domingo, 14 de agosto de 2011

Onde moram os anjos



O que pode uma casinha tão simples e colorida? A pergunta há décadas intriga a fotógrafa e artista plástica Anna Mariani, que viajou pelo sertão fotografando e organizando as cenas que parecem saídas da ficção. O primeiro livro com suas fotografias foi originalmente publicado em 1987, logo após a participação de impacto da artista plástica e fotógrafa na 19ª Bienal Internacional de São Paulo.

Aclamadas como grande arte no Brasil e no exterior, as fotografias de fachadas de pequenas casas de lugarejos do Nordeste brasileiro, sempre retratadas em ângulo frontal, sem a presença de pessoas e com enquadramento que exclui toda a paisagem ao redor, retornam às livrarias em nova edição do Instituto Moreira Salles para "Pinturas e Platibandas", revista e ampliada pela autora.











Com belos textos, tão breves como inspirados, de Ariano Suassuna, de Caetano Veloso e do pensador francês Jean Baudrillard, as imagens registradas por Anna Mariani correram o mundo depois da Bienal de São Paulo. Desde 1987, a série ganhou exposições de destaque na França, Alemanha e outros países, retornando agora às livrarias e a uma mostra no Centro Cultural do IMS em São Paulo, que depois segue para as sedes do IMS em outras cidades e nas capitais. 


Sete estados do Nordeste
 

A mostra do trabalho de Anna Mariani, com curadoria do crítico de arte Rodrigo Naves, reúne uma seleção de 24 imagens de fachadas multicoloridas - enquanto o livro reúne 200 das cerca de 2 mil imagens feitas pela fotógrafa de 1976 a 1995 em sete estados do Nordeste: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.







Anna Mariani, que nasceu no Rio de Janeiro, em 1935, estudou fotografia com Claude Kubrusly, Cristiano Mascaro e Maureen Bisilliat. A partir da década de 1970, viajou ao Recôncavo Baiano para documentar paisagem e manifestações culturais tradicionais. Uma seleção fotográfica no trabalho no Recôncavo seria reunida em livro e exposição pela primeira vez em 1987.

Em 1992, a artista publicou "Paisagens, Impressões - O Semi-Árido Brasileiro", no qual apresentava fotografias de paisagens nordestinas que registravam a escassez de recursos e também a diversidade de formas da vegetação daquela região. Ingênuas, caprichadas e extremamente simples, as fachadas e platibandas nordestinas nos registros de Anna Mariani expressam também um modo de vida que comove por sua delicadeza.











"O que dizem essas casas?", interroga Caetano Veloso, em texto escrito para a exposição de Anna Mariani no Centre Georges Pompidou, em Paris. "Para mim, são coisas íntimas. Casas que conheço por dentro. Em Santo Amaro, onde nasci, no Recôncavo baiano, as pessoas pintam suas casas a cada fevereiro para as festas da padroeira: é como comprar um vestido novo. A cidade fica endomingada, como se fosse um cenário de teatro ingênuo, com todas as casas recém-pintadas", registra Caetano.


Irregulares e multicoloridas


As pinturas à base de cal de cada casinha, elaboradas sobre fachadas e platibandas irregulares, são resultado de práticas artesanais seculares de caiação – técnica que aos poucos tem sido substituída por novos materiais e processos sem as mesmas características. De tão marcantes na arquitetura nordestina, as imagens resultante da pesquisa de Anna Marianni servem de referência para a cenografia de filmes e minisséries para a TV, a exemplo de “O Auto da Compadecida” (2000) e “A Pedra do Reino” (2007), entre outros, além de reforçar o interesse popular por esse marco na arquitetura nordestina brasileira.






"São fotografias", aponta Jean Baudrillard na apresentação para a exposição que Anna Mariani realizou no Museu Georges Pompidou, em Paris "mas apareciam como verdadeiras pinturas ou baixo-relevos, surgidos não se sabe de qual friso geométrico de um palácio de Minos subequatorial".

Baudrillard (1929–2007), poeta, fotógrafo, sempre citado entre os mais respeitados e influentes sociólogos e filósofos de nossa época, referência tanto em teses acadêmicas como na cultura pop (entre muitos outros, é inspiração confessa para os irmãos Wachowski, da trilogia “Matrix”), também destaca a poesia estranha que emana das imagens registradas por Anna Mariani. A poesia que emana de uma "miséria que não se expressa como miséria, mas como riqueza de linhas e aparências de uma fotografia que consegue, ela também, não ser mais fotografia".


por José Antônio Orlando.


Para comprar o catálogo de fotografias Pinturas
e Platibandas, de Anna Mariani,  clique aqui.


 










37 comentários:

  1. josé, meu querido. anjo é você, fico te imaginando numa dessas janelas a olhar o tempo. ficou lindo o seu blog. lindo mesmo. beijinho para você e vida longa para o blog que é show...

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  2. E a grife Maria Bonita usou estas mesmas casinhas como inspiração para sua coleção primavera verão do ano passado. Quanta singeleza!

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  3. É impressionante a noção de uma singela arquitetura que essas pessoas têm no subconsciente! e impressionante tb o que conseguem construir com tão pouco recurso... adorei, Zé! Cada post é um aprendizado!

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  4. (...)poesia estranha de uma "miséria que não se expressa como miséria, mas como riqueza de linhas e aparências de uma fotografia que consegue, ela também, não ser mais fotografia". Zé, de perto é isso e muito mais. Linda mostra fotográfica! Tem cheiro de chão batido e rachado. Nem sempre a beleza é tradução do belo, não é. A tristeza e o sofrimento as vezes mostram suas facetas divinas! Bjo grande!

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  5. Lindo post, José. Vale a pena visitar sempre seu blog.
    Um grande abraço.

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  6. Simplicidade nas fachadas e conjeturas sobre a riqueza dos seus personagens invisíveis. Lindo trabalho. A cada visita, uma surpresa. Obrigada, Zé.

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  7. Extremamente inspirador esse post! Lembro-me sempre do Punctum e Studium. Belas fotografias, e a preocupação com os enquadramentos e periféricos. Revelam um cuidado da arquitetura da época, em contraste com os novos perfis urbanos das mega metrópoles de hoje. Parabéns pelo post! Abraço Prof.
    Cristiano Morley

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  8. Muito enriquecedor mesmo sendo tão simples! Zé, muito obrigada por postar links maravilhos a cada dia! Abraços

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  9. José, que lugar delicioso esse seu blog! Vou ter que voltar várias vezes para conseguir ler tantos artigos interessantes.
    Essas casinhas são a cara do Brasil, a nossa cara.
    Abraço.

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  10. Singelas, autênticas, melancólicas... Casinhas inspiradoras, fotos idem!

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  11. Re-postei no meu blog. Sempre admirei essas fachas!

    www.nopedaparede.blogspot.com

    Abraços!

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  12. José, simplesmente amei esta postagem! Estou com uns projetos de fotografia bem parecidos com o trabalho desta artista. E o nosso sertão é maravilhoso demais né! Muito obrigada pela várias "luzes" que aparecem ao ler suas postagens e também por enriquecer nossos conhecimentos a cada dia! O blog está um sucesso e será sempre! Abraços com saudades das aulas de semiótica!

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  13. Hoje as prefeituras teimam em utilizar cores fortes nas novas casas de conglomerados e favelas reurbanizados. A inspiração pode ser esta, mas (total e completamente) fora de contexto tudo perde o sentido, que é cuturalmente belíssimo! Lindas fotos. E o blog ta show, Zé! Parabéns!

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  14. Com o perdão do "cuturalmente", né...

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  15. Maria Carmem Barbosa17 de agosto de 2011 17:23

    É muito lindo e um prazer pra olhar ver essa fotos, simples e tão românticas. É o amor pela terra que vivemos!

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  16. Maria Carmem Barbosa17 de agosto de 2011 17:27

    É muito lindo e um prazer olhar essas fotos lindas e românticas. É uma declaração de amor a terra que vivemos!

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  17. Trabalho de dois olhares fantásticos: o da fotógrafa e o do autor do blog. Em minha primeira visita, já fui recebida com o prato que mais me abre o apetite: fotografia. Com licença, vou passear por aqui - se o dono da casa não se importa. Afinal, deixou as portas abertas... Parabéns!

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  18. Maravilha! delicadeza!

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  19. Ola Zé Orlando.

    Adorei o blog, adorei os posts, e me encantei com este daqui. Fotos de paisagens e objetos são as minhas preferidas. Gostei como a fotógrafa retrata essas casinhas, tão presentes na nossa cultura (no nordeste e nos interiores), e principalmente, como elas atraem nosso olhar e nossa imaginação.

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  20. Estou apaixonada por essas casinhas!! Bate aquela vontade de sentar na porta e assistir o dia passar.

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  21. Anna Clara Moraes Sarmento26 de fevereiro de 2012 10:12

    Fiquei tão emocionada quando vi estas imagens pela primeira vez que tive a nítida sensação de já ter estado aí, em cada uma destas casinhas. Como é possível?
    Ah, José. Seu blog é uma delícia, nem sei qual das páginas elogiar primeiro porque todas são lindas e seus textos são um encantos, todos, todos. Parabéns e vida longa e prosperidade, a você e a esta maravilha que você batizou de Semióticas...
    Anna Clara Moraes Sarmento

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  22. muito lindo!!! Sensacional!.. Apaixonante e totalmente nostálgico, pelo menos pra mim, que passe a infância no interior de minas onde muitas casas antigas tinha construções como essas...(e ainda tem)... lindo e inspirador! Estou até animando a fazer umas imagens na minha cidade inspiradas nessas da Anna Mariani. Bjos

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  23. Tudo muito lindo !!! vou postar para minha filha, acredito que ela vai amar também. Conheço algumas cidades dessas aqui em Pernambuco, quero revisitá-las, tudo muito simples e belo.
    Abraços

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  24. Lindas imagens, pura poesia da nossa terra, escrita pelo povo e interpretada por Anna Mariani...

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  25. Imagina o que significa, para esta sertaneja desterrada, se deparar com tamanha belezura que retrata tão fiel e poeticamente seu lugar primeiro...

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  26. Vanessa Eliziário5 de maio de 2012 15:00

    Levei um susto e depois fiquei encantada. Esta página é poesia pura, mas também é jornalismo, da melhor qualidade. E não é só esta página: todas do seu blog são maravilhosas. Este Semióticas, falando sério, é a coisa mais linda que já encontrei na internet, José. Mil beijos!

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  27. Quanto mais lia mais via e mais cheiro de barro molhado sentia. Este cheiro que gruda, que fica marcado na gente e que tem sabor de infância com pés descalços, numa liberdade sem fim!!
    É... Caetano tem razão, pra quem viveu lá nos interiores desses tantos brasis, tudo isso é muito íntimo, tudo isso é vida em barro batido.
    Zé, tu plantas poesia!!!!
    Abraço grande e obrigada por este lindo e poético ensaio.
    Benilde

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  28. Não dizem que a beleza mais verdadeira mora na simplicidade? Tudo aqui neste site Semióticas é assim. Lindo, simples, descomplicado, verdadeiro. Só posso agradecer.

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  29. Alice Dias do Amaral21 de novembro de 2013 17:39

    Que beleza, quanta poesia neste meu Brasil. Agradeço muito pelos altos toques, meu querido autor do blog Semióticas. Seu trabalho é de uma nobreza sem comparação. Sou fã.

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  30. Magnífico trabalho, José Antônio. Resgata de forma comovente esse imaginário popular de poesia e brasilidade que inspirou tantos anjos cancioneiros e cordelistas.
    Muito lindo!
    Claudio Bastos.

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  31. Havia pensando algo relacionado uma vez, mas com o registro fotográfico de pequenas igrejas que exitem nos inteiores de Minas...Sensacional do trabalho da Anna Mariani.
    Uma linha bem gráfica!
    Sobre Baudrillard, pretendo conhecer melhor as obras dele!
    Mais uma vez parabens Zé!

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  32. Muito bom o trabalho, Zé! Tinha ouvido sobre ele no festival de fotografia de Paraty e ver esse punhado de imagens aqui foi ótimo.

    A esfera de minha família materna é cearense e, como nos ditos de Caetano, já passei alguns bons momentos endomingados nesse tipo de casinha na minha infância. Eram momentos de prosa e café em cadeiras de vime e nylon à frente dessas fachadas tão simples e ímpares que marcam as casas das famílias nordestinas. Revisitei minhas memórias! Linda poética.

    Valeu, professor!

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  33. Valeu, meu querido professor! Também recordei com alegria os tempos em que eu ia com toda a família passar o final de ano em casa de minha avozinha no interior da Bahia. Amo este seu blog. Tudo aqui é lindo e emocionante. Agradeço sempre a cada visita que faço a este maravilhoso Semióticas.

    Sônia Terra

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  34. Letícia Gomes Garcia4 de abril de 2016 18:12

    Parabéns por esta matéria linda e pelo blog Semióticas todo que é excelente. Agradeço por você compartilhar beleza e sabedoria.

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  35. Tão lindas quanto "casa de vó"! É a esse tempo que as fotografias de Anna Mariani me levam... minha infância na casa da minha avó! Obrigada por trazer isso de volta em mim...

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  36. Excelente! Uma contribuição -- a nível de fotografia -- quase Volpiniana!...
    Ariel Paulo Marques

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