domingo, 23 de outubro de 2011

Gullar em verso








Poesia é coisa rara, que não depende da vontade do poeta e nem da disposição ou da pressa. É o que explica o poeta Ferreira Gullar em entrevista por telefone, do Rio de Janeiro, ainda emocionado com a conquista de duas homenagens do primeiro escalão: o Prêmio Jabuti 2011 na categoria poesia e o Prêmio Camões 2010 – concedido como reconhecimento ao conjunto da obra e considerado a mais importante premiação literária da língua portuguesa.

Aos 81 anos, festejados no dia 10 de setembro, Gullar recebe os tributos pelo lançamento de seu mais recente livro de poemas inéditos, batizado de "Em Alguma Parte Alguma" (Editora José Olympio). Ao telefone, responde ao pedido de entrevista com monossílabos, entre o desdém e a rabugice. Falo de nossos encontros anteriores em eventos em Belo Horizonte, de outras entrevistas que fiz com ele, ao vivo e também pelo telefone, mas mesmo assim o poeta segue demonstrando seu conhecido mau humor. Concorda com a entrevista e apenas pede brevidade, alegando que está em casa aguardando visitas. Combinamos 10 minutos, mas a conversa quase chega a uma hora.

"É claro que ser o vencedor de um prêmio importante como o Prêmio Camões é uma honra grandiosa para qualquer escritor, é claro que fiquei contente com o reconhecimento, como é que não ficaria?", reconhece o poeta, em tom de desafio e irritação com a pergunta, mantendo sua fama de quem não foge à polêmica, ou antes que a cultiva, quase como uma estratégia para marcar presença na lista dos mais controversos intelectuais brasileiros das últimas décadas.




Acima e no alto, telas e instalação Ann, Dancer,
do artista britânico Julian Opie, apresentados no
dia 20 de outubro de 2011 na cerimônia de abertura
da International Contemporary Art Fair (FIAC)
 no Grand Palais, Museu do Louvre, em Paris


"Todo poeta e todo escritor escreve para o outro, para que o outro reconheça o que ele sente e pensa, independente de concordar ou não com as ideias apresentadas. Por isso, os prêmios são importantes: porque significam que o trabalho foi reconhecido e destacado. Ainda mais quando o prêmio é concedido por um júri categorizado como o Camões", completa, meio que amenizando o tom desafiador e enfastiado, como se já tivesse respondido a todas as perguntas e como se qualquer nova questão já fosse assunto há muito encerrado.

"Você sabe que sempre tive sorte com prêmios, não posso me queixar. Já recebi o prêmio da Academia Brasileira de Letras, dois ou três Jabutis e outras comendas importantes. Nada mal para alguém que nunca fugiu da polêmica", confessa, recordando uma ou outra celeuma, entre elas suas provocações aos grandes nomes da Poesia Concreta, Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, que gerou disputas e ataques que marcaram época, mas que segundo Ferreira Gullar também ficaram no passado. "São histórias que tiveram sua importância sim, mas que o tempo minimizou, quando não aproximou do esquecimento", explica.













Lembrança do risível



Ferreira Gullar ri quando lembra de uma ou outra questão das disputas com os concretistas e outros intelectuais e poetas e faz questão de dizer que chegou às polêmicas não pelo prazer de gerar polêmica, mas porque sua vontade de escrever sempre seguiu pelo caminho pleno da indagação. "Sou do tipo reflexivo, gosto das indagações, gosto de preservar o espírito crítico", destaca.

"Eu nunca tive medo de pensar por mim mesmo e nunca pude ficar preso a uma verdade indiscutível". Antes de “Em Alguma Parte Alguma”, o livro de poemas mais recente de Gullar era "Muitas Vozes", publicado em 1999. De lá para cá, ele lançou ensaios ("Relâmpagos", 2003) e crônicas ("Resmungos", 2007), além de uma versão para “Poema Sujo” em DVD e traduções, entre elas “Eros & Psiqué”.

"Sempre publiquei livros de poemas com intervalos de alguns anos e às vezes de mais de uma década. Não concordo nunca com o fácil, com o naturalismo, com o critério que aprova qualquer coisa. Poesia tem que dizer algo mais, tem que ser muito bem feita. Ou então não merece ser feita", dispara, citando um ou outro nome da lista dos que, segundo ele próprio, "se auto-intitulam poetas, mas que na verdade não foram, não passam de oportunistas, embusteiros".







O título do novo livro, ele diz que foi extraído de verso de um dos poemas inéditos, "A Corola", que compara o poema a uma flor. "A ideia é essa. O poema é uma flor que floresce em alguma parte alguma". O livro cerca de 80 poemas curtos. "Todos os meus livros de poesia são de certa forma parecidos e têm quase sempre a mesma extensão", ele diz.

Ferreira Gullar, que esteve recentemente em Belo Horizonte, cidade que visitou várias vezes nos últimos anos, para participar de eventos como conferencista e em lançamentos e sessões de autógrafos, garante que a oportunidade de visitar Minas Gerais é sempre uma experiência especialíssima que ele abraça com as melhores expectativas. "Tenho sempre uma satisfação enorme quando visito Belo Horizonte. Aqui tenho amigos e pessoas que só me alegram no convívio. É sempre um prazer. Não recuso nunca uma viagem a Minas quando me convidam", reconhece.



Viagem a Minas



 

O poeta, que durante o avançar da entrevista ao telefone foi perdendo o tom ranzinza e mau humorado, até conta situações para ele engraçadas das últimas das últimas visitas que fez à capital de Minas Gerais. "Estive aí várias vezes recentemente, algumas participando do projeto Sempre Um Papo do Afonso Borges. Guardo lembranças especialmente boas dos mineiros e das pessoas de Belo Horizonte", recorda, destacando uma lista de amigos de longa data, entre personalidades ilustres e alguns desconhecidos do grande público.





 

Referência de Gullar: O escultor, poeta e mestre
em artes gráficas Amilcar de Castro (1920-2002)


"Belo Horizonte é uma cidade única, com pessoas que têm uma relação afetiva muito forte com arte e literatura. É um lugar em que mantenho amigos de longa data. Alguns até já se foram, caso do Amilcar de Castro, grande amigo que conheci na casa do Mário Pedrosa quando ele estava chegando ao Rio, em 1952", ele diz - antes de informar que deve sair em breve um livro inédito dos raros poemas de Amilcar, que morreu em 2002.

"A filha do Amilcar me enviou todos os poemas que ele escreveu e eu sugeri Augusto Bastos, um especialista, para organizar o livro. Além de grande escultor e artista gráfico, o Amilcar foi um poeta dos mais interessantes que conheci", avalia. "Os leitores vão ficar surpresos quando puderem ler o livro com os poemas bissextos que o grande Amilcar de Castro produziu".




Gullar é pai de três filhos – um deles falecido. "Meu filho e minha filha gostam muito de música. Ele é também pintor, muito discreto, e os dois têm uma relação muito próxima com a música e a literatura. Meus filhos não são escritores nem poetas, mas são bons leitores", explica, bem-humorado. Diz que lê muito no dia a dia ("jornais, revistas, livros e sempre os poetas mais importantes - Drummond, Murilo Mendes, João Cabral, e os estrangeiros, Rilke e outros") e que gosta de viajar.

"Mas só viajo de carro, nunca de avião. Aviões e aeroportos são muito estressantes. Há mais de seis anos aboli definitivamente os aviões de minha agenda", confessa. Nascido em setembro de 1930 em São Luís, no Maranhão, Ferreira Gullar, além de poeta de reconhecida grandeza, tem longa trajetória como cronista, crítico de arte, biógrafo, roteirista, dramaturgo, tradutor, memorialista e ensaísta.






Poema Marinheiro



Para encerrar a entrevista, ele retorna a conversa ao começo, à sua estreia em livro, em 1949, com "Um Pouco Acima do Chão". "Gosto sim deste primeiro livro, mas tenho reconhecer que eu ainda era um poeta imaturo. Eu tinha apenas 18 anos quando publiquei. Fosse hoje, o livro seria muito diferente, o tom e a elaboração de cada poema seriam muito diferentes. O tempo traz muito aprendizado, muda nossa visão de mundo", reconhece, mas destacando que é naquele primeiro livro que estão alguns dos seus poemas que permanecem entre seus favoritos, entre eles "Marinheiro", do qual ele recita um longo trecho, depois de uma breve pausa, com facilidade e entonação personalíssima:


"Tudo que é triste,
tudo que é bom,
tudo que é belo,
tudo que existe,
tudo que sonhas

poder olhar;
todas as cousas
que inda não viste
- todas as cousas
estão no mar:

barcos fantasmas,
velhas galeras
jazem tristonhas
sobre as areias,
dormindo cheias
de ouro e de prata;
por suas salas
passeiam peixes
entre piratas,
- homens-fantasmas -
que, embebedados,
cantam cantigas
e bebem rum;

tristes escunas
de velas rotas,
mastros quebrados
só de acenar
para a lembrança
do último porto
- tristes escunas
de casco roto
só de chorar!..."

(e o marinheiro

ouvia absorto)

"Tudo que é morto

vive no mar!...

Crianças mortas
de olhos de pérola,
boquinha de âmbar,
como a sonhar,
arrumam búzios,
conchas, estrelas,
pedrinhas brancas
cor de luar.

Deusas formosas
de claros braços,
cabelos de algas,
ventre de espuma,
líquido olhar
- dançam frementes,
bulindo os seios,
gingando o ventre
para Netuno
se deleitar.


Vênus perfeitas
como a de Milo,
que não desejam
sair do mar...

 







Ferreira Gullar termina de recitar o trecho do poema, faz outra pausa, mais longa, respira fundo e diz que “Marinheiro” encerrou um dos eventos emocionantes que fez há pouco tempo em Belo Horizonte, no Palácio das Artes, dedicado à experiência poética do paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914), um dos poetas que o autor de "Em Alguma Parte Alguma" tem como como referência e lembrança de afeto entre todos os nomes da poesia brasileira.

"Você sabe, o projeto 'Terças Poéticas' sempre convida alguém para homenagear um poeta. Então, escolhi o Augusto dos Anjos, que produziu uma poesia encantadora e muito atual sob diversos aspectos. É interessante como o Augusto dos Anjos antecipa a poesia dos modernistas na temática e na linguagem, no uso de palavras banais e até anti-poéticas para aquela época. Ele foi um dos poetas mais críticos de seu tempo, e por isso reconheço nele um valor especial", avalia.



Poema Sujo em DVD



A história de “Poema Sujo”, Gullar ironiza, daria um filme daqueles bem sofridos que leva a plateia à lágrimas. Em outubro de 2005, o poeta foi ao Instituto Moreira Salles, na Gávea, Rio de Janeiro, para ler um poema que havia concluído 30 anos antes, em seu exílio em Buenos Aires. A cerimônia foi filmada pelo documentarista João Moreira Salles e lançada recentemente em DVD.




Com o próprio Ferreira Gullar e participação dos críticos Alcides Villaça e Antonio Carlos Secchin, a cerimônia apresentada no DVD teve mediação pelo poeta Eucanaã Ferraz. O registro foi inspirado na história da chegada do "Poema sujo" ao Brasil em 1975, numa fita cassete com leitura feita por Gullar, gravada e trazida para cá por Vinicius de Moraes.

Gullar recorda, ao telefone, que em 2005, quando o "Poema sujo" completava 30 anos, Antonio Fernando de Franceschi, também poeta e na época diretor do Instituto Moreira Salles, propôs que ele o regravasse, devolvendo-lhe a forma com que chegara ao Brasil. "O DVD reproduz a íntegra da filmagem, sem cortes, entram erros, hesitações, pigarros e demais impurezas”, ironiza Gullar. Além da leitura, o DVD traz uma entrevista com Gullar feita por Franceschi.



Eros e Psiquê



Diz a lenda que a mitologia grega na Antiguidade era tão forte que quando os gregos foram dominados pelos romanos aconteceu o improvável: os súditos de Roma abandonaram seus deuses e mitos para abraçar os deuses e mitos da Grécia. A história de Eros e Psiquê remonta este fascínio dos romanos pela mitologia dos habitantes de Atenas e outras cidades gregas. 
 


Inserida no livro "O Asno de Ouro", do escritor romano Lucius Apuleio, que viveu no segundo século depois de Cristo, o relato ganha nova tradução para o português assinada pelo poeta Ferreira Gullar. Em "Eros e Psiquê" (Editora FTD), o poeta conta com projeto gráfico belíssimo e ilustrações em preto, branco e ocre de Fernando Vilela para recontar o amor entre o deus Eros, filho de Vênus, e um ser humano (Psiquê) cuja beleza não pode ser expressa em palavras.

No enredo de Apuleio, os homens abandonam os templos de Vênus e descuidam de seu culto, prestando homenagens a Psiquê. Então a deusa decide vingar-se da jovem. Repleta de aventura, sentimentos extremados e sortilégios, a versão de Gullar para o clássico resgata a versão integral. Alguns adjetivos: belo, complexo e indispensável. Ou, nas palavras com que o próprio Ferreira Gullar abriu a entrevista: "Poesia é coisa rara. É arte. E a arte existe porque a vida não basta".

por José Antônio Orlando.




––  fac-símile extraído de uma página do
livro Em Alguma Parte Alguma. Abaixo,
Ferreira Gullar em fotografia de 2010




 



Principais trabalhos de Ferreira Gullar



Poesia

 
Um pouco acima do chão, 1949
A luta corporal, 1954
Poemas, 1958
João Boa-Morte, cabra marcado para morrer (cordel), 1962
Quem matou Aparecida? (cordel), 1962
A luta corporal e novos poemas, 1966
História de um valente, (cordel; na clandestinidade, como João Salgueiro), 1966
Por você por mim, 1968
Dentro da noite veloz, 1975
Poema sujo, (onde localiza-se a letra de Trenzinho do Caipira) 1976
Na vertigem do dia, 1980
Crime na flora ou Ordem e progresso, 1986
Barulhos, 1987
O formigueiro, 1991
Muitas vozes, 1999


Antologias 

Antologia poética, 1977
Toda poesia, 1980
Ferreira Gullar - seleção de Beth Brait, 1981
Os melhores poemas de Ferreira Gullar - seleção de Alfredo Bosi, 1983
Poemas escolhidos, 1989


Contos e crônicas
 
Gamação, 1996
Cidades inventadas, 1997
Resmungos, 2007


Teatro

Um rubi no umbigo, 1979


Crônicas 

A estranha vida banal, 1989
O menino e o arco-íris, 2001


Memórias 

Rabo de foguete - Os anos de exílio, 1998


Biografia 

Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde, 1996


Ensaios 

Teoria do não-objeto, 1959
Cultura posta em questão, 1965
Vanguarda e subdesenvolvimento, 1969
Augusto do Anjos ou Vida e morte nordestina, 1977
Tentativa de compreensão: arte concreta, arte neoconcreta - Uma contribuição brasileira, 1977
Uma luz no chão, 1978
Sobre arte, 1983
Etapas da arte contemporânea: do cubismo à arte neoconcreta, 1985
Indagações de hoje, 1989
Argumentação contra a morte da arte, 1993
O Grupo Frente e a reação neoconcreta, 1998
Cultura posta em questão/Vanguarda e subdesenvolvimento, 2002
Rembrandt, 2002
Relâmpagos, 2003


Televisão 

Araponga - 1990/1991 (Rede Globo) - colaborador
Dona Flor e Seus Dois Maridos - 1998 (Rede Globo) - colaborador
Irmãos Coragem - 1995 (Rede Globo) - colaborador





4 comentários:

  1. Uma vez, ao fazer uma matéria sobre Amilcar de Castro, que, mal-humorado, não quis esticar assunto, conversei com Gullar por telefone. Aí, o poeta me mandou um poema em que citava o amigo, publicado em "Barulhos".

    Um trecho: “Àquela tarde/ e próximo ao hospital da Polícia Militar?/ Talvez eu não lhe tenha dado tempo/ que o Amilcar estava ansioso/ e já se aproximava o ônibus Rio-Comprido-Leblon/ Assim me fui/ o poema ficou talvez/ imaturo/ parte no ar da loja/ parte como poeira/ em meus cabelos/ A verdade porém/ é que/ onde a poesia sopra/ por um átimo de tempo/ (de todo o tempo gasto no gás/ das galáxias/ rugindo)”.

    A matéria toda está aqui: http://monlover.wordpress.com/2010/11/07/geografia-de-amilcar-conquista-a-madeira/

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  2. Ferreira Gullar é nosso candidato a Prêmio Nobel, é poeta de primeira grandeza. Parabéns, José Antônio Orlando, pelas entrevistas inteligentes e pelo blog espetacular.

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  3. José Luiz Albuquerque16 de novembro de 2014 12:34

    Bela matéria, como todas que encontro neste fantástico blog Semióticas. Mas preciso dizer que este Gullar de 2011 já não é o mesmo: o atual virou um pilantra senil, destilando ódio e a serviço da extrema-direita. Parece que a poesia o abandonou definitivamente. Infelizmente.
    José Luiz Albuquerque

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    Respostas
    1. Sim, concordo plenamente com você porque é exatamente assim, meu caro José Luiz Albuquerque. Gullar caducou e agora foi transformado em instrumento do que há de mais vil e mais sórdido. Infelizmente.

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