uma preciosa biblioteca sobre as religiões africanas no Brasil, um acervo com obras de arte e mais de 60 mil fotos de sua produção, em grande parte dedicada ao Candomblé. Não por acaso, o antropólogo Raul Lody, atual curador da Fundação Pierre Verger, também faz parte da equipe de pesquisa do Arquivo Provincial Franciscano que localizou, no Convento de Santo Antônio, no Recife, o acervo de documentos e fotografias sobre o Candomblé registrados pelo frei Thomás Kockmeyer.


por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Olhar estrangeiro no Candomblé. In: ______. Blog Semióticas, 11 de abril de 2015. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2015/04/olhar-estrangeiro-no-candomble.html (acessado em .../.../...).


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