sábado, 17 de dezembro de 2011

Diva descalça




A cena e a música podem parecer estranhamente familiares ao público brasileiro: um grupo afinado e sorridente de músicos, todos negros ou mulatos, uma percussão de ritmo exótico, dançante e irresistível. Depois dos acordes iniciais, uma velha senhora caminha, hesitante, descalça, para o centro do palco. A plateia aplaude com euforia.

A velha senhora também é negra, baixa estatura, gordinha, vestida com certa simplicidade. Olhar humilde, alguma timidez, mas quando começa a cantar evoca uma aura de elegância e sofisticação. Canta em português, com um sotaque de nuances indescritíveis, que misturam em sua voz personalíssima e triste um pouco de francês e dialetos africanos.

É Cesária Évora, rainha da morna, embaixadora da música de Cabo Verde, o pequeno arquipélago do Atlântico, na costa africana, que entoa dramática seus grandes sucessos – além das mornas, coladeras, batuques e funanás, melodias típicas de seu país e ao mesmo tempo próximas e distantes da música brasileira, em seu parentesco com o fado português e com os ritmos trazidos da África.















Aos 70 anos, a diva dos pés descalços, como foi batizada pela imprensa da França, na década de 1980, morreu hoje em sua terra natal, três meses depois de seus músicos terem anunciado o fim de uma carreira de mais de 50 anos. Cesária lançou 25 discos, entre originais, coletâneas, remixes celebrados pelos principais DJs em atividade e parcerias com outros artistas – entre eles Caetano Veloso e Marisa Monte. “Sôdade”, lançada na década de 1980, foi a música mais conhecida da cantora e compositora de Cabo Verde.



Performance parisiense



Além dos discos gravados, lançou dois belos DVDs: “Cesária Évora Live D'Amor” e “Live in Paris”. O primeiro, gravado em abril de 2004 no Le Grand Rex, um dos principais teatros de Paris, traz um registro à perfeição que, além da íntegra das 20 canções do repertório do show, inclui três bônus de primeira: um documentário com os bastidores da performance parisiense (que a acompanha do desembarque no aeroporto da capital da França à entrada em cena no teatro), outro com entrevistas e cenas das turnês pelos Estados Unidos, Japão e capitais da Europa, e “Mar del Canal”, um comovente videoclipe com ela e sua banda, produzido para o World Food Programme, fundo humanitário da ONU que atende crianças carentes e refugiados de guerra em 70 países.









O segundo, “Live in Paris”, de 2002, é mais modesto, com o registro do show em som direto. Foi gravado ao vivo no Zenith parisiense e inclui como bônus duas breves sequências: cenas da apresentação de Cise (como era chamada carinhosamente pelos amigos e pelos músicos que a acompanhavam desde os anos 1980) em Havana, Cuba, com participação especial dos remanescentes do Buena Vista Social Club, e da apresentação no mesmo ano no Brasil, onde a rainha da morna dividiu a cena com Marisa Monte.

No Brasil, ainda nos anos 1980, Caetano Veloso foi o primeiro a elogiar as mornas de Cesária Évora. Nos shows do final da década de 1980 e começo dos anos 1990, Caetano incluía “Sôdade”, “Angola” e “Petit Pays”, imitando o sotaque de Cise, quase incompreensível aos ouvidos brasileiros. Eu mesmo, assim como muitos dos fãs da cantora que conheço, temos que confessar que foi através de Caetano que chegamos à arte de Cesária Évora.





Caetano alardeava em entrevistas sua admiração por Cise, a diva que saiu da simplicidade do pequeno país no litoral africano para ganhar o mundo, apresentando-se sempre com os pés descalços em solidariedade às mulheres e crianças miseráveis de seu país. Os elogios de Caetano por certo contribuíram para que os discos de Cesária fossem lançados por aqui, com boas críticas e surpreendente sucesso de vendas.


Mornas, blues, boleros e MPB



Em cenas dos documentários incluídos como bônus em “Live D'Amor”, Cesária Évora fala com carinho do seu público – especialmente dos fãs apaixonados que conheceu no Brasil, em Cuba, nos Estados Unidos e na França. Diz que canta porque não saberia fazer outra coisa na vida. Modéstia de uma artista genial, que comprova na performance gravada com a plateia do Le Grand Rex porque era considerada uma das presenças mais marcantes e poderosas da música contemporânea.

Sua arte cresceu em popularidade internacional especialmente a partir de 2004, quando bateu estrelas de primeira grandeza na mídia e conquistou o Grammy para melhor disco de “world music”. Sempre acompanhada pelos músicos de Cabo Verde, com quem trabalhava desde a gravação do primeiro disco na França, em 1988 (“La Diva aux Pieds Nus”), Cise mistura um aparente descompasso do fraseado com elaboradas harmonias acústicas de violões, cavaquinho, violino, acordeão, percussão e clarineta. 




 
Os ritmos são uma diversidade, variando desde a morna tradicional de Cabo Verde até o bolero, passando pelo blues norte-americano, com um toque de música do Caribe, alguma coisa do fado português e muito do samba-canção da velha guarda da melhor música popular brasileira.

Quando no documentário de “Live D'Amor” um jornalista pergunta sobre Billie Holiday e outras possíveis influências do jazz, Cesária sorri, baixa os olhos, faz silêncio, tira uma longa baforada do cigarro, recusa e diz que não concorda com a comparação. Fala com carinho da música dos Estados Unidos, agradece o carinho do público que cultiva em vários países, mas diz que prefere ser comparada às vozes brasileiras, que desde a infância ouvia no rádio.

Quem conhece seus discos sabe que Cise sempre incluiu aqui e ali algum clássico do samba, caso de “Beijo Roubado”, de Adelino Moreira, sucesso dos anos 1950 na voz de Ângela Maria e destaque no repertório de “Live D'Amor”. “Negue” (“seu amor, seu carinho...”), do mesmo Adelino Moreira, é outra pérola da MPB que sempre esteve presente nos shows de Cesária, além de canções dos baianos Dorival Caymmi e Caetano Veloso.





Amor e liberdade



Impressiona o toque sentimental de profunda devoção, algo entre o transe místico e o cantarolar casual numa mesa de bar, registrada por uma edição sempre discreta nas imagens de “Live D'Amor”. Ao invés do ritmo alucinante de videoclipe de hip-hop, que vem contaminando as gravações ao vivo de qualquer gênero, as imagens do show no Le Grand Rex são contemplativas, quase nunca se afastam da bela performance em closes e um ou outro passeio das câmeras pelo palco, no momento dos poucos e inspirados solos do violinista Julián Corrales Subida ou do pianista Fernando Andrade, responsável há décadas pelos arranjos das canções de Cesária.

As mornas e os sambas cantados com a voz sentida de Cesária Évora são acompanhados quase sempre em coro pela plateia parisiense, especialmente “Nho Antone Escaderode”, “Nha Cancera ka Tem Medida”, “Angola” e “Sôdade” (“quem mostrava este caminho longe...”). Mesmo as então inéditas “Isolada” e “Velocidade” provocam comoção e passagens espontâneas com palmas ritmadas.

São canções inesquecíveis, depois que se ouve uma delas pela primeira vez, com atenção, com sons de cordas e percussão suave, pautadas com gentileza, talvez por isso distantes dos ritmos brasileiros mais dançantes. Falando de saudade, de amores errados e de sentimentos que mais separam do que unem as pessoas, a música de Cesária Évora, com seu sotaque carregado que constrói enigmas para outros falantes da mesma língua portuguesa, é daqueles casos que encantam.




Cantora de Mindelo



Cesária Joana Évora nasceu em agosto de 1941 em Mindelo, cidade portuária na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, país formado por uma dúzia de pequenas ilhas montanhosas e quase desérticas, de formação vulcânica, ao largo do Senegal, na costa da África. Descoberto em 1456, o arquipélago foi uma importante base de expansão marítima e do comércio colonial português, particularmente no tráfico de escravos.

Desde sua independência de Portugal, em 1975, entretanto, Cabo Verde tem enfrentado dificuldades econômicas as mais complicadas, motivo pelo qual se diz que a música de Cesária Évora é o principal produto de exportação daquele país, que sobrevive do cultivo de milho, café e processamento de pescado. As mornas e coladeras que Cesária canta quase sempre tocam na história amarga e violenta da dominação portuguesa e do isolamento secular de Cabo Verde.










Na entrevista incluída em “Live D'Amor”, Cesária conta que nasceu em uma família de músicos e que canta desde a infância, em festas populares de sua terra-natal e em programas de rádio. Mas sua carreira ficou interrompida entre 1975 e 1985, quando parou de cantar para procurar trabalho em fábricas e no comércio fora de Cabo Verde.

Em 1985, a sorte sorriu para a diva dos pés descalços: a convite do proprietário de um restaurante e de uma discoteca com música ao vivo em Lisboa, ela volta a cantar e grava um disco, “Crioula Sofredora”, que passou despercebido. No ano seguinte, vai para Paris e é "descoberta" pela imprensa cantando em praças e bares. Dalí seguiria para os palcos do mundo.









Em 2004, depois de vencer o Grammy, iniciou sua fase de maior popularidade e chegou às pistas de dança e ao circuito das “raves” por conta do lançamento de “Club Sodade”, surpreendente disco em que suas canções mais populares ganharam remixes e versões eletrônicas por alguns dos DJs mais famosos do planeta, como Rork & Demon Ritchie, Kerri Chandler, Carl Craig, Pepe Bradock e François K., entre outros.

Um dos parceiros de Cise de longa data, o músico cabo-verdiano Tito Paris foi entrevistado hoje pela agências de notícias France Presse (AFP) e lamentou a perda. "O artista e o poeta praticamente não morrem. Desaparecem mas não morrem e nós vamos ouvir Cesária até ao fim da nossa vida, ela vai existir com as suas mornas e coladeras até ao último dia das nossas vidas", afirmou Tito. O mundo da música e Cabo Verde a partir de hoje ficaram mais pobres, tal como enriqueceram no dia em que Cesária Évora nasceu.


por José Antônio Orlando.



Para comprar o DVD "Cesária Évora, Live D'Amor",  clique aqui.


Para comprar o DVD "Cesária Évora, Live in Paris",  clique aqui.


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16 comentários:

  1. Ouvi as canções dela hj o dia todo...é cedo Cesária.. mas artista não cabe no espaço curto do nossa existência...lamentamos.

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  2. As pegadas deixadas por essa brilhante intérprete não se apagarão com o tempo. Toda a carreira da cantora foi trilhada pelo seu talento, humildade e verdade essencial. Isso não morre jamais.

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  3. Zé, envolvida com outros assuntos e, ainda pensando na luz sagrada de Joaozinho Trinta, após ter meus três jornais ensopados, hoje cedo, secando na varanda...não vi esta notícia, meu amigo. Vc me informou. Texto maravilhoso, condizente com essa Cora Coralina da música, diva de iluminadas maravilhas vocais, sensibilidade claramente divina. Um luto para a música. Insuficiência respiratória... ironia do destino para finalizar tão sagrada voz. Vc é demais, Zé. Que bom ter pessoas responsáveis atuando em editorias culturais na nossa terra, tão cheia de arte. Hoje, o planeta lhe agradece, vou compartilhar. Fica nossa, "sodade", maravilha primeira que ouvi na voz dela... :( entristeci.

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  4. cesária era desses SERES HUMANOS ainda humanos... sabia ser GENTE!!! cantava porque isso fazia parte de seu cotidiano. não fazia malabarismos corporais, nem vocais, nem caras, nem bocas. cantava apenas... apenas cantava... porque cantar é lenitivo, é remédio mesmo poderoso para a existência de SERES HUMANOS...

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  5. Belo texto, meu caro. Parabéns pelo blog. abraços
    Daniel Antônio

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  6. Querido José Antônio , acabei de ler o artigo e sou extremamente convencida do "portrait" que você, com muita elegancia, fez da Cesaria Evora.
    Alias, eu sou apaixonada por teu estilo jornalístico e o seu jeito muito especial de incluir o percurso de um artista num panorama historico, social e psicológico... Como diria o Deleuze : « Le charme, source de vie, comme le style, source d’écrire » E isso que você tem, meu amigo!

    Do MONTEBELLO

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  7. Quem mostra bo ess caminho longe?
    Quem mostra bo ess caminho longe?
    Ess caminho pa São Tomé

    Sôdade sôdade
    Sôdade
    Dess nha terra Sao Nicolau

    Si bô screvê me
    M ta screvê be
    Si bô squecê me
    M ta squecê be
    Até dia qui bô voltà

    Sôdade sôdade sôdade
    Dess nha terra Sao Nicolau...
    Sôdade sôdade...

    (Sôdade, Cesária Évora)

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  8. Eu me lembro que, em 2005, acho, estava em Cabo Verde, na ilha do Sal, para participar de um Festival de Música com o Zeca Baleiro. Estava passeando nas salinas de um vulcão extinto, com Tuco Marcondes, Fernando Nunes e Simone Sou, quando c...ruzamos com a Cesaria dentro de um túnel muito escuro. Ela estava chegando e nós saindo do vulcão, não dava para reconhecer fisionomias, estávamos bem no meio do túnel. Alguém que estava com a gente a reconheceu e nos apresentamos todos. Ela, com aquele ar de poucos humores (provavelmente porque não estava descalça), nos cumprimentou muito educadamente e seguiu em frente. Nós ficamos com aquela impressão de um encontro sobrenatural num cenário improvável, parecia um outro planeta!

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  9. Helen Marie Coutinho20 de dezembro de 2011 09:46

    Posso garantir que sua página sobre a Cesária Évora é o melhor registro que já vi sobre ela, professor José Antonio Orlando. Sou fã de longa data e fiquei acompanhando cada matéria de jornal e TV desde que soube da notícia no sábado. Não tem nem comparação. Esta página, aliás, seu blog Semióticas é um show. Para dar inveja e envergonhar os incompetentes que ficam assinando matérias ridículas em jornais e revistas. Parabéns e boa sorte!

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  10. Muito interessante a vida de Cesária e escrito por vc ficou mais poética. parabéns.

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  11. Obrigada por me apresentar mais um ícone! Ainda não tinha dado atenção a essa mulher forte, bonita, sublime... Lindo texto. O título, as imagens e a história despertavam curiosidade, empolgação e emoção... adorei!

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  12. Não tinha encontrado ainda um texto tão lindo sobre a Diva Descalça. Estou encantada com esta página e com seu blog. Tudo lindo, divino, maravilhoso. Deus te acompanhe, José, e te abençoe por tanta sabedoria e pela generosidade de compartilhar. Virei fã de carteirinha - de você e do seu blog Semióticas. Beijos, beijos de gratidão eterna!

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  13. Um presente para todos que, como eu, apreciam muito essa artista há muito inscrita entre aqueles que enobrecem a espécie humana; um verdadeiro patrimônio da humanidade. Muito agradecida!

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  14. Que coisa mais absurda é este seu blog, José. Tudo de uma beleza que a gente fica encantada em cada página. Esta aqui sobre a Cesária Évora é a minha preferida, entre tantas outras tão lindas quanto, daquelas para visitar dia sim, dia não, e reler sempre para repetir a emoção. Parabéns e muito obrigado por compartilhar.
    Aline Fontes

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  15. Helenice de Alcântara1 de janeiro de 2014 18:06

    Sufocante, preciso dizer, e muito lindo. Este Semióticas é luxo só. Sou fã.

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  16. Maria Laura Cerqueira.7 de abril de 2016 18:04

    Maravilhosa esta página sobre a maravilhosa Cesária Évora. Cheguei aqui por acaso, porque cliquei em um link no Facebook, e agora estou encantada. Parabéns, Semióticas. Tudo aqui é Show!

    Maria Laura Cerqueira

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