sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Canto para o mundo






Quase cinco décadas separam as trajetórias de Céu e de Astrud Gilberto, duas cantoras e compositoras brasileiras que têm semelhanças no estilo e voz suave. Céu está no início de carreira, lançando os primeiros discos e conquistando fãs no Brasil e no exterior, enquanto o prestígio de Astrud Gilberto no exterior é indiscutível desde o começo da década de 1960. Contudo, no Brasil, Astrud Gilberto, por incrível que pareça, continua restrita a públicos específicos, cultuada principalmente pelos apreciadores de Jazz e Bossa Nova. 

Aos 71 anos, completados no mês de março, atualmente mais afastada dos palcos e da mídia, Astrud Gilberto é homenageada com uma raridade: o primeiro DVD da cantora e compositora acaba de chegar às lojas no Brasil e em outros países. "Astrud Gilberto Ao Vivo no Lugano Festival Jazz" foi gravado em 1985 no célebre festival da Suíça, que atrai todo ano, no mês de julho, uma multidão à centenária Piazza della Riforma para ouvir ao ar livre grandes nomes da música internacional e celebrar o verão.

Os fãs de Astrud Gilberto vão por certo ter uma grata surpresa com as imagens da musa em cena, sempre elegante e meio tímida, fazendo mudanças sutis em canções conhecidas, subtraindo compassos, acelerando ou desacelerando o andamento da música. Para a grande maioria do público, será a primeira vez que se vê Astrud cantando. As imagens de suas performances são raríssimas, mesmo no Youtube e em outras plataformas da Internet. No Brasil, ela se apresentou uma única vez, em 1965, em São Paulo. Desde então nunca mais se viu por aqui seu jeito suave de cantar - que lembra o estilo que João Gilberto consagrou e que virou marca registrada da Bossa Nova.

No show em Lugano, Astrud Gilberto e banda apresentam clássicos que ela própria lançou, na década de 1960 - mas também algumas surpresas. Gravado pela TV da Suíça, o show acontece à noite, com a praça lotada. Astrud entra em cena com uma versão personalíssima de "Águas de Março", com afinação impecável e fraseado bastante diferente da versão gravada por Tom Jobim e Elis Regina em 1970. Ela agradece os aplausos falando em italiano e português e emenda com duas inéditas, "Kumbia" e "Milky Way", composições do então estreante Paulo Jobim, filho de Tom.




Na sequência vem "Dindi", comovente e nostálgica. Astrud tropeça na letra, faz uma pausa e retoma os versos perfeitos de Tom Jobim, sempre elegante. "A Rã", de Caetano Veloso, ganha versão instrumental com "scratches" cheios de "borogodó, berém, berenguedém..." que parecem vir direto do repertório de Carmen Miranda. "Canto de Ossanha" (Vinicius de Moraes) tem uma versão mais contida, com trechos em inglês e versos sussurrados ("pergunte ao seu seu orixá, o amor só é bom se doer...").



Parceria Getz/Gilberto



"Telefone" (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli), do cancioneiro de Nara Leão, é apresentada em inglês no show em Lugano, seguida de "Girl From Ipanema", clássico dos clássicos de Tom Jobim e Vinicius, que levou Astrud para as paradas de sucesso do mundo inteiro em 1964 - ano do antológico disco "Getz/Gilberto", no qual ela e o então marido João Gilberto dividiram os vocais em parceria com o saxofonista Stan Getz. O repertório de "Getz/Gilberto" também foi a base para o célebre show de João Gilberto, Astrud, Tom Jobim, Milton Banana e companhia no ano de 1962 no Carnegie Hall, em Nova York, evento que consagrou a Bossa Nova fora do Brasil.






Além da presença mítica de Astrud Gilberto no palco, comandando o show, a banda tem belos momentos e performance solo dos músicos que levam a muitos aplausos do público. Acompanham os vocais impecáveis de Astrud um time de bambas: David Saks no trombone, Steve Harrick ao piano, bateria de Duduca Fonseca e, no contrabaixo, a presença rara de Marcelo Gilberto, filho de João Gilberto e Astrud.

O show em Lugano termina com uma versão acelerada para outro clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, composição feita para o espetáculo "Orfeu da Conceição", que estreou no teatro em 1956 e que no ano seguinte ganharia uma versão nos cinemas, como "Orfeu Negro": "A Felicidade" ("tristeza não tem fim, felicidade sim..."). Na sequência, uma versão alto astral de Aloysio de Oliveira para "In the Mood", clássico de Glenn Miller na era das "big bands", na década de 1940 - que na versão Bossa Nova virou "Edmundo" e havia sido gravada originalmente por Elza Soares em 1967.






Astrud Evangelina Weinert, que nasceu
em Salvador, em 1940, adotou o nome
Astrud Gilberto em 1959, depois do
casamento com João Gilberto. Acima,
Astrud com Tom Jobim em Nova York,
em 1964. Abaixo, os recém-casados
Astrud e João Gilberto fotografados
no Rio de Janeiro, em 1960
 









Geração de seguidores



Presente sofisticado para os mais exigentes, o DVD de Astrud Gilberto ao vivo em Lugano tem apenas uma ressalva: a pobreza franciscana do lançamento, que não tem encarte, nem ficha técnica, nem identificação dos músicos da banda ou dos compositores das 11 canções. Pela raridade que representa, merecia melhor acabamento, mas ainda assim é imperdível. 

Sempre presente nas listas das grandes cantoras de jazz de todos os tempos - ao lado de divas do Olimpo como Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Nina Simone - as gravações de Astrud Gilberto mantêm seu impacto e formaram gerações de seguidores, como destacam em Belo Horizonte especialistas como Bob Tostes e Pacífico Mascarenhas.





Astrud Gilberto e o saxofonista
Stan Getz em 1964. Após o divórcio,
João Gilberto voltou para o Brasil
e Astrud continuou morando em
Nova York com Marcelo, o filho
que teve com João Gilberto, e
conduzindo a carreira em novas
gravações e apresentações nos
EUA e em países da Europa


"Ela é inigualável, simplesmente inigualável", aponta o músico e radialista Bob Tostes, pesquisador da música brasileira e da Bossa Nova em particular. "Astrud Gilberto criou um estilo e causou impacto nas cantoras de sua geração e em muitas das jovens cantoras que vieram depois. São muitas as grandes cantoras que buscam a suavidade e a interpretação frágil e contida que Astrud trouxe para o jazz e para a música brasileira", completa.

Para o compositor Pacífico Mascarenhas, Astrud Gilberto é um nome tão essencial para a Bossa Nova como o próprio João Gilberto. "Astrud viveu um certo tempo em BH, no final dos anos 1950, na casa de uma tia dela que morava no Bairro Santo Antônio. Foi aqui que ela e João Gilberto começaram a namorar. Como ela tinha fluência no inglês, foi quem ajudou a treinar a pronúncia do João e sem dúvida nenhuma ajudou muito a abrir as portas para a Bossa Nova no exterior", recorda Pacífico, autor da canção "Pouca Duração", que foi gravada por Astrud na década de 1960. "Concordo com o Bob Tostes. Inigualável é a melhor palavra para descrever Astrud Gilberto", conclui. 





 






Depois de Astrud, Céu



A lista de cantoras brasileiras que ganharam o mundo não é tão extensa. Começa com Carmen Miranda, no final da década de 1930, passa por Astrud Gilberto a partir da década de 1960, inclui o sucesso de Elis Regina no Festival de Montreux e algumas outras que investiram no filão do jazz e da Bossa Nova, principalmente no mercado da Europa e do Japão. Agora a lista ganhou mais um destaque: Céu, que despontou como jovem promessa da MPB em 2002, aos 22 anos, depois de começar na música aos 15 anos, quando chegou a gravar vocais para jingles publicitários.

Seu disco de estreia, batizado de "Céu", lançado em 2005, foi uma aposta dos selos Urban Jungle e Ambulante Discos (do produtor Beto Villares) que teve a sorte de conseguir distribuição no exterior pela Warner Music. Bem recebido pela crítica lá fora, que compara Céu a Marisa Monte, outra brasileira que tem público fiel em vários países, o CD de estreia transformou a cantora e compositora Céu em fenômeno de vendas também fora do Brasil.







Nos Estados Unidos, o disco de estreia da cantora e compositora alcançou a marca invejável de 30 mil discos vendidos em duas semanas, chegando à primeira posição nos rankings de "world music" - a mais alta posição conquistada por uma cantora brasileira no mercado norte-americano desde a gravação original de "Garota de Ipanema" por Astrud Gilberto, em 1963. O disco de estreia ainda vendeu mais de 25 mil cópias em países como França e Holanda e garantiu a Céu uma indicação ao Grammy Latino, em 2006, na categoria artista revelação.

O segundo disco, "Vagarosa", lançado em 2009, segue a mesma trilha do sucesso que aproxima Céu de artistas contemporâneos difíceis de classificar pelos gêneros e categorias tradicionais. Na trilha de nomes como o francês Manu Chao, Céu vem investindo radicalmente na pesquisa de novas possibilidades e sonoridades, com influências generosas de eletrônica, mas também de samba, frevo, tango, salsa, jazz, blues, folk, hip hop, afrobeat, ska, dance hall e, especialmente, reggae.





Menina Rosa



"Vagarosa" reúne um total de 12 surpreendentes composições próprias, inéditas, e uma única releitura - um rearranjo psicodélico para "Menina Rosa", clássico de Jorge Ben Jor que soa irreconhecível na nova versão. Produzido pela própria Céu em parcerias inspiradas com Beto Vilares, Gustavo Lenza e Gui Amabis, "Vagarosa" é um disco corajoso. Não faz concessões, na contracorrente dos repertórios "versáteis" e pretensamente moldados sob medida para o sucesso tão fácil como efêmero. Definitivamente, é daqueles discos para ouvir com atenção e gostar muito ou não gostar.

Destaque para o auxílio luxuoso de convidados especiais do porte de Luiz Melodia (no autêntico samba recriado por Céu em "Vira-Lata"), além dos vocais sussurrantes e impecáveis de Thalma de Freitas e Anelis Assumpção - que fazem lembrar Rita Marley e outras vocalistas dos mestres da Jamaica em "Bubuia". Marcelo Jeneci também marca presença em "Sonâmbulo", assim como BNegão e Curumin no reggae "Cordão da Insônia", uma das melhores surpresas de um disco que merece destaque entre os principais lançamentos da última temporada.





"Vagarosa" começa com uma pequena porém emblemática vinheta - o prelúdio em samba "Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso", com seu belo fraseado que remete aos bambas da velha guarda do samba, mas tem letra e música originais de Céu. Tocada apenas ao cavaquinho (por Rodrigo Campos), tira partido da poesia do primeiro verso - "vai pegar feito bocejo/ o que só o sentido vê". É a primeira de uma série de metáforas que reforçam o clima lento, sossegado e sofisticado do CD.

Na sequência, a irresistível "Cangote" ("Fiz minha casa no teu cangote/ não há neste mundo quem me bote/ pra sair daqui...) instaura os ares modernos que as faixas seguintes vão estender até extremos da harmonia. "Cangote" traz o veterano baterista Gigante Brasil em seu show particular e Beto Vilares na guitarra, baixo e "scratches".



Inflexível e hipnótica



Por "Vagarosa" ainda desfilam, entre muitos outros, o talento de Fernando Catatau (em "Espaçonave", que inclui sons da floresta amazônica gravados por Guilherme Ayrosa), Los Sebozos Postiços (formados por Lucio Maia, Pupilo, Dengue, Bactéria, Gustavo da Lua e Jorge du Peixe, egressos do Mundo Livre S/A). Outra presença importante é Chiquinho, mentor da banda Mombojó, em faixas como "Comadi", "Espaçonave" e "Cordão da Insônia".




Entre tantos convidados ilustres, Céu consegue se impor como o melhor destaque. Com sua voz pequena e sussurrada, que por vezes lembra a jovem Gal dos anos 1960, por vezes soando inflexível e hipnótica, por outras sedutora e caliente, a jovem cantora e compositor equilibra timbres e músicos com raro talento e carisma.

Ao pegar carona na eletrônica e na nova onda de "scratches" e remixes, características de suas investidas desde o disco de estreia, Céu em "Vagarosa" deixa para trás os clichês surrados de medalhões da MPB tradicional e renova as possibilidades do samba e da Bossa Nova entre outros gêneros e categorias. E acerta em cheio, alcançando sonoridades que retratam os novos tempos sem repetir as referências de nossos pais.


por José Antônio Orlando.



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9 comentários:

  1. Sou fã de carteirinha da Astrud e estou na fila para conseguir uma da Céu.
    Beleza de post.

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  2. otimo o post e sempre bem acompanhado de boas imagens!congratulations!Adoro seu blog!

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  3. sou fã de carteirinha da Astrud também e de todas as referências que por sorte encontrei aqui no seu blog, meu querido José Orlando. Mandei para o seu e-mail um texto sobre o concerto da Bossa Nova e as cantoras brasileiras que ganharam o mundo, que saiu como resumo de tese na revista da Unicamp. Sua leitura, reconheço, foi além apesar de tão breve. Agora sou fã do seu blog também. Parabéns pelos textos e edições brilhantes. Congratulations, como disse o R. Fraga.

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  4. Seu texto multiplicou a beleza em Astrud.
    José,obrigada por mais este resgate.
    Abraços carinhosos
    Benilde

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  5. Astrud parece demais com a cantora Nara Leão (ou será o contrário?), não somente na fisionomia, mas também na maneira de interpretar as canções, de forma delicada e singela... Isto sem falar no estupendo talento de ambas.

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  6. Carlos Eduardo Scaffidi23 de fevereiro de 2013 07:47

    Que texto, que fotos, que blog! Parabéns, José. Creio que este é o melhor site independente que já encontrei - e olha que eu navego...
    Muitos parabéns para você. Virei fã

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  7. Seu blog é o máximo. Nunca encontrei uma matéria tão legal sobre Astrud Gilberto. Adorei. Também virei seu fã, Semióticas. Vida longa para tanta beleza e sabedoria!

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  8. JOSÉ, parabéns pelo seu interessante Blog Semióticas...!
    Convido a você a conhecer o meu Bossa Nova Clube / Abraços desde Rio de Janeiro...!
    http://www.bossanovaclube.blogspot.com

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  9. Esta é a melhor matéria de todas que já encontrei sobre Astrud Gilberto. Seu site é perfeito. Virei seu fã. Aproveito para convidar você a visitar minha página no Facebook, José. Parabéns demais!

    Wilson de Almeida

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