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15 de maio de 2012

Estilo Crumb






Desisti de ser um grande desenhista, porque, quando
estava no segundo grau, percebi que o formato havia
ficado travado, formulizado, preso a padrões rígidos
e comerciais. Eu me considerava completamente
inadequado a esses padrões.

–– Robert Crumb    







Descobri a arte do norte-americano Robert Crumb quando eu era menino, em Barbacena, no interior de Minas Gerais. Meu tio assinava duas revistas na época de difícil acesso, “Mad” e “Grilo”, e tive o privilégio de ser o segundo leitor assim que cada exemplar chegava pelo correio. Tempos depois, também encontrei aqueles traços característicos do Crumb, estranhos e bem-humorados, nas capas dos discos de Janis Joplin e de mestres do blues. Mas demorou até que eu encontrasse suas HQs em livro. Demorou, mas aconteceu: algumas das melhores obras de Crumb agora estão publicadas no Brasil.

Entre suas obras-primas mais recentes está uma adaptação da Bíblia Sagrada: o mais genial e iconoclasta dos cartunistas em atividade, hoje aos 69 anos de idade, ousou levar para o mundo dos quadrinhos o Gênesis, primeiro livro da Bíblia, que narra a criação do mundo e a história de Adão e Eva. Mas a surpresa sobre sua nova investida vai se dissipando quando o leitor percebe que o Gênesis traz desde a Antiguidade alguns dos ingredientes que fizeram a fama de Crumb nas últimas décadas.





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A arte de Robert Crumb: no alto,
ilustração da capa de Blues. Acima,
ilustração e capa da edição em inglês
de Gênesis. Abaixo, uma amostra do traço
de Crumb para uma cena bíblica; a capa da
edição em espanhol; e a sisuda e recatada capa
da edição nacional, lançada pela Conrad







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"Se minha interpretação visual e literal do livro do Gênesis ofender ou ultrajar alguns leitores", escreveu Crumb na apresentação, "o que parece inevitável dada a reverência de tantas pessoas por ele, tudo o que posso dizer em minha defesa é que abordei isto como um trabalho de pura ilustração, sem intenção de ridicularizar ou fazer piadas visuais". A ressalva do autor é, no mínimo, sincera, porque o Deus todo-poderoso do judaísmo e do cristianismo, como não poderia deixar de ser, é o protagonista destacado no Gênesis segundo Crumb.

Mas no traço do cartunista, que nasceu em uma família católica, trata-se de um Deus vingativo, carregado de raiva e com longos cabelos e barbas. Crumb também confessa que uma noite, há muitos anos, sonhou com a figura exatamente como ela aparece retratada, antes mesmo de pensar em fazer sua versão em quadrinhos para o texto da Bíblia Sagrada. Sem pestanejar, esse Deus comete dois genocídios no intervalo de poucas páginas – um durante o Dilúvio que tem Noé como protagonista, no episódio da arca da salvação; outro na chuva de fogo implacável que vem dizimar as cidades de Sodoma e Gomorra.

Crumb também recria toda aquela sucessão de incestos, sacrifícios, inveja e misoginia que os judeus veneram na Torá e os cristão fundamentalistas idolatram no Antigo Testamento. Ele diz que dedicou cinco anos de trabalho diário para concluir a adaptação e, na breve introdução ao livro, destaca que tentou ser muito respeitoso com as crenças religiosas milenares.



Gênesis e Blues


Se minha interpretação literal e visual do Gênesis ofende alguns leitores”, alerta, “em minha defesa só posso dizer que me aproximei dele como um trabalho meramente ilustrativo, sem intenção de ridicularizar nada nem fazer brincadeiras visuais”. O lançamento de “Gênesis” aconteceu simultaneamente em 20 países, incluindo o Brasil, precedido pela publicação de trechos na revista mais influente dos EUA, a “The New Yorker”, que tem Crumb em seu elenco de colaboradores. 

 






A estratégia de lançamento levou “Gênesis” para as listas dos mais vendidos, um feito raríssimo para uma publicação em quadrinhos. Além do “Gênesis”, Crumb agora está disponível nas livrarias brasileiras com alguns de seus álbuns especialíssimos, publicados pela editora Conrad, incluindo, entre outros, “Minha Vida”, “Blues”, “América”, “Meus Problemas com as Mulheres”, “Fritz, the Cat” e “Mr. Natural”.

Há ainda “Kafka de Crumb”, que além dos desenhos do cartunista traz texto de David Zane Mairowitz. Os álbuns de Crumb editados pela Conrad não chegam a ser uma HQ e nem um livro propriamente dito, mas flutuam entre ambos. Assim como os outros clássicos de Crumb, “Kafka” traz resumos, análises e seus desenhos característicos – no caso, imagens que traduzem “A Metamorfose”, “Na Colônia Penal”, “O Processo” e “O Castelo”, entre outros escritos de Kafka, considerado por muitos o nome mais fundamental da literatura do século 20. 

 






Além dos álbuns de HQ, a arte do cartunista também é celebrada em um documentário antológico – “Crumb”, produzido por David Lynch e dirigido por Terry Zwigoff em 1994. O filme reúne imagens de arquivo, charges e depoimentos – do próprio Crumb e de seus amigos e parentes. Há cenas impagáveis, como o irmão descrevendo rituais inacreditáveis ou Crumb imitando Janis, que lhe disse: “Oh, Robert, precisa deixar o cabelo crescer, botar uma bata, calça boca-de-sino. Tá muito caretão”. Crumb conta e se diverte – como virginiano, ele prefere os uniformes: as mesmas roupas no mesmo estilo.



Bizarro e politizado



O humor mais bizarro e politizado de Crumb aparece por inteiro em “Minha Vida”, autobiografia em quadrinhos que mantém a contestação gaiata que fizeram dele uma lenda entre os clássicos imbatíveis da era do rock. Imagens e piadas visuais, ideias ousadas e uso diversional de sexo e alucinógenos, que ele vem burilando desde o final dos anos 1950, contra o pior conservadorismo, revelam em “Minha Vida” as experiências confessionais do autor e constroem seu melhor melhor personagem: ele mesmo.









Com doses generosas de muita sinceridade, muito humor negro e nenhuma concessão à moral vigente na indústria cultural, “Minha Vida” encadeia histórias publicadas do começo dos anos 1970 a 1994, incluindo cartuns, autorretratos, narrativas mais extensas e outras de poucas páginas ou até de apenas um quadro, tanto em preto-e-branco como no mais lisérgico colorido. Seu traço febril, distorcido, genial e demolidor, explode em sarcasmo subversivo contra tudo e contra todos.

Em “Minha Vida”, Crumb fala de si com nenhuma piedade, enumerando seus melhores ataques contra a hipocrisia, mais os escândalos e muitos problemas com a justiça nos Estados Unidos, que o levariam por fim ao exílio na Europa na última década. Em 2010, quando esteve no Brasil como convidado especial da Flip – a Feira Literária de Paraty – Crumb surpreendeu a todos na entrevista coletiva: disse que viajou meio a contragosto e que só aceitou o convite depois de muita insistência da esposa, a também cartunista Aline Kominsky. 





 
Crumb mora com a esposa e a filha desde 1991 na França e, neste autoexílio, passa a maior parte do tempo ouvindo discos antigos, lendo e desenhando. Além da dedicação à sua versão do Gênesis, nos últimos anos ele também vem produzindo projetos por encomenda e histórias curtas para jornais e revistas, incluindo a “The New Yorker” e a “W”, especializada em moda e comportamento.

Para a “W”, uma das criações recentes de Crumb foi a retrospectiva em capítulos sobre a trajetória feminina através dos séculos, seguindo das agruras das mulheres no tempo das cavernas até maquinações mais atuais e espúrias de personagens estranhos como Lyndee England, aquela militar norte-americana que, em 2003, foi fotografada torturando prisioneiros no Iraque. Crumb e seu humor são implacáveis.






 

Literatura, jazz e rock'n'roll



Jazz, blues, rock'n'roll e altas literaturas permeiam cada quadro na narrativa de “Minha Vida”, entre passagens de estilo gráfico surpreendente, breves, inconformistas. O mundo característico de Crumb e sua bizarria fornecem o fio condutor a cada traço em fragmento confessional, intercalados por poucas páginas de textos, algum trecho de entrevista e uma ou outra anotação circunstancial.

A síntese da contracultura passa pelo imaginário que Crumb retrata nos quadrinhos. Em “Minha Vida”, esta síntese inclui a infância católica em subúrbios protestantes na Philadelphia (onde ele nasceu, em 30 de agosto de 1943), a escola sempre repressora, a família substituída na adolescência pelas experiências quando foi morar com o irmão mais velho (que o levariam em definitivo ao mundo da música, da libido à flor da pele e da psicodelia), os primeiros desenhos publicados, os hippies de San Francisco, os esoterismos e as manias de estrelas do pop-rock.







Enquanto “Minha Vida” carrega saborosas confidências autobiográficas, as mais antológicas lendas do blues, do jazz, do rock'n'roll e das origens da música popular na América do Norte estão reunidas em “Blues”, outra obra-prima do cartunista que ganhou da Editora Conrad uma edição das mais caprichadas. Detalhe: de acordo com o próprio Crumb, a versão brasileira é melhor e mais completa que a edição original em inglês.

Com bela encadernação em capa dura e colorida, “Blues” inclui – além dos casos mais surpreendentes sobre as origens da música na América, seus personagens principais, as bebedeiras, a vida na zona rural, os cantores cegos, a discriminação racial e os pactos nas encruzilhadas – todas as histórias em HQs, cartuns e tirinhas “musicais” criadas por Crumb, mais as belas capas de disco que ele produziu, as filipetas de culto dos colecionadores, os anúncios publicitários e os cartazes de shows que marcaram época.






Imagens de "Blues" –– álbum que,
na edição brasileira, reúne as lendas
mais antigas do blues, do jazz e do
rock'n'roll recriadas por Crumb,
incluindo os casos mais surpreendentes
sobre as origens da música popular
na América do Norte, seus personagens
principais e os shows que marcaram época







Crumb é impressionante. Seu traço característico, sujo, algo disforme, com formas grotescas que denunciam a proximidade com o universo das drogas alucinógenas, definem também o que de melhor a cultura underground produziu nas últimas décadas. Como apresenta muito bem o ensaio “Faróis da Eternidade”, de Rosane Pavam, que abre a edição nacional de “Blues”:

Crumb viu o sonho da liberdade nascer e escapar. Assistiu à decretação da morte de tudo – da religião, do cinema, da música, da dança – mas não a desejou. Libertar é diferente de matar, e o trator de Crumb passou sobre as senzalas suave-mente, bem raciocinado”.

Foi na década de 1960 que Crumb surgiu como referência da contracultura, com os baluartes de seus cartuns cáusticos que questionam valores. Sua arte se mantém assim desde aquela época, quando revolução era a palavra de ordem: seus traços de humor negro abalaram tabus, desmascararam falsidades puritanas, revelaram obsessões sexuais e, em “Blues”, reverenciam e criticam a “evolução” da música popular no decorrer do último século.








Janis Joplin e seu amigo Robert Crumb 
– o cartunista presenteou Janis com várias
homenagens em quadrinhos, incluindo as
capas e encartes de dois discos antológicos:
I Got Dem ol'Kozmic Blues Again Mama,
de 1969, e Cheap Thrills, de 1968.
Abaixo, homenagem a Robert Johnson em
Blues e cartuns da série The Mind Boggles
incluídos em Mr. Natural (1977) e publicados
no Brasil no final dos anos 1970
pela revista Grilo









De Robert Johnson a Monty Python



Robert Johnson, uma das figuras mais lendárias e enigmáticas da música das primeiras décadas do século 20 está presente em “Blues”, em destaque, assim como Furry Lewis e a galeria dos bluesmen que assombraram os conservadores e criaram os fundamentos do rock e da cultura negra dos EUA que depois se espalharam pelo mundo. Howlin'Wolf e seus pares também são retratados, com Jimi Hendrix que alucina e leva junto a sacerdotisa do rock, miss Janis Joplin. Ela ganharia do amigo Crumb várias homenagem em cartuns e quadrinhos e duas capas antológicas: “I Got Dem ol'Kozmic Blues Again Mama” (1969) e “Cheap Thrills” (1968).

Aclamado como gênio e revolucionário, Crumb nasceu em uma família de cinco irmãos na Philadelphia e começou a desenhar ainda na primeira infância. No documentário dirigido por Terry Zwigoff, ele confessa que o motivo da estreia nas HQs aconteceu por insistência do irmão mais velho, Charles, que também o iniciou em certos hábitos bizarros envolvendo sexo, mulheres, política, drogas, literatura e muita música.






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O hobby dos cartuns virou ganha-pão em 1962, quando se tornou ilustrador da “American Greetings” e da “Help”. Depois viriam os contratos que alcançaram maior público com a revista “Mad”, outros projetos os mais diversos em áreas idem e, claro, as charges e as HQs mais marcantes da contracultura em todo o planeta. Até o final dos anos 1960, a arte de Crumb estaria restrita ao universo da contracultura, do blues e do rock. Mas isso começou a mudar quando ele lançou “Fritz, the Cat”.

Nesta série, as histórias se passam numa grande cidade habitada por animais antropomórficos, sendo que o gato Fritz é o personagem principal. Muito calmo, entregue à preguiça e ao lado mais hedonista da vida, com algumas tendências artísticas, Fritz sempre se vê envolvido pelo acaso com personagens alucinantes em aventuras selvagens, nas quais vai encontrando as mais diversas experiências sexuais.








Fritz apareceu em histórias desenhadas por Crumb quando criança e viria a se tornar o mais famoso dos seus personagens. As tiras e cartuns com o gato primeiro foram publicadas nas revistas “Help!”, “Cavalier” e “Mad”. Depois foram se tornando cada vez mais explícitas e migraram para revistas mais undergrounds. Depois chegaram às eróticas “Playboy” e “Hustler”, nas décadas de 1960 e 1970.

Em 1972, o ponto alto da popularidade: “Fritz, the Cat” foi transformado em filme de animação pelo diretor e roteirista Ralph Bakshi. Com a venda dos direitos sobre seu personagem, Crumb conquistou fama e fortuna e também mais perseguição pela censura. “Fritz” foi o primeiro desenho animado a ser classificado com o código X (impróprio para menores), mas também é considerado um dos filmes independentes de maior sucesso comercial de todos os tempos.

O sucesso e o escândalo de “Fritz, the Cat” ainda ganhariam um capítulo inesperado no final de 1972, quando Crumb publicou uma história que pôs fim à trajetória de seu personagem mais famoso: depois de uma última orgia, Fritz é assassinado por uma ex-namorada. Com Crumb é sempre assim: o banal, o comum, o imprevisível e o humor insano de pequenas bobagens cotidianas fornecem um arsenal de piadas visuais com ares libertários.








Reconhecido como influência ou guru de grandes nomes da cultura pop, Crumb tem legiões de pupilos notáveis. Entre eles, astros e estrelas do rock, do blues e do jazz, jornalistas, escritores e midas da tecnologia como Steve Jobs e Bill Gates, além de Harvey Kurtzman, criador e editor da revista “Mad”, e Terry Gilliam, um dos mentores do grupo de comediantes ingleses do lendário Monty Python. Não é pouco.

Líder mundial do movimento underground, entretanto, é um título que Crumb sempre rejeitou. Prefere ser líder de coisa nenhuma, em suas investidas contra o moralismo e as hipocrisias que encontramos aqui e ali. Alguém já disse, não me lembro quem: ao ler Crumb, é o sol que finalmente brilha em nossa porta dos fundos.


por José Antônio Orlando.


Como citar:


ORLANDO, José Antônio. Estilo Crumb. In: ______. Blog Semióticas, 15 de maio de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/05/estilo-crumb.html (acessado em .../.../...).



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5 de outubro de 2011

Humor romeno








Brevidade, poesia e humor – indicadores por excelência das qualidades gráficas – são características que servem como uma luva para definir o trabalho do ilustrador Saul Steinberg (1914-1999), conhecido no mundo inteiro por conta de seus trabalhos publicados durante décadas na revista norte-americana "The New Yorker". Tidas como difíceis para o senso comum, burguesas, surreais e muitas vezes impenetráveis, as ilustrações e charges da revista tiveram no trabalho do artista nascido na Romênia um de seus principais baluartes. Hoje, é difícil separar a arte de Steinberg da identidade visual que a “The New Yorker” representa.

Uma amostra sofisticada da arte de Steinberg chegou ao Brasil através de um livro que reúne seus desenhos e textos memorialistas. Também recentemente uma exposição prestou tributo ao artista romeno, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro em parceria com a Pinacoteca do Estado de São Paulo. O livro de Steinberg recebeu no Brasil o título "Reflexos e Sombras" (IMS), enquanto a exposição "Saul Steinberg: As aventuras da linha" vai reuniu os originais de 111 desenhos feitos entre os anos 1940 e 1950, época em que o artista passou a colaborador da "The New Yorker" (a revista começou a publicar seus desenhos em 1941) e começou a despontar como artista internacional.















A mostra no IMS também apresentou trabalhos em formatos incomuns, entre eles quatro desenhos em rolos de papel feitos por Steinberg para a Trienal de Milão, Itália, de 1954. São desenhos murais de formato ousado e proporções arquitetônicas. O maior, "The Line", tem 10 metros de comprimento. Os murais nunca haviam sido expostos em conjunto.

Também integram a exposição dois desenhos com inspiração brasileira: "Pernambuco", uma mistura de personagens, bichos e motivos locais, e "Grande Hotel de Belém", ambos realizados a partir de desenhos de anotação e de cartões-postais colecionados por Steinberg durante viagem pelo Brasil em 1952.








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Humor romeno: no alto, amostras da
complexidade na implacável crítica de
costumes do traço de Saul Steinberg
para as capas da revista The New Yorker.
Acima, dois cartuns anti-fascistas,
Desfile (1945) e Arquiteto Adolf Hitler
(1943), publicados no jornal de Nova York
PM (Picture Magazine). Abaixo, uma seleção
de charges também publicadas na revista:
Passado, de 1949; Cowboys, de 1952;
Retrato de família, na capa de 1968;
Felizes para sempre, de 1953; Miami, de
1977; e Dia de Ação de Graças, de 1976















 
O livro “Reflexões e Sombras” nasceu das muitas conversas entre Saul Steinberg e seu amigo italiano Aldo Buzzi, que depois transcreveu e editou as gravações. Steinberg demonstra na brevidade do texto o que suas ilustrações traduzem em poucos traços. Ele conta sua história e procura fazer passar diante do leitor todo o século XX, mostrando desde sua infância na Romênia ao sucesso em Nova York.



O real e o imaginado


Sou o contrário de um expressionista”, diz Steinberg, “e, de resto, também de um impressionista”. No livro o real e o imaginado se duplicam, com muito bom humor e pausas de uma memória singular, num jogo metalinguístico com desenhos selecionados que intercalam o texto breve.





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Saul Steinberg ficou conhecido por, usando às vezes uma única linha, questionar em seus desenhos o papel das rotinas, a vida que levamos. Uma amostra resumida do melhor de Steinberg está representada nas 63 imagens da edição brasileira de “Reflexos e Sombras”. Observações mínimas, ao mesmo tempo leves e filosóficas, figuras de cartum junto a reproduções realistas de recortes de fotografias e objetos.

O livro é preciso ao intercalar ideias e imagens na aparência simples, mas que encerram uma complexidade que se multiplica quando o leitor olha devagar para elas e se deixa envolver nos significados. O texto é brevíssimo: comentários sobre o passado, pessoas, a luz, a cor, a paisagem, o ângulo de visão – e reflexões saborosas, tanto quanto minimalistas, como o breve comentário sobre o hábito romeno de usar a expressão “sentir o gosto da lua numa colherada de água de poço”.





 


Saul Steinberg em 1962, fotografado
por Inge Morath com as máscaras 
que ele inventou e tornou célebres no
mundo inteiro. No alto, Longevidade,
de 1977. Abaixo, humor e política em
Vinte Norte-Americanos, de 1969,
Peru de Natal, arte para a capa da
revista The New Yorker em 1992.
Também abaixo, Estúdio Turco,
arte de 1953 em lápis crayon, tinta
e aquarela sobre papel; e Van Gogh,
ilustração de 1982 em colagem, giz
de cera e pintura em técnica mista





 










Na Romênia, conta Steinberg, nas noites de lua, as camponesas olhavam para o fundo dos poços até ver a lua. Então jogavam um balde no poço, lentamente puxavam a água com a lua dentro e bebiam o reflexo com uma colher. Histórias de Steinberg: o gosto, o silêncio, o gostar, o imaginar, um escritor que desenha em vez de escrever.

Como se vê na lenda romena, os traços e a palavra de Steinberg traduzem à perfeição sensações, para logo em seguida tudo desaparecer, quando se vira a página e lá está outra imagem surpreendente. Algumas imagens de jornais e revistas o leitor esquece com facilidade, outras resistem na memória e convidam a novas associações. As imagens produzidas por Steinberg pertencem a este segundo grupo.











Reflexões com recheio de imagens 



"Reflexos e Sombras", como aponta Marcelo Coelho na apresentação, traz à tona o pendor literário de um mestre do desenho que gostava de dizer que, na verdade, era um escritor que desenhava em vez de escrever. Recheado de surpreendentes desenhos e charges, o livro é dividido em quatro capítulos, nos quais Saul Steinberg descreve suas lembranças: a infância difícil na Romênia, a viagem a Milão em 1933 (onde estudou arquitetura e viveu sob o fascismo), a emigração para os Estados Unidos em 1942, suas impressões sobre a América e suas reflexões sobre a arte e o mundo artístico em geral.

Com um sofisticado senso de humor que o leitor mais desavisado pode considerar lacônico, a experiência de vida do autor acompanha os rumos da história no século passado, com uma galeria extensa de personagens descritos a mão livre e com um mínimo de palavras: tios pintores, camponesas italianas, judeus deportados, cozinheiros chineses, artistas e políticos de todo o credo em Nova York e em Washington ou solitários no exílio em qualquer recanto do planeta, incluindo os cenários brasileiros.


O Brasil é um país com o qual Steinberg manteve aproximação de longa data durante as décadas de 1940, 1950 e 1960, com relações afetivas e de trabalho, tendo produzido a primeira capa da revista brasileira "Sombra", de 1940 (reprodução abaixo), e apresentado uma exposição individual no MASP, Museu de Arte de São Paulo, na década de 1950. Steinberg, no Brasil, é sempre lembrado também pela influência decisiva que representa para o traço de muitos grandes artistas, de modo destacado para os desenhistas da geração "O Pasquim", entre eles Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar e outros.















"A ideia dos reflexos me veio à mente quando li uma observação de Pascal, citada num livro de W. H. Auden, que escreveu uma espécie de autobiografia insólita, recolhendo todas as citações que anotara ao longo da vida, o que é uma bela maneira de se mostrar como reflexo dessas mesmas citações", revela Steinberg, sempre bem-humorado, irônico e poético.

Do pai impressor, encadernador e fabricante de caixas de papelão em Bucareste, o futuro mestre do desenho herdaria o fascínio por papel, rabiscos, marcas e carimbos. Encaminhado para a engenharia, diplomou-se numa universidade em Milão, mas não chegou a exercer a profissão. Em Milão, onde viveu oito anos, descobriu sua real vocação, bolando cartuns humorísticos sob encomenda e sentindo na pele a repressão. 


Defensor contumaz da liberdade e dos direitos humanos, durante a Segunda Guerra, decidiu engajar-se e foi servir à inteligência dos Aliados na China, no Norte da África e na Itália. Depois de 1945, retornou ao engajamento com o humor e o nanquim. Tudo é relembrado com minúcias e ironias cifradas no livro "Reflexos e Sombras".






Funny Face (1960), fotografia e humor
ao estilo Steinberg. Acima e abaixo,
uma seleção de trabalhos produzidos
nas décadas de 1940 a 1970 para a
revista The New Yorker e editados
em livro em 1979 pela Penguin Books












Traduzido por Samuel Titan Jr., “Reflexos e Sombras” serviu de catálogo para a exposição no Instituto Moreira Salles. "Sente-se o silêncio, crescendo entre um parágrafo e outro, à medida que a noite se aproxima. Tudo se torna, por vezes, preciso e concreto, para logo em seguida desaparecer em fantasmagoria", destaca Marcelo Coelho.

O próprio Steinberg, refletindo sobre o passado e sobre a linha e a luz confessa – sempre com a emoção contida pela pausa, pela intensidade vertiginosa da síntese – com alguma melancolia que começou de baixo: "Aprendi trabalhando e consegui escapar de alguns becos sem saída, vulgaridades do desenho humorístico e banalidades da arte comercial". Surpresa, graça e inteligência são o que de melhor a grande arte de Saul Steinberg desperta.



por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Humor romeno. In: ______. Blog Semióticas, 5 de outubro de 2011. Disponível no link https://semioticas1.blogspot.com/2011/10/humor-romeno.html (acessado em .../.../...).



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No alto, Saul Steinberg fotografado
por Evelyn Hofer em uma exposição
em Long Island (EUA), segura pela mão
um recorte fotográfico dele mesmo aos
8 anos de idade. Acima, Steinberg na
Itália reencontra para um passeio de
bicicleta o amigo italiano e co-autor de
Reflexos e Sombras, Aldo Bruzzi.
Abaixo, uma seleção de amostras da
metalinguagem e da simplicidade apenas
aparente da grande arte de Steinberg








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