sexta-feira, 23 de março de 2012

Um certo Rubião











Quando ele estreou em livro, em 1947, com os contos de "O Ex-Mágico" – que abre com uma citação bíblica dos Salmos ("Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me; porque eu sou desvalido e pobre") e uma primeira frase afirmativa e amarga ("Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior") – houve quem apontasse a semelhança entre os textos do escritor Murilo Rubião (1916-1991), mineiro de Carmo de Minas, e certas obras do tcheco Franz Kafka (1883-1924), nome de destaque do onírico e do fantástico na literatura universal e um dos maiores da língua alemã no século 20.

Rubião, assim como Kafka, foi um mestre das parábolas, aquele gênero sempre associado aos evangelhos do Novo Testamento, com suas histórias que têm um fim didático baseado em comparações de costumes ou observações analíticas sobre questões só na aparência insignificantes. Muitos já haviam percebido o parentesco da literatura personalíssima de Kafka com as parábolas de Murilo Rubião, mas é curioso que ele próprio nunca tenha admitido nem as semelhanças nem nenhuma influência vinda das obras do autor de “A Metamorfose”.

No final da década de 1980, o acaso e a sorte me proporcionaram a oportunidade de fazer uma longa entrevista com Rubião, publicada no jornal “Tribuna de Minas”. Cercado de estantes com coleções cuidadosamente encadernadas em couro e organizadas na sala ampla do apartamento em que morava no Edifício Maleta, no centro de Belo Horizonte, ele foi veemente em negar qualquer aproximação com Kafka. Segundo Rubião, ele só chegou a ler pela primeira vez alguns textos do autor quando Kafka foi traduzido no Brasil, no final dos anos 1940 – mesma época em que Rubião publicava os contos de “O Ex-Mágico”.








Além de negar a aparente influência de Kafka, Murilo Rubião também não admitiu naquela entrevista nenhuma filiação aos escritores do chamado "boom" do realismo mágico da literatura latino-americana, que a partir de 1960 ganhou repercussão no mercado editorial na Europa e Estados Unidos por conta do prestígio adquirido por nomes como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Gabriel García Márquez, entre outros. Para ele, o prestígio de Borges era exagerado: Rubião preferia Cortázar, que chegou a conhecer pessoalmente e que admirava de longa data.



Todos os contos



Homem público destacado em Minas Gerais durante décadas, fundador e redator de jornais e revistas, criador do "Suplemento Literário do Minas Gerais" (que, sob seu comando, seria por alguns anos uma das melhores publicações do gênero no Brasil), Oficial de Gabinete do governador Juscelino Kubitschek de 1951 a 1955 e chefe da publicidade de JK na disputa pela Presidência da República, em 1956, Adido Cultural do Brasil na Espanha de 1953 a 1960, Murilo Rubião ocupa um lugar ímpar na literatura brasileira, com sete livros publicados de 1947 a 1990, reunindo 32 contos tão breves quanto fora do comum.





Morto em 1991, Murilo Rubião retorna à cena com a edição de sua "Obra Completa" pela editora Companhia das Letras, que reúne 33 de seus textos fantásticos. "Incluímos nas ediçoes da obras completas o conto 'A Diáspora', que não foi publicado em vida pelo autor, mas que estava em versão final, datilografada e revisada por ele, nos arquivos que fazem parte do Acervo dos Escritores Mineiros instalado na UFMG", explica a professora aposentada de literatura da UFMG, Vera Lúcia Andrade, responsável pela transferência dos arquivos de Rubião para a universidade e pelo estabelecimento dos textos na nova edição.

"Na verdade, todos os 33 textos fantásticos do Murilo Rubião já tinham sido publicados. Eu mesma havia feito o estabelecimento dos textos definitivos para a primeira publicação na editora Ática, que aconteceu em 1998, sob o título 'Contos Reunidos', tendo como editor Fernando Paixão. Foi quando, pela primeira vez, todos os contos do Murilo apareceram juntos”, explica a professora.



 

Como naqueles eventos insólitos que pontuam a literatura que ele produziu, Murilo Rubião morreu às vésperas da abertura de uma grande exposição no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Organizada para ser uma homenagem em retrospectiva sobre sua vida e obra, a exposição contou com curadoria do professor, escritor e artista plástico Márcio Sampaio, apoiado por vários colaboradores e pesquisadores da obra do autor de "O Ex-Mágico". Com a morte do escritor, todos os arquivos, livros e objetos reunidos para a exposição acabaram transferidos ao final do evento para o acervo de escritores mineiros da UFMG.

"Murilo Rubião passou a vida reescrevendo sempre os mesmos textos, de tão perfeccionista e cuidadoso que era", destaca Vera Andrade, revelando que no acervo de Rubião ainda existem vários textos incompletos que nunca foram publicados. "Os herdeiros não autorizaram a publicação porque o próprio autor disse que eles ainda não estavam concluídos. Então, todos eles permanecem inéditos".









Um mundo à parte, fabuloso


O espantoso talento de Murilo Rubião para narrar, como se fossem fatos corriqueiros, acontecimentos os mais inusitados, transparece nas 33 obras-primas reunidas na "Obra Completa". Como na história só aparentemente absurda do pirotécnico que, morto, segue vivendo. Ou no caso da mulher que engorda desmedidamente conforme seus desejos vão sendo atendidos por seu amado.

Na obra de Rubião, cada texto breve encerra um mundo à parte, fabuloso, como na história do coelhinho falante que aborda o narrador com um pedido e, mutante, vai se insinuando em sua vida cotidiana. Ou ainda no desespero do mágico devorado por sua própria capacidade de operar prodígios, entre outros relatos insólitos e imprevisíveis. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista com a professora Vera Andrade, que destaca a importância e a atualidade da obra de Murilo Rubião. 
 

Quem foi mais importante e influente, o Murilo Rubião da política ou o escritor ?

Vera Andrade – Ambos são igualmente importantes. O escritor produziu uma obra preciosa, até porque é o precursor da literatura fantástica no Brasil e o seu exemplo mais bem acabado. Já o Murilo da política cultural influenciou toda uma geração de escritores, que ficou conhecida como a "Geração Suplemento". Ele foi o "guru" dessa geração.








Que lugar Murilo Rubião ocupa na literatura e na cultura brasileira?

Ele ocupa um lugar de destaque porque foi um homem público comprometido com o seu tempo, além de ser um escritor de uma escrita impecável, preocupado sempre em escrever e reescrever seus textos.

Ele sempre dizia que seus contos traziam a influência de Machado de Assis, da Bíblia e da Mitologia Grega. Esta tríade resume o universo de Murilo Rubião?

Na verdade, essa tríade representa bem as influências que ele traz em sua obra, mas não "resume" o universo de sua literatura, que é riquíssimo. Murilo foi leitor também de Hoffmann e dos demais românticos alemães, bem como de Pirandello, para citar apenas alguns autores.

Qual a importância da publicação da "Obra Completa"?

É de grande importância, por dar mais visibilidade ao trabalho ímpar de Murilo Rubião, colaborando para uma maior divulgação de sua obra, não só para o grande público leitor, mas também para os especialistas.











Para um autor que publicou durante quase 50 anos, surpreende que a obra completa compreenda apenas 33 contos breves, ainda que sejam todos textos emblemáticos e irrepreensíveis. O que ainda existe de inédito entre os escritos de Murilo Rubião?

Existem contos praticamente acabados, além de esboços de outros contos, e até de uma novela, mas tudo indica que esses textos, parece-me, continuarão inéditos, pelo menos por muito tempo.


por José Antônio Orlando.



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Obra Completa / Contos (Companhia das Letras)


Sumário:

1. O pirotécnico Zacarias 14

2. O ex-mágico da Taberna Minhota 21

3. Bárbara 27

4. A cidade 33

5. Ofélia, meu cachimbo e o mar 39

6. A flor de vidro 44

7. Os dragões 47

8. Teleco, o coelhinho 52

9. O edifício 60

10. O lodo 67

11. A fila 76

12. A Casa do Girassol Vermelho 90

13. Alfredo 98

14. Marina, a Intangível 103

15. Os três nomes de Godofredo 111

16. Memórias do contabilista Pedro Inácio 118

17. Bruma (a estrela vermelha) 124

18. D. José não era 129

19. A Lua 132

20. A armadilha 135

21. O bloqueio 139

22. A diáspora 145

23. O homem do boné cinzento 151

24. Mariazinha 156

25. Elisa 161

26. A noiva da casa azul 164

27. O bom amigo Batista 169

28. Epidólia 175

29. Petúnia 183

30. Aglaia 190

31. O convidado 197

32. Botão-de-rosa 207

33. Os comensais 216






Livros publicados por Murilo Rubião: 



O ex-mágico (Universal, 1947)

A estrela vermelha (Hipocampo, 1953)
 

Os dragões e outros contos (Movimento-Perspectiva, 1965)
 

O pirotécnico Zacarias (Quíron, 1974)
 

O convidado (Ática, 1974)
 

A casa do girassol vermelho (Ática, 1978)  

O homem do boné cinzento e outras histórias (Ática, 1990)
 







12 comentários:

  1. Muito interessante!!! gostei muito vou correr atras pra conhecer!

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  2. Naiara Duarte de Faria23 de março de 2012 19:48

    Li agora esta sua bela página sobre o gênio de Murilo Rubião e quando terminei me veio à memória uma frase de Machado de Assis, mestre da nossa literatura que o Rubião tanto admirava: Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.
    Parabéns, José. Seu blog continua um show que surpreende e encanta a cada nova visita. Vida longa e prosperidade!
    Naiara Duarte de Faria

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  3. Outro daqueles, hein, José? Muito bom e difícil demais de definir, porque ao mesmo tempo parece ensaio, artigo, reportagem com entrevista, tudo ao mesmo tempo e com a qualidade surpreendente que tem sido sua constante neste blog. Confesso que nunca li os contos do Rubião, mas sua abordagem me deu a certeza de que preciso ler urgentemente porque vou gostar muito.
    Parabéns de novo e de novo, José Orlando. Seu blog é um show!

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  4. Silvana de Almeida24 de março de 2012 13:05

    Vou ser repetitiva no elogio, mas é inevitável: bela página sobre Rubião, José Orlando! Ele sempre foi um dos meus autores preferidos e fiquei curiosa para ler sua entrevista com ele. Tem planos de publicá-la aqui no blog? Ela está disponível em algum endereço da internet? Que privilégio ter entrevistado o gênio em pessoa...
    Belo ensaio, este, tanto quanto todos os outros de Semióticas. Este "Um certo Rubião" acrescenta várias informações preciosas sobre o autor de "O Pirotécnico Zacarias"... Interessante ele negar a influência de Kafka. Ela é evidente em todos os contos que Rubião publicou... Também interessante ele negar aproximação com Borges, porque a "influência" também é evidente, como aponta aquele estudo famoso do SCHWARTZ (1982) que você deve conhecer...
    Uma das características mais marcantes da literatura de Rubião, e também do Borges, é a “tendência ao infinito e à eternidade”. Este elemento é emblemático no que a professora Vera aponta na entrevista, que Rubião passou a vida reescrevendo os mesmos textos, e está muito bem traduzido na última frase do conto que é meu preferido entre os 33 da Obra Completa, "A Armadilha". Lembra da última frase?
    “Aqui ficaremos, um ano, dez, cem ou mil anos”...
    Beijo para você, meu querido. Amo você e amo seu blog!

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  5. Passando para conhecer o blog, muito bom e com ótimo conteúdo!

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  6. Felipe Silvério8 de abril de 2012 18:54

    Eu sempre tive medo deste autor desde que eu estava na sexta série e li O Pirotécnico Zacarias porque fui obrigado. Na véspera da prova tive um pesadelo horrível e desde então o nome deste Murilo Rubião me causa arrepios. Achei esta imagem que abre sua página tão horripilante quanto a lembrança do meu pesadelo, mas a curiosidade me levou à leitura. E não é que saio dela com outra visão sobre o autor? Preciso ler O Pirotécnico Zacarias de novo...
    Parabéns, José Antonio Orlando, porque seu blog é uma das coisas mais bonitas e inteligentes que já encontrei na internet.

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  7. Uma delícia descobrir seu blog num post igualmente delicioso sobre o Murilo Rubião, que adoro! Bela descoberta, um blog de escrita profunda, sensível e arrebatadora, que é como me sinto, arrebatada!! Mais uma seguidora! Parabéns!

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  8. Murilo Rubião é daquelas joias de família tão raras que encontrar alguém que ao menos o conheça é um privilégio. Mas encontrar alguém que o conheça ao ponto de escrever sobre ele este ensaio brilhante, é para surpreender qualquer joalheiro. Parabéns, José Antônio Orlando. Seu blog Semióticas é todo ele um primor, um trabalho encantador e muito importante. Ganhou outro seguidor de carteirinha.
    Adriano Rezende

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  9. Ana Sofia Clemente5 de junho de 2014 18:32

    Parabéns por esta reportagem sensacional sobre meu amado Rubião. Este seu blog Semióticas é um espetáculo. Vou virar também mais um seguidor de carteirinha. Amei.

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  10. Excelente matéria, José Antônio! Não tinha conhecimento dela; agradeço-lhe pelo toque para a apreciação. Sem dúvida, quem não conhecia Murilo Rubião, agora ficará antenado para desvendar esse escritor tão perfeccionista e precursor da literatura fantástica.

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  11. Quero registrar aqui os meus mais sinceros elogios e agradecimentos por esta matéria com entrevista sensacional sobre o grande Murilo Rubião. Parabéns por esta matéria e pelo espetáculo que é todo esse blog Semióticas. Ganhou mais um fã.

    Eduardo Moreira.

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